cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

Entre Fabianos e Marias Antonietas

Breve reflexão sobre o Brasil contemporâneo


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Falar da política brasileira é sempre uma batalha contra a nossa tradição quixotesca, é preciso humildade para não repetir os tantos erros abissais que habitam as bocas brasileiras. Ainda em tempos como esses, de amiúdes consciências e capacidades argumentativas. O conselho de Polônio a Laerte em Hamlet de Shakespeare guarda sempre a eternidade de um clássico, ou seja, sempre aprenderemos com a atualidade dessas obras. “Presta ouvidos a muitos, tua voz a poucos”, era o que todos, antes de tudo, deveríamos fazer, aprender mais e sempre, para depois despejarmos nossas opiniões no mar de lama e ódio que tem existido nesse país.

O Brasil, um país que insiste em sua fantasia de espirituoso e receptivo povo, continua mordaz, cruel e preconceituoso, desde os tempos remotos de nossa descoberta; não precisamos de grandes violências incitadas pelo ódio de gênero ou etnia para provar a nossa relutância em aceitar o diferente, basta percebermos que continuamos adjetivando de doutor ou doutora médicos e advogados, e a desventura se encontra na felicidade que sentimos quando recebemos tais adjetivos. Um país cercado de Marias Antonietas, que gozam de todos os privilégios de uma sociedade marcada por costumes coloniais, que engordam os bolsos com a atividade ilícita, discursam sobre a corrupção no Estado, mas participam de licitações fraudulentas ou usurpam direitos da mulher. Não que um erro minimize o outro, pelo contrário, mas perceber que a política é mundana, e que nossa moralidade reflete dentro do parlamento, seria de grande ajuda para melhorarmos a nossa concepção de sociedade. Sociedade civil que poderia fazer muito para melhorar as condições apequenadas de nosso país.

É preciso de certos aspectos da tradição política brasileira para compreendermos certos eventos que persistem em ocorrer no centro de nossa política, uma delas, a nossa já caduca corrupção, e a sistêmica crise de representatividade.

“Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão, e em seguida café para o comércio europeu. Nada mais que isso.” Caio Prado

Desde os tempos remotos de nossa colônia, criamos pouca tradição na construção de nação; nação enquanto povo unido envolto a um território. Já nascemos sob interesses escusos e de muito fascínio para poucos nesse território, e a grande parte dos que aqui habitavam olhavam o grito do Ipiranga esperando que daquela voz viesse à salvação para os problemas. Como reconhece Caio Prado, nossa história se resume em servir e produzir para alimentar o mundo que se modernizava lá fora; enquanto aqui vivíamos sob a sedução de teorias já arcaicas do mundo Europeu. Enquanto o Paraguai se industrializava no séc. XIX, o Brasil com seu território agigantado continuava agrário, dependente da velha política agroexportadora, e que em pleno séc. XXI continua a ser a nossa atividade preponderante.

O espírito comum transcende a própria vida da coletividade; esse espírito nacional dá identidade através da história comum, da religião, do idioma, ou melhor, dos elementos mais primordiais, da essência definidora de cada indivíduo. As recordações comuns impulsiona à uma busca de um futuro comum, o ser nacional é uma forma de sobrevivência do ser individual, da ligeireza do destino de sua vida. Por conseguinte, o Estado, como detentor do poder, é o único capaz de absorver as aspirações da nação. Aqui é preciso cautela para não atingir o nível de um organicismo fascista, e nem romper os liames que o breve século XX foi capaz de romper (aqui me refiro a Eric Hobsbawm).

A própria República brasileira, nascida de um golpe violento contra as antigas estruturas monárquicas, não foi capaz de criar o espírito republicano de um país que olhasse a nação e o povo brasileiro como algo solene. O espírito positivista, cerne no exército brasileiro, não foi capaz de encontrar o progresso, pelo contrário, apenas colaborou, com novas roupagens, com as mesmas estruturas arcaicas da já velha monarquia. A classe política corrupta, governando para seus próprios interesses, se preocupando mais com a mesquinhez de sua casta do que com a situação precária das nascentes cidades brasileiras. Antônio Conselheiro, figura curiosa de nossa história, foi mais sábio do que esperava ao apelidar a república de anticristo; Tanto fulgor com aquela nova realidade que se avizinhava, um otimismo que se revelou vão, para acabar moribunda e na cruz como Cristo.

