cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

Crônica de tempos inglórios

“Por que foi que cegamos [...], Queres que te diga o que penso [...], Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”


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O domingo estava pacato, como vários outros domingos, onde o tempo se esvai com almoços em família, a televisão balbucia balelas de programas de auditório, e a vida fica mais mesquinha ao se deixar levar pela realidade; portanto, andar pela cidade seria uma bela terapia de domingo.

Sentei-me no ponto de ônibus juntamente com a minha namorada, onde permanecemos longos trinta minutos. Enquanto nos prendiamos em devaneios, entre resolver sobre o sorvete que iriamos tomar e os compromissos do dia seguinte, fomos interrompidos por uma senhora, muito simpática. Senhora de cabelos curtos, óculos escuros, pele negra, sorriso largo embelezado por um batom vermelho, e estatura média.

_ Você sabe o horário que passa o ônibus? - Perguntou-me ela.

_ Daqui uns 10 minutos ele deve estar passando, domingo os horários são reduzidos. – Respondi.

_ Domingo é tão difícil pegar ônibus, não é? – interrompia as falas com breves risadas. – Minha amiga me chamou pra ir à missa, mas não sei se vou chegar a tempo. Você sabe como é, domingo é difícil, e tenho marido pra cuidar, então preciso primeiro atender ele, pra depois sair. Se eu fosse sozinha, até chegaria a tempo; Vou sentar lá no fundo e finjo que cheguei no horário, o importante é estar lá.

_ Ah é! Domingo é sempre corrido. – Reproduzimos velhos clichês sociais, daqueles que nem se vê falando, tomado por um mecanicismo pouco saudável.

E a senhora, prosseguiu:

_ Antigamente tinha umas vans, que pegava o povo nos pontos de ônibus aos domingos, mas como eram boas para o povo, os políticos foram lá e tiraram as vans de circulação.

Como todos têm uma solução para o país, a senhora de óculos escuros lançou o seu palpite:

_ Sabe qual é o problema do país? É que gente honesta não tem coragem de peitar e dizer que vai mudar a realidade, enquanto o povo desonesto já tem coragem. – E não imaginávamos que o pior ainda estava por vir. – Eu assisti uma reportagem, não sei onde foi, acho que lá nas Filipinas, o Presidente fez uma lei que quem visse um drogado na rua, ou alguém cometendo algum crime, podia matar. Sabe, matar mesmo, pra diminuir a criminalidade. Não é igual aqui no Brasil que os de menor ficam fazendo o que querem, sem serem punidos. Se eu fosse presidente do Brasil, faria igual o Hitler, ia colocar esses drogados e criminosos tudo pra morrer naquelas câmaras, porque se está lá é porque fez algo e merece estar lá.

Diante do tamanho absurdo ali dito (e o pior, dito com um sorriso no rosto) compreendi as velhas e tão atuais palavras de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal. O mal que já não nos importamos, que fechamos os olhos, talvez a cegueira branca, do inigualável romance Ensaio sobre a cegueira de Saramago, já nos tenha atingido. “Por que foi que cegamos [...], Queres que te diga o que penso [...], Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”. Precisa-se ser responsável quando se tem olhos, e mais ainda quando se consegue enxergar, é preciso evitar que absurdas barbáries da história voltem a acontecer.

Não consegui dizer nada, as palavras fugiam de minha boca, e me restava, apenas, os meus olhos esbugalhados de susto, em ouvir tamanhos absurdos. O meu silêncio, a minha incapacidade de reagir diante daquelas ideias genocidas, deram a aquela senhora a infeliz impressão de que ela poderia estar certa. Neste ínterim, o ônibus nos salvou daquela fala hedionda, o rugido dos freios nos causou uma maravilhosa sensação de liberdade. Desgraçadamente, “da cadela do fascismo”, que a cada dia está mais no cio, nenhum ônibus nos salvará.

O mal, sem querer ser maniqueísta, não é, somente, de horrendas criaturas, malcheirosas, carcomidas pela morte, de figuras como Hitler, Stalin ou Mussolini, e sim, de sorrisos belos, e palavras doces que cotidianamente aceitamos e reproduzimos, propagando ódio e menos tolerância, da violência de pessoas comuns, de bons pais e mães de família, que lincham o ladrão de celular, dos velhos clichês “bandido bom é bandido morto”, que trivializam um estupro, que pedem a volta de ditaduras violentas, que apoiam a tortura, que propagam o racismo e a homofobia, aquela violência que frequenta as missas aos domingos e rotineiramente violenta seus semelhantes com palavras ou ações intolerantes. Brás Cubas sabia bem dessa miséria que perpassa o legado da humanidade até os últimos vermes que roerão nossas carnes frias.

A banalidade do mal é rotineira, cotidianamente presente em nossas ações, simplificadas pela falta de pensamento crítico, lentamente chocadas como “o ovo da serpente” de Ingmar Bergman, até que em um certo momento o vampiro antidemocrático não nos assustará mais e o aplaudiremos quando abocanhar a garganta de alguém, até que abocanhe a nossa e estaremos sozinhos porque fechamos os ouvidos quando podíamos evitar.

Este momento lembra-me apenas um trecho do livro ‘O anticristo’ do autêntico filósofo alemão F. Nietzsche: “Eu volto atrás. Conto a autêntica história do Cristianismo. Já a palavra ‘Cristianismo’ é um mal entendido – no fundo houve um único cristão, e este morreu na cruz. O ‘Evangelho’ morreu na cruz”.

As demais reflexões deixo para leitores intranquilos e tomados por uma ansiedade temerária como eu.

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Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
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