cronismos anacrônicos

Cinema, literatura, política e seus instantes eternos

Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral

Seja um exímio contador de histórias.

Ele respondeu: podes chamar a vida de poema


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“O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se a pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e parece como um atributo indiferenciado do planeta. Parece como uma coisa qualquer”.

Valter Hugo mãe, autor português, suprime toda uma constelação de sentimentos em poucas palavras. É capaz de nos fazer buscar o ar mais fundo, até sentirmos nossos pulmões repletos. Poeticamente, sacrifica o velho dogma sartreano, a fim de celebrar a convivência humana, em tempos em que o palco de uns são a agonia de outros.

Ora! Nada seria do velho homem sem antes ter-se tornado humano! E ser humano transcende a nossa capacidade orgânica, é aprendizado, convivência, espelhar-se em outro. Nada seria de nós sem o outro. É neste ínterim que se perfaz a convivência; Um humano não é apenas uno, é recheado de vultos daqueles que por hora passaram pela sua vida, cheiros, cores, rabiscos. Como escreveu Antoine de Saint-Exupéry, “cada indivíduo é um império”, tão grande e tão importante que não se pode medir. Em seu diário de guerra, onde refletiu sobre o cenário que vivenciou enquanto soldado, Exupéry escreve o que seria salvar um homem próximo à morte: trata-se de “salvar uma consciência, (...) salvar um império cuja importância não pode ser medida. Sob o crânio estreito desse mineiro que as vigas prenderam em sua cilada, repousa um mundo. Pais, amigos, um lar, a sopa quente da noite, as canções dos dias de festa, a ternura e a cólera e talvez mesmo um ímpeto social, um grande amor universal. Como medir o homem? O ancestral desse mineiro desenhou certa ocasião uma rena na parede de uma caverna e esse seu gesto, duzentos mil anos mais tarde, ainda está irradiando. Ainda nos emociona. Prolonga-se, ainda, até nós. Um gesto de um homem é uma fonte eterna”.

Todos nós exprimimos em palavras a mesma vontade, os mesmo impulsos, as mesmas convulsões: É preciso dar um sentido a vida! Descobrimos que estamos em guerra com nós mesmos, e aqui convido mais uma vez o velho Exupéry, “de que estamos nós precisando para nascer para a vida? (...) ao despertarmos do barro somente então seremos felizes. Só então poderemos viver em paz, porque o que dá sentido à vida dá um sentido à morte”.

Os outros são ladrões, que roubam um pouco de nós, e saem por aí com nossa face somada ao infinito de cada um. No rosto do filho há sempre o superado, o gasto sinal do pai. E assim será infinitamente perpetuado cada gesto; e nós, incansavelmente, traduziremos isto em palavras, tornando toda letra, todo poema e toda crônica em anacrônica. Lembranças escritas, que serão histórias sempre sobre outros.

E mais uma vez a linguagem há de nos salvar! Porque a humanidade começa nos que nos rodeiam, e nas palavras nos definimos enquanto humanos, poesia de outros num enlace infinito de palavras de outrora... Somos Fabianos, sob o signo da indiferença, na tentativa vil de sermos vistos, na vontade ensandecida de falar.

Responda a si mesmo, e convido-os a mergulhar no labirinto das velhas páginas escritas, a conhecer o outro, a ir além do pensamento raso, daquilo que nos limita. Se adeque à maiêutica, Seja parteiro de si mesmo!

Por aqui eu me encerro, e convido Valter Hugo Mãe, assim como começou esse texto, deve terminar; "A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. Disse o meu pai. Nós não somos mais do que a carne do poema. Terrível ou belo, o poema pensa em nós como palavras ensanguentadas. Somos palavras muito específicas, com a tenra capacidade da tragédia. A tragédia, para o poema, é apenas uma possibilidade. Como um humor momentâneo. Eu perguntei: posso chamar a vida de poema. Ele respondeu: podes chamar a vida de poema . Ou podes chamar de normalidade. A vida é a normalidade e deus é a normalidade. O poema é normal”.


Raphael F. Lopez

Quase um sociólogo, amante das tantas e boas cervejas artesanais, eterno estudante político. Literário e crítico em tempo integral.
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