cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

Ode às palavras

"Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma” Fernando Pessoa


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O enlace das palavras, em versos, em prosa, em cantos fecundos de beleza, em um belo romance escrito num papel amarelo, ou nas breves palavras que nos vagam a boca. Esse ser, dotado de tamanha capacidade comunicativa, criador de métodos linguísticos, que se denominou de humano, habitou a história traduzindo em sinais, palavras, sua experiência com o mundo. Humano, derivado do latim humanus, relacionado à também palavra latina humus, traz consigo a sua característica etimológica de ser terrestre, para diferenciá-lo de ser divino. Da terra veio este ser, ávido por conhecer o mundo que o rodeava, e no início foi o verbo que lhe possibilitou desbravá-lo. O verbo, a palavra, nada mais que símbolos intermediadores da relação entre o humano, terra, barro, e aquilo onde ele habitava.

A palavra convidou o ser, enquanto terrestre, a transcender sua condição finita, possibilitou construir o divino, tornar-se imortal diante do efêmero. Desse romance, um enredo idílico, nasce à capacidade de contar uma vivência, de reproduzir a sobrevivência, de mentir, enfrentar o inimaginável, sobretudo, navegar; desse romance, profícuo nasce a literatura. Certa vez Fernando Pessoa disse que “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”, mas na verdade a vida é inquieta demais para bastar em si mesma; não haveria palavras, se não houvesse vida, esse fenômeno biológico, derivado de uma dança de átomos. Átomos são palavras, um conjunto de símbolos unidos, como se unem os átomos para criar a vida, unem-se as palavras para desvendar a vida.

Falar é quase uma ressureição em relação à vida, diz um personagem do filme Viver a vida de Godard. Falar é traduzir o mundo, é trazer pra dentro dos limites do corpo o mundo externo; sempre será a subjetividade a descobrir os fenômenos, e a escrever a história, traduzindo em palavras o que nos transcende, entregando a outrem um pouco do que somos, porque o corpo perece, o humano volta ao humus, mas a palavra é a única chance de alcançarmos o divino, a imortalidade, que não deixa de ser palavras.

Sinto muito! “Quem sou eu para mim? Só uma sensação minha”, já dizia Fernando Pessoa. O mundo será sempre limitado pela linguagem, que nos é como uma chave a abrir ao mundo a nossa subjetividade. Na verdade, só queremos construir um significado para o que ocorreu quando redes neuronais nos possibilitou sentir, quando o corpo orgânico nos fez viver, as palavras são nossas ferramentas, sem elas não teria o que dizer, não teria a quem beijar, não teria coração a se enamorar.

No final será sempre o trágico cara a cara que Camus nos disse, para que possamos nos recordar de que a vida não tem sentido, são só palavras, que nos dão a incrível capacidade de escrever o que somos, de escrever a história. “A memória, afinal é a sensação do passado... e toda sensação é uma ilusão”, mas Fernando Pessoa sabia que a vida não basta, e o que nos resta são as palavras.

Simples palavras fazem-me lembrar de minha avó, posso ainda recordar-me de sua voz e de suas mãos marcadas pelo trabalho árduo... Posso mais... Posso narrar nossas memórias como um longo cordel de saudades e encontrar o riso que a atemporalidade não mais define. Posso coroar-me rei de um mundo em que há imortais... Imortais até que o meu corpo pereça, e que minhas histórias se tornem contos em outros reinos de reis e rainhas saudosas da lembrança.

As palavras nos imortalizarão porque a vida não basta.

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Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
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