cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

Um brinde à alteridade

"Ele estava perdido entre milhões de outros corpos, até o dia em que um olhar de desejo pousou sobre ele e o tirou da multidão nebulosa; em seguida, os olhares se multiplicaram e incendiaram esse corpo que desde então atravessa o mundo como uma tocha".


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As transformações políticas, econômicas e tecnológicas de nossos tempos parecem nos deixar cheios de otimismo diante de uma superação de problemas que já ultrapassam as trincheiras da história.

No entanto, como disse o ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Melo, “Tempos estranhos, tempos muito estranhos, em que se nota a perda de parâmetros, o abandono a princípios, o dito passando por não dito, o certo por errado, e vice-versa”.

Na contemporaneidade, o indivíduo parece acometido ainda com todas as influências cientificistas da modernidade, assim como carrega consigo as frustrações de uma era de decadência das utopias de uma sociedade melhor. O “eu” como medida de todas as coisas insiste em manter-se como pensamento dominante, um ser que se anuncia absoluto, imediatista, egoísta e consumista. A instrumentalização do outro persiste entranhada nos nossos comportamentos, sempre buscando satisfazer as necessidades imediatas e egocêntricas.

Diante desse diagnóstico, Emmanuel Lévinas, filósofo da Lituânia, nos presenteia com uma bela visão filosófica e possivelmente nos indica um caminho mais solidário para que seja percorrido. O objetivo de Lévinas é que esse indivíduo recluso, centro de todas as coisas, saia da subjetividade de si mesmo e busque a exterioridade das outras pessoas. A superação do pensamento de ver o outro a partir de si mesmo é prioridade para o autor, que vivenciou o trágico momento das grandes guerras onde pessoas foram claramente instrumentalizadas em buscas de objetivos grandiosos para a nação; como os judeus em campos de concentração.

Quando tentamos dar significados as pessoas ao nosso redor trazemos a identidade do outro para o nosso próprio ser, ou melhor, o outro é aquilo que queremos que ele seja. Seja para alimentar nossos apetites naturais ou para suprir carências, acabamos coisificando o outro. Contudo, é preciso deixar esse Eu de lado, e conhecer o outro, o que ele chama de ser-para-o-outro. Sair de suas vontades e conhecer o outro de forma desinteressada, deixar o outro ser alteridade.

Para Lévinas, o rosto representa o outro enquanto infinito, ou seja, algo que não posso captar, porque sou limitado dentro do meu próprio ser. A morte, por exemplo, é a impossibilidade de fuga, algo que não podemos dominar, nem mesmo compreender, portanto nos convida a pensar o próprio ser humano, além dele mesmo. Dessa forma, para que possamos nos conhecer é preciso do outro, do diferente, que nos leva a reflexão de nós mesmos. Tornamo-nos reféns uns dos outros, alcançando a solidariedade; desprendemo-nos do ser recluso e centro de todas as coisas, para navegar no infinito da alteridade. O outro não é um instrumento para que eu satisfaça meus desejos, mas sim, um infinito que foge de minha compreensão, que foge de meus sentidos, mas que através de seu rosto, que mesmo no silêncio de um sorriso, me convida a reflexão de meus próprios limites.

A proposta de Lévinas, vai contra a reclusão em si do homem atual, que se mantendo ensimesmado corre o risco de perder a própria identidade; volta-se tanto para si, que frustra-se com a realidade que não se volta para ele, ou seja, a realidade não se configura em garçons a nos servir em nossos desejos. É preciso a existência em ser-para-o-outro para se viver a plenitude de si mesmo; o infinito do outro para conhecer a própria finitude. Isso não significa que se deve viver pelo outro, ou viver pelo amor (muitas vezes o amor pode ser egoísta), mas sim respeitar e conhecer o outro enquanto ser independente de minha consciência.

No livro a identidade, de Milan Kundera, a personagem Chantal que reclama que os homens já não olham mais para ela, frustra-se o tempo todo com a identidade do outro, que permanece sendo conhecido a partir dela mesmo, o outro era aquilo que ela queria que ele fosse. Em mais uma obra que dispensa comentários, Milan Kundera busca demonstrar como ao se voltar somente para si mesmo perdemos a identidade do outro, perdemos o rosto do outro, deixamos de desejar o infinito que é o outro, e desejamos o outro para ser nosso objeto e, a realidade nosso garçom que alimenta o egocentrismo. Perder o rosto do outro seria, para Kundera, o pior pesadelo que poderíamos ter, pois perderíamos a nossa própria capacidade de sermos seres sociais, que reflete a partir da alteridade de dizermos no outro ‘Eis-me aqui’, e cairíamos no vazio, no vazio perverso da noite, como uma concha que ao se aproximar dos ouvidos ecoa o som do silêncio.

Talvez Lévinas nos ensine que a solidariedade, a tolerância, e afeição à alteridade sejam princípios que jamais deveríamos abandonar. Princípios para tempos atribulados como os nossos, tempos de estranheza.

Milan Kundera, em a identidade, nos convida a encerrar esse texto e refletir sobre o que são os outros:

“Ela dizia: ‘Não vou mais tirar os olhos de você. Vou olhar para você sem parar’.

E depois de uma pausa: ‘Tenho medo quando pisco o olho. Medo de que durante esse segundo em que meu olhar se apaga se insinue no seu lugar uma serpente, um rato, outro homem’.

Ele tentava se erguer um pouco para tocá-la com os lábios.

Ela balançava a cabeça: ‘Não, quero só olhar para você’.

E depois: ‘Vou deixar a luz acesa a noite toda. Todas as noites’”.

Às vezes precisamos acordar de nossos pesadelos e refletir se estamos querendo que os outros sejam extensões de nossas vontades egocêntricas.

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Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
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