cultura liquida

Homenagem a perda de convicções do pensamento humano e a certeza que tudo muda.

Amauri Nolasco Sanches Junior

tem 40 anos e é paulistano, tem uma deficiência chamada Paralisia Cerebral (não o cérebro paralisado), que deixou sequelas dentro da parte fisicomotora, mas não deixou de ser uma pessoa que vive plenamente. Mesmo cadeirante cursou publicidade virtualmente pela IPED e TI (Técnico de Informática) pela ETEC Pq Santo Antônio na zona leste de São Paulo e não parou. Se formou em Filosofia na FGV (Fundação Getúlio Vargas), além de ser noivo de uma linda dama.

“Primavera, verão, outono, inverno...primavera” o filme que ensina o Samsara

Um filme que fala de mudanças, respeito e que cada um muda conforme o seu aprendizado. Um filme para mentes sensíveis.


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O filme “Primavera, verão, outono, inverno...primavera” é um filme propriamente budista e fala de um monge que mora no meio de um lago que cria um garoto que se torna seu discípulo. É um filme que mostra a vida no seu viés mais intimo e nos mostra que tudo gira na nossa conduta e nossas escolhas, que as vezes acontece, ensinando alguma coisa para nós. Por que não termos conhecimento por filmes ou coisa do tipo?

No budismo, Samsara é a roda da vida que gira em torno da humanidade e tem a ver com aprendizado, pois a humanidade é ignorante e para se chegar ao conhecimento (que se chama o estado de BUDA ou iluminado), tem que ser alcançado com meditação e os ensinamentos escritos ou que se aprende. O Samsara foi ensinado pelo Buda Sakiamuni Gautama que viveu em uma região que hoje é a fronteira entre o Nepal e a Índia e que consistia em uma roda que o homem nasce, vive, se adoece e morre, pois compreender isso é aceitar que o destino de tudo que vive consiste nisso. O que vimos no filme que tem poucos diálogos, mas também mostra que podemos aprender com os poucos diálogos.

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Primavera. Na primavera as flores brotam e a vida volta a fluir dentro da natureza de todas as coisas, assim o mundo nasce para nós. No filme, a primavera é nossa infância que fazemos travessuras, fazemos coisas que não entendemos e não temos ideia o que é e o que não é. O discípulo garoto apronta as suas travessuras como todo garoto, mas que aprende que a vida é muito mais valiosa do que a sua ingenuidade pensa não ser. Amarra uma pedra num peixe, num sapo, numa cobra e o mestre que o seguia para ver se estava tudo bem, viu ele fazer isso e não disse nada. Quando o garoto estava dormindo o mestre pega uma pedra muito grande e amarra na cintura do garoto, pois ali havia uma lição a aprender, a compaixão pelo lugar do outro. Quanto de nós não fazemos sofrer o outro por causa do nosso egoismo de sentir prazer em fazer coisas que podem ferir, podem magoar, podem levar as criaturas a morte? A vontade nem sempre é o certo, pois não vivemos isolados no mundo e não podemos firmar verdades, porque elas são transitórias. Pois bem, o garoto disse para o mestre tirar aquela pedra porque estava te machucando e era pesada e o mestre, muito calmo fazendo seus afazeres, disse ao garoto que tinha feito o mesmo ao peixe, ao sapo e a cobra e se um dos animais morressem, essa pedra ficaria em sua consciência. Então, o garoto desesperado, procura os animais que ele fez isso, o peixe morreu e ele enterrou (imagem da compaixão), o sapo estava preso e não tinha morrido, ele soltou o sapo (devolução da liberdade), a cobra tinha se cortado toda porque a pedra enroscou e ele chorou compulsivamente (imagem do arrependimento).

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Verão. O verão fala da fase do ser humano que desenvolve e cresce e que chamamos de adolescência, época das paixões e as paixões são quentes, como são os verões que é a temporada das multiplicações. A mãe leva sua filha muito nova e doente para o monge tentar curá-la, pois era muito doente e que não se recuperava. A mãe se foi e a moça ficou como hospede, mas algo acontece no discípulo que ele não sabia, um sentimento de atração que começa quando ele pega a moça sem querer se trocando. Pegou ela dormindo e ao cobri-la, quis acariciá-la, mas ela acordou e lhe deu um tapa. Talvez a ingenuidade fez o rapaz não entender aquilo, não entender as paixões e as vontades do nosso corpo, que nos causam atitudes inesperadas. A moça começou a se apaixonar pelo rapaz, tiveram relações sexuais e num dia que dormiram no barco, o mestre viu e tirou o tampão do barco. Mandou a moça recuperada embora. E o discípulo jovem fugiu para o mundo dos homens. O mestre viu no jornal que o discípulo tinha matado a moça, então a afirmação estava correta, a luxuria leva ao apego e o apego leva ao sentimento de matar. Sem o apego não se tem o sentimento que aquilo ou alguém te pertence, que esse alguém se vai e como tudo em nossa vida, há mudança. O rapaz volta, mas volta enfurecido e contou ter matado a moça, e o mestre muito calmo disse, que o mesmo que ele se apaixonou outros iriam também se apaixonar. Mas o rapaz estava enfurecido e descontrolado.

