da potência ao ato

Deslizo toda a minha inquietude por meio das palavras e vou da potência ao ato num triz.

CAMILA ALADA

Faço da escrita a minha voz

Bentinho era bento por demais e Capitu foi capeta de menos!

Se Capitu traiu ou não Bentinho, só ela sabe. Ele não deveria perguntar e ela não deveria responder. A traição é uma questão de foro íntimo e que, a meu ver, não deveria ser compartilhada com o parceiro e muito menos com aqueles que estão fora do contexto vivenciado pelo casal.


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Eu tinha quinze anos quando li pela primeira vez Dom Casmurro. Depois de dezessete anos, algumas pedras e tropeços pelo caminho e uma coleção infindável de memórias, devidamente usufruídas e saboreadas, me debrucei novamente sobre a obra.

Agora adulta, ao revisitar uma cidade que havia conhecido apenas quando criança, consigo perceber nitidamente o estreitamento das ruas, a entrada menor da igreja matriz e a aproximação daquela montanha que ficava lá longe. As ruas, a igreja e as montanhas não mudaram de lugar. Meus olhos sim. As dimensões físicas são as mesmas, mas a percepção do mundo que brota de dentro para fora é que se ampliou. Não sou mais tão pequetita assim!

E qual a surpresa ao reler Dom Casmurro: as letras do livro aumentaram de tamanho ou foi a miopia da alma que diminuiu? Por certo, estou menos míope. Ainda enxergo embaçado, os meus óculos de leitura continuam garrafais. Porém, o meu espírito está mais solto, desapegado e translúcido.

A minha lucidez transpassou os limites do tempo e do espaço. Se antes Bentinho era para mim um pobre homem traído pela esposa e pelo melhor amigo, hoje não o vejo tão bento assim. E Capitu, aquela capeta em forma de gente, que teve a desfaçatez de passar a perna no marido, não mais me parece ser a figura condenável ora pintada na minha adolescência. A beatice e a capetice me foram introjetadas pelas lentes dos olhos de outros leitores: sejam dos professores do colégio, dos colegas com os quais discuti o livro, do diretor do filme a que assisti ou dos ensaios e os comentários que li e ouvi ao longo dos anos.

Não mais santifico Bentinho e nem crucifico Capitu. Dou-lhes a devida redenção! Primeiro como seres humanos e segundo como personagens que são. Sim, porque antes de habitarem os devaneios machadianos, eles perambularam pelas ruas de alguma cidade, se esbarraram naquela esquina, se apaixonaram, se casaram e não foram felizes para sempre. A arte imita a vida em toda a sua profundidade.

O que Capitu tem de mais bonito é o silêncio! E para mim é ele que a absolve. Não que ela não tivesse culpa no cartório, poderia até ter. As feições de Escobar no rosto do filho Ezequiel são mui suspeitas. Porém, uma mulher que se preserva e não se expõe é algo que incomoda e perturba, principalmente aos homens. No processo penal brasileiro, para não produzir provas contra si mesma, uma testemunha tem o direito de permanecer em silêncio ao ser interrogada. Nesse momento, o meu eu literário advoga algo que deveria estar expresso na Constituição: todo cidadão tem o direito de fechar a boca quando assim lhe aprouver! E sem que isso signifique desprezo ou indiferença a uma pessoa.

Muitas vezes é necessário se calar para não ferir o outro e si próprio. Às vezes prefiro uma verdade calada em todas as suas letras, e que por isso me mantém viva, a uma verdade sanguinária dita em alto e bom tom que me mortifica para sempre.

Se Capitu traiu ou não Bentinho, só ela sabe. Ele não deveria perguntar e ela não deveria responder. A traição é uma questão de foro íntimo e que não deveria ser compartilhada com o parceiro e muito menos com aqueles que estão fora do contexto vivenciado pelo casal.

Alguém poderia dizer que não quero ouvir ou ver a confissão de uma traição porque a posteriori teria a obrigação de tomar uma atitude, terminando o relacionamento ou perdoando o ato cometido.

Porém, ao aceitar que o outro se cale e que eu também me cale, não estou sendo omissa. Simplesmente acolho a escolha feita por cada um. E se ele ou eu elegemos estar com outra pessoa, seja para viver um caso de uma noite só ou uma linda história de amor, não é uma cena escandalosa de ciúmes, lágrimas aflitas escorrendo pelo rosto, anos de relacionamento, pressão social ou filhos que impedirão que ele ou eu façamos ou deixemos de fazer alguma coisa.

Quem quer, fica. Quem não quer, vai embora.

Os arranjos entre esses dois extremos, seja de quem se esperava que ficasse e foi embora ou daquele que poderia ter ido embora e ficou, são tão diversos! Os motivos da distância e da permanência são pessoais e intransferíveis.

Somos pessoas heterogêneas justamente por vivermos relações heterogêneas. A imposição de padrões de conduta é castrador e infantil. Até mesmo a criança, em algum momento da vida, percebe que os pais não são imortais. Como adultos, seria também saudável vislumbrar a finitude do amar e ser amado. Quem deixa de amar alguém hoje pode vir a amar outro amanhã ou descobrir que se basta sozinho. Quem continuou amando aquele que não o ama mais poderá um dia, quem sabe, transformar esse sentimento em algo maior e melhor, tentando compreender a falibilidade intrínseca de cada um.

Sou um ser humano passível de matar e trair. Contudo, conscientemente não quero e, portanto, evito me colocar em situações nas quais haja a possibilidade de eu matar e trair. Sabendo de antemão que não se mata o corpo apenas com uma arma cortante pois as palavras também perfuram e ferem a alma. Da mesma forma, não se trai a carne somente por meio do sexo. A meu ver, a ausência de lealdade emocional é ainda mais grave do que a falta de fidelidade física.

Deveríamos parar de encarar traidor e traído sob o prisma algoz e vítima. Essa dicotomia simplifica o que não é para ser simplificado. Só os personagens dessa história real sabem das suas dores, das suas limitações, da sua força e motivação para viver.

Machado de Assis foi um gênio ao implantar a dúvida no cérebro dos seus leitores. Quanto ao Bentinho, ele é que foi bobo em permanecer nela. A sua ingenuidade foi beatificada e ele ficou estagnado na incerteza de romper com Capitu ou continuar a amá-la. Ao final, abandonou ela, o filho e morreu tal como viveu: corroído de ciúmes e sufocado de amor.

Hoje o meu olhar para Capitu é menos rigoroso. Sou tão pecadora quanto ela. O tempo me ensinou a não apedrejar o telhado de vidro do vizinho na medida em que o meu é igualzinho ao dele.

Hoje o meu olhar para Bentinho é mais tolerante. Deveríamos julgar menos aqueles que usam as próprias mãos para edificar o rumo de suas vidas, seja por qual caminho for. Imaginem se Bentinho tivesse permitido que ela ficasse? Tudo poderia ter sido diferente!


CAMILA ALADA

Faço da escrita a minha voz.
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