cultura liquida

Homenagem a perda de convicções do pensamento humano e a certeza que tudo muda.

Amauri Nolasco Sanches Junior

tem 40 anos e é paulistano, tem uma deficiência chamada Paralisia Cerebral (não o cérebro paralisado), que deixou sequelas dentro da parte fisicomotora, mas não deixou de ser uma pessoa que vive plenamente. Mesmo cadeirante cursou publicidade virtualmente pela IPED e TI (Técnico de Informática) pela ETEC Pq Santo Antônio na zona leste de São Paulo e não parou. Se formou em Filosofia na FGV (Fundação Getúlio Vargas), além de ser noivo de uma linda dama.

Amor e preconceito – quando duas almas se juntam

Vamos falar de amores diferentes, sonhos com ostras visões e desapegos.


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Pré-conceito é um conceito pré-estabelecido dentro de uma visão única de um fato que corresponde a uma opinião, se for verdade, é a realidade do fato que gerou aquela opinião, se não é verdade, é mera suposição e uma fantasia dentro da sua consciência intima. Mas existem fatores muito mais além do pré-conceito que pensamos saber, existem conceitos pré-estabelecidos dentro da sociedade que são difíceis de tirar e quando conseguimos, são passadas muitas eras e muitos conflitos psicológicos acontecem. Ainda sim, os amores acontecem, eles não podem esperar como se só poderão acontecer dentro do que a sociedade espera que seja a imagem do que pode e não pode. Isso acontece graças a vontade, cada célula tem que querer que isso aconteça para duas almas se encontram. Ora, o que é se encontrar enquanto, o ser que ama e só enxerga o outro enquanto o “objeto” amado, o “objeto” que queremos nos fundir com o outro?

Tem a ver com a presença, o conjunto de ideias que se fundem dentro de uma mesma realidade, numa mesma perspectiva subjetiva que monta uma mesma causa. Os casais normais é até belo essa união perfeita dentro da sociedade e dentro da perspectiva do amor – dentro do que a sociedade tem como “moral e bons costumes” que por ignorância ou falta de um português mais adequado, não percebeu que moral já está contida o objetivo dos costumes – sempre construirá o modelo de casais perfeitos, homem e mulher e que tenham uma beleza consideravelmente aceita, consideravelmente construída dentro de corpos belos como a estética vigente quer. Se erra muito em achar – ingenuamente claro – que essa estética foi construída dentro das varias mídias que povoam nossa vida, pois não foram porque elas são fruto da cultura vigente que domina o cenário de opiniões e visões. As mulheres tem que ter o corpo perfeito, os homens tem que ter certa imagem para a sociedade achar bonito, achar o homem perfeitamente aceito. Mas se esse homem e essa mulher serem dois cadeirantes (usuários de cadeira de rodas) e que por um encontro de “almas”, se amaram e se namoram? Se além de serem cadeirantes são acometidos de deficiências severas e não podem andar direito?

Esteticamente, a sociedade exige que sejamos o que ela acostumou em ver, dai quando ela não vê essa visão comum, essa visão que todo mundo se acostumou se começa criar suposições que, muitas vezes, não são verdade. Nem sabemos o que é a verdade e nem somos criaturas que entendemos completamente a realidade, pois temos nossas amarras subjetivas e criamos estereótipos daquilo que ouvimos e as suposições que pensamos ser verdade. A maioria enxerga casais diferentes como seres que não estão acostumados a ver, conviver ou a entender sua existência, porque tudo que não entendemos como realidade somos forçados a idealizar tal imagem. Pessoas com deficiência são pessoas que tem seu estereótipo relacionado dentro da religião, dentro de uma sociedade que vê a nós, como seres angelicais e que não tem sexualidade. Temos um certo estereotipo de pessoa sofredora que não anda, que não tem uma anatomia “perfeita” e não somos o que gostaríamos que fossemos. A nossas cadeiras de rodas são prisões e como prisões são fadadas a serem “masmorras” hipotética, de uma imagem que existe só no imaginário popular e não é verdade. Por que nós, os cadeirantes, não podemos amar e sonhar como qualquer pessoa? Por que quando, fazem obras cinematográficas, sempre as pessoas esteticamente, não aceitas, morrem?

Talvez a nossa sociedade idealiza uma realidade que não existe, que faz parte de um cristianismo que não teve a capacidade moral de sintetizar de verdade os ensinamentos de Jesus e muito menos, entendeu a filosofia de Platão. Porque a filosofia platônica tem a ver com o corpo, com que estamos acostumados a viver e a ter como realidade (modo sensível ou dentro da caverna com as sombras), que com o conhecimento, rumamos para o a realidade ultima (modo inteligível que está fora da caverna com outra realidade, a metafisica que é a essência). A presença não pode ser sentida sem a essência daquilo que sentimos, pois eu percebo minha existência quando sinto ou penso aquilo que me é importante, aquilo que me é a essência do caminho da felicidade. Podemos dizer que a cadeira de rodas é a essência que flui em movimento, beleza, sentimento e humanidade e porque não, o meio de transcender a sociedade como seres alienados em seus deveres que não olham o que muitas vezes, nós olhamos. O amor transcende a imagem da aparência e transforma na imagem muito além do que a sociedade se acostumou, se acomodou em ver num modo estético. Mas não somos assexuados e nem alienados do corpo do outro (o ente amado) e nem aos desejos que nós podemos ter (seres sexuados e afetivos), sim, seres que nos transportam para o lado do inteligível que está a essência (metafisica).

Nessa essência está o amor, porque o amor não vê somente o corpo, mas também enxerga a alma e enxergando a alma ele é e se é acaba sendo. O amor acontece porque ele sendo se funde com o ser em si mesmo, ou seja, o ser é graças o que o outro representa em sua mais intima essência e com isso, o amor vai ser o universo, vai ser a criação do é sendo. A existência se funde com a estética (num modo mais essencial) e cria seu próprio estereotipo sobre seu próprio ser. A pre-sença heideggeriana que acaba sendo, transcende a existência sartriana e acaba indo da serenidade, porque o ser acaba se fundindo com o seu próprio ser e unificar o impulso com a liberdade do ser. O impulso e a liberdade faz com que existimos para ser, sendo somos e se somos unificamos com o outro em impulso de estar com o ser que amamos. Somos um sendo nós e o outro sendo o outro, criamos uma historia, criamos a nossa realidade, então nesse momento, não existe nossas cadeira de rodas porque transcendemos a percepção humana tão primitiva que o impulso não chega como liberdade, mas como dependência. O amor é o simples respirar o perfume do outro, o perfume que trás a sua pre-sença, trás sua existência e a importância de um só ente.


Amauri Nolasco Sanches Junior

tem 40 anos e é paulistano, tem uma deficiência chamada Paralisia Cerebral (não o cérebro paralisado), que deixou sequelas dentro da parte fisicomotora, mas não deixou de ser uma pessoa que vive plenamente. Mesmo cadeirante cursou publicidade virtualmente pela IPED e TI (Técnico de Informática) pela ETEC Pq Santo Antônio na zona leste de São Paulo e não parou. Se formou em Filosofia na FGV (Fundação Getúlio Vargas), além de ser noivo de uma linda dama. .
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