PVOI_P4.jpg Ate que acontece do rapaz tampar a boca, tampar os olhos e os ouvidos e fica na frente da estatua de Buda, onde era lugar sagrado. Ou seja, renegou o Buda e o mestre bateu nele com um porrete dizendo que estava louco e o amarrou no teto com uma vela na corda, enquanto isso, pegou o rabo do gato e escreveu um sutra. Quando a corda se rompeu, o mestre disse a ele pegar e talhar todo aquele sutra que iria se acalmar, pegou a faca que matou a moça e começou a tralhar o sutra na entrada da casa. Nesse tempo, os policiais chegaram e apontaram uma arma a ele e ele ficou em posição de defensiva. Mas o mestre gritou: “O que está fazendo?! Continue a tralhar!”, ou seja, o foco, temos que ter foco e não se distrair com o mundo. Quando terminou, de madrugada, o mestre passou uma tinta natural em tudo e acordou o discípulo que foi levado sem resistência.

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Outono. As folhas caem e as plantas e flores morrem como tudo, todos passam pelo outono da vida e vê que nada é permanente. O tempo passa e os anos passam, o mestre espera, mas anos lhe envelhecem e ele sente que se vai e escreve uma mensagem. Põem lenha no barco e em baixo coloca uma vela, onde acendera a lenha. Tampa os seus sentidos, senta na lenha e espera ela lhe queimar como um ser que cumpriu sua missão e que a morte nada mais é do que uma mudança, afinal, tudo é transitório e nada é como pensamos que seja. Então, por muito tempo, a casa fica só e abandonada.

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Inverno. Depois de muito tempo o discípulo volta e encontra a casa vazia, não se surpreende, afinal, foram longos anos de prisão. Encontra o barco e quebra o gelo, como um bom budista, recolhe as perolas que o mestre deixou ao se queimar (há na pratica budista que depois de queimar o corpo, recolher as perolas que ficam ou as cinzas que indicam o próximo renascimento), sendo colocada em uma vasilha. Talhou um Buda no gelo, treinou as artes marciais, meditou como se estivesse esperando ou não. Uma mulher pobre ou deformada, chegou com uma criança e deixando ela la partiu, mas caiu num dos buracos que o mestre (que era o discípulo), tinha aberto, morrendo. O menino bebê sai lá fora e o homem o vê e pega antes que ele caísse e encontra o corpo da mulher morta no gelo, onde enterrou e ficou com o menino como seu discípulo (como seu mestre fez).

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O filme termina com uma nova primavera onde o menino fazia as mesmas travessuras que o anterior (talvez o próprio menino, segundo a ideia do filme, seja o renascimento do mestre) fez quando criança. Um belo filme que, se não foi avisado ou sensível aos detalhes, é muito parado e massante. Mas mostra como somos iludidos que tudo permanece como verdades absolutas e não é verdade, nada é permanente. Nossos animais de estimação se vão, nossa casa fica velha e não é mais a mesma. Alguns parentes ou amigos se afastam por motivos da vida, ou se vão cumprindo suas missões aqui na Terra, mas nada permanece igual como era antes e isso fica evidente. Começos fazem novas primaveras e nada permanecem como algo concreto. Lindo filme, com uma fotografia muito bonita. A mensagem mais ainda.


Amauri Nolasco Sanches Junior

tem 40 anos e é paulistano, tem uma deficiência chamada Paralisia Cerebral (não o cérebro paralisado), que deixou sequelas dentro da parte fisicomotora, mas não deixou de ser uma pessoa que vive plenamente. Mesmo cadeirante cursou publicidade virtualmente pela IPED e TI (Técnico de Informática) pela ETEC Pq Santo Antônio na zona leste de São Paulo e não parou. Se formou em Filosofia na FGV (Fundação Getúlio Vargas), além de ser noivo de uma linda dama. .
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