cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

Todos querem ser heróis!

“Todo homem é uno quanto ao corpo, mas não quanto à alma.” Hermann Hesse


batman.jpg

O General romano Maximus, para incentivar seu exército em campo de batalha no filme Gladiador, conclama a frase “o que fazemos em vida ecoa na eternidade”. O nevoeiro, o suor frio na testa de um guerreiro, as mãos sujas segurando bravamente sua arma de guerra e ainda ovacionado pelo belo discurso, constroem uma cena de heroísmo. Os heróis que remontam a toda história da humanidade, povoando as diversas mitologias, o que faz com que Jung conceitue o Arquétipo do Herói, ou seja, estando presente no inconsciente coletivo.

Na cultura grega, o herói era um semideus, estava entre os deuses e os seres humanos, a figura de hércules, divinizado. O herói, aquele que se submete ao fulgor da batalha, que se sacrifica a um fim maior, que arrebenta as amarras e os limites humanos, aquele que sucumbe em uma morte jovem e bela, sangrenta, honrosa, que transcende a dor, que ultrapassa os limites da força e permeará a lembrança histórica. Portanto, o mito desse semideus é aquele que ainda rapaz, pujante de vida, transcende a existência do homem médio, pacato e solitário, insignificante e substituível; torna-se único, de corpo escultural, e mente sã, entrega-se a missão messiânica da salvação aos insignificantes, constrói a lendária história do “exemplo a ser seguido”, e assim vai tecendo em cordas finas a tradição da superação da condição humana, conquistando o grande prêmio do herói: a imortalidade.

A construção do herói como aquele que morre jovem, glorioso, concretizador de sua grande missão, oculta o absurdo como diria Camus, ou o desespero humano como diria Kierkeergard, ou até mesmo a náusea como diria Sartre. Cada um com suas especificidades e conclusões filosóficas, podemos entender que no cerne da estruturação do herói está a fuga da morte e o desejo pela imortalidade. A morte humana é a de Ivan Ilitch, do livro de Liev Tolstoi, homem poderoso, admirado e rodeado de amigos, que em certo momento de sua vida se vê doente e impossibilitado de exercer suas funções públicas, encontra-se enfermo e sozinho. A doença reduz aquele homem que outrora era investido de poder, que podia decidir sobre a vida de outrem com seu cargo na Justiça, a um mero e simples humano fraco e solitário. É nesse aspecto que se encontra o niilismo.

Harvey Dent, no filme Batman - O cavaleiro das trevas, diz que “ou você morre como herói, ou vive o bastante para se tornar um vilão”. A frase precisa da personagem, que ao longo do filme se torna o inimigo ‘duas caras’, representa sempre a possibilidade daquele que era um herói tornar-se um vilão, isto é, a morte do herói oculta seus males, e ascende no imaginário social o mítico ser capaz de salvar a humanidade de seus temores, e isso fica claro no terceiro filme Batman de Christopher Nolan.

Harvey-Dent-Two-Face.jpg

Apesar da ideia maniqueísta ainda prevalecer no imaginário social, a mente humana é mais complexa e é composta por diferentes ímpetos. Não há, em nosso interior, apenas um herói ou vilão; a história de cada indivíduo, seus diferentes incentivos e provações, somado aos seus diferentes ímpetos, com uma capacidade neuronal única de captar a realidade, fazem de nós seres diferentes, subjetivamente exclusivos, transformando o embate entre herói e vilão uma leitura pífia do que é o ser humano e a realidade. Como bem pontuou Hermann Hesse em seu livro O lobo da estepe, “A divisão entre homem e lobo, em impulso e espírito, ...é uma grosseira simplificação, uma violentação do real em favor de uma explicação plausível porém errônea da desarmonia que esse homem encontra em si”.

Bruce Wayne, o Batman, representa bem a alegoria do herói e a complexidade da mente humana; todos os seus inimigos são particularidades do seu embate consigo mesmo, o Coringa é o antagônico de Batman, o Morcego utiliza de sua razão, inteligência e lógica para combater o crime, já o palhaço é anárquico, lunático, ávido pela destruição sem motivo algum; o espantalho representa o domínio pelo medo, o Charada o narcisista e o Pinguim o burocrata ganancioso e destruidor. Enfim, os inimigos do homem-morcego representam que o seu embate entre homem e herói pode ser extremamente destrutivo, representam aquilo que ele pode se tornar a qualquer momento. Os inimigos de Batman estão sempre à espreita para domina-lo. A guerra passa a ser travada em outro campo de batalha, no interior de cada humano.

A bela literatura de Hermann Hesse, em O lobo da estepe, sempre terá algo há nos ensinar sobre a multiplicidade da alma humana, “Você tem andado frequentemente desgostoso da vida e com ânsias de deixá-la, não é verdade? Tem ansiado abandonar este tempo, este mundo, esta realidade, e entrar numa outra realidade que lhe seja mais adequada, num mundo intemporal. (…) Você já sabe onde se oculta esse outro mundo, já sabe que esse outro mundo que busca é a sua própria alma. Só em seu próprio interior vive aquela outra realidade que anseia. nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo (…). Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave”.

A figura do herói jamais abandonará a vida humana, sempre será objeto de perversão ou de libertação; entre o herói e o vilão há uma linha tênue. O herói representa o oposto da realidade da vida que não há, como acredita Sartre, um fim em si mesmo. Somos seres no tempo e só o instante é eterno. Não somos importantes, não somos heróis, somos apenas construção, o eterno porvir. A vida é uma eterna poesia, construída por versos e estrofes, inacabadas, ávidas pela completude, como já dizia Kierkegaard, “Minha vida não será, apesar de tudo, mais do que uma existência poética”.

Ou, como estamos eternamente entre a cruz e a espada, fadados à escolha podemos, como disse Charles Bukowski, “Acho que a gente devia encher a cara hoje, depois a gente fala mal dos inúteis que se acham super importantes”.


Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Raphael F. Lopez