A história brasileira desmente a bandeira, é de uma ordem assassina e pouco progresso. História autoritária, sanguinária, marcada por sucessivos golpes e pouco debate político. O povo brasileiro acostumou-se a permanecer ali no meio, como se tudo o que acontecesse na capital não fosse de importância, e nem o atingisse diretamente; pobre ilusão. As mudanças através do clamor do debate político pouco aconteceram, sendo sempre substituída pelos golpes. E o soturno acontecimento se resume em encontrar pessoas que louvam ditaduras violentas, que usurparam direitos fundamentais, e que aplaudem a truculência de quem aplica a exceção em um Estado de Direito.

Políticas autoritárias de uma elite pouca interessada no bem comum, que pouco entendia que a justiça econômica era essencial para o progresso, fez com que o Brasil vivesse de um populismo, e um messianismo à custa da manipulação da figura povo e nação, que continua sendo usada para a falsificação de interesses. Enquanto, o debate e a consciência política foram esquecidos em meio ao oceano profundo de autoritarismos, populismos, e uma sociedade hierarquizada. O debate político consciente pouco foi coadjuvante das mudanças; e na nossa concepção de história apenas falseamos a realidade violenta que nos cerca apelidando de revoltas aquilo que na mais clara lucidez foram guerras civis.

Nossa crise de representatividade se refere ao longo abismo entre aqueles que foram eleitos e seus eleitores, há pouca semelhança entre os que ocupam as ruas e os que ocupam as cadeiras do parlamento. Como já disse anteriormente, a população se limita a se extasiar pelos remédios rápidos, e corporificar a grande esteira de produção de ideias vazias, possuindo um comportamento, como entende Schumpeter, de uma manada de bois. Nossa história carece da pouca tradição democrática de nossas instituições, e da grande luta pelo poder moderador que outrora deixou de existir. A tradição messiânica parece exigir sempre o autoritarismo do poder moderador, que toma a última decisão, aquela que a incapacidade argumentativa dos agentes políticos não foi capaz de resolver. Gilberto Freyre em Casa grande e senzala elucida grandiosamente essa questão: “A tradição conservadora no Brasil sempre se tem sustentado do sadismo do mando, disfarçado em “principio Autoridade” ou “defesa da Ordem”. Entre essas duas místicas- a da Ordem e da liberdade, a da Autoridade e a Democracia- é que se vêm equilibrados entre nós a vida política, precocemente saída do regime de senhores e escravos”.

A grande verdade é que continuamos repetindo erros da velha república, mantendo uma grande briga entre torcidas, lama na imprensa, sangue nas bandeiras, e o povo no meio disso tudo sem se preocupar com a verdade. A verdade descarada, na cara de Marias Antonietas e Fabianos que falam muito e pouco falam; disparates, e frivolidades. Humberto Gessinger em sua música vícios de linguagem nos auxilia a compreender a complexidade de nossa política.

Entretanto, cobiçar e buscar o novo são essenciais, ter vontade de mudança e reconhecer a si como exemplo moral da vida coletiva. Coragem e humildade são as qualidades essenciais de um bom estadista, mas coragem e humildade são essenciais para continuarmos a pensar e promover um Brasil mais justo, democrático e melhor, que não se constrói com um rápido amanhecer, mas com um longo caminho cheio de pedras e livros para nunca deixarmos de conhecer.

O fim não poderia ser outro sem invocar o poeta mineiro Guimarães Rosa, de tantas histórias e estórias, de tantas margens e terceiras margens, que buscaram desvendar os mistérios desse sertão que é o povo brasileiro e o Brasil.

“O correr da vida embrulha tudo,

a vida é assim: esquenta e esfria,

aperta e daí afrouxa,

sossega e depois desinquieta.

O que ela quer da gente é coragem”.

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Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
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