da potência ao ato

Deslizo toda a minha inquietude por meio das palavras e vou da potência ao ato num triz.

CAMILA ALADA

Faço da escrita a minha voz

Diamantina: luminências

A arquitetura das cidades é refletida naquilo que vai dentro da alma.


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A arquitetura das cidades é refletida naquilo que vai dentro da alma.

Meu pai foi escolhido por duas: a cidade da certidão de nascimento e a do coração. Vou falar apenas da primeira, pois a segunda, Azurita, merece um capítulo especial.

Descer e subir as ruas de pedras de Diamantina foi como enxergá-lo de pertinho e de longe também.

Comecemos pela Rodovia BR-367 que liga Gouveia a Cabrália. No trecho mineiro, o viajante é recepcionado pelas árvores retorcidas dos pequizeiros, as flores sempre-vivas e a vegetação rasteira do cerrado. O contorno, as cores e a grandiosidade das rochas incrustadas na paisagem impressionam. Sabe aquela frase só vendo para crer? É exatamente isso!

Adentremos nesse grande vale.

A cidade natal do meu pai lhe imprimiu toda a sua objetividade, praticidade e hospitalidade. Sim, porque esteja preparado para andar, tropeçar e parar um pouco para recuperar o fôlego nas subidas. Em Diamantina se faz tudo a pé: a ida ao Mercado Municipal para saborear as gostosuras da culinária local (pastel de carne, frango com quiabo, feijão tropeiro, mingau de milho verde); curtir a prosa miúda com os amigos de infância ou os apresentados na hora; passear pelas feiras de artesanato e lojinhas do centro; sentar nas cadeiras e mesas dos bares espalhadas por onde der e couber; ouvir a orquestra jovem na frente da Igreja Matriz ou entrar rapidinho e orar, de pé mesmo, pela crença que lhe aprouver. Portanto, deixe a preguiça em casa e pernas para que te quero.

Já os becos lhe imprimiram sua timidez velada. Mineiro é um ser desconfiado por natureza, imagine então nascer em um vilarejo erguido sobre o domínio da extração de diamante no período do Brasil colônia de Portugal. Eram dolorosos os castigos dados aos escravos que escondiam alguma pedra. Então, não abrir o peito tão facilmente às emoções e entregar o que há de mais valioso lá dentro é plenamente justificável.

O silêncio e a voz mansa dele já chegaram a me confundir. Quando mais nova, eu percebia um certo distanciamento diante de algumas situações corriqueiras e especiais da vida, ele não tomava muito partido. Casou-se com uma mulher extremamente alegre, espontânea, hiperativa e independente. Criada, por óbvio, longe das ruas de Diamantina, lá pelas bandas do Norte, em Teófilo Otoni. Mas na juventude essas mesmas ruas apresentaram um ao outro. A luz elétrica e dominante dela ofuscou um pouco e também abrilhantou a sua passiva e pacifica luz de vela.

Hoje compreendo melhor a autopreservação paterna. E celebro com alegria a união desses dois espíritos tão diferentes e tão próximos. Sou fruto dessas duas luminescências: luz e essência.

Voltando lá atrás, meu avô morreu muito jovem e deixou oito filhos e uma esposa valente. A Padaria Medeiros e Filhos, o Armazém Medeiros, a loja Casa de Louças Medeiros e a fazenda Formação se perderam em pouco tempo. Não passaram necessidade, mas cada um, a seu modo e muito unidos, viveram a simplicidade gostosa da vida de interior antes de desbravarem os desafios do asfalto de Belo Horizonte. E cultivaram um amor bonito de se ver por uma mãe forte e dedicada que tinha muitas e poucas memórias.

Passemos à Vesperata, famoso concerto noturno ao ar livre que comprova a minha genética para música boa. Jovem ou velho, criança de colo ou maiorzinha, qualquer um que se embriague com notas musicais se emocionará com pratos, saxofones, trompetes e violinos saindo de pequenas sacadas e engrandecidos pela acústica da ruela que parece ter sido talhada para isso.

Agora de automóvel, as curvas da Estrada Real nos levam às cachoeiras: Cristais, Sentinela... ahhhh Biribiri. Povoadinho mais bucólico e aconchegante que explica em poucas palavras por que Minas são muitas. Sentar debaixo de uma árvore frondosa, jogar conversa fora, tomar uma cervejinha gelada, contemplar o adormecer da tarde e se banhar no poção logo ali, não tem felicidade maior.

Mergulhar nas águas frias e refrescantes dessa terra do diamante; respirar seus ares ancestrais; observar a arquitetura colonial de suas casas e igrejas; perceber a singularidade de cada paralelepípedo assentado; respeitar o seu ritmo prosaico e lento; admirar sua cultura rica e sinuosa e conhecer seus solícitos habitantes e turistas fulgazes me fez lembrar de todos os meus antepassados. E daqueles com os quais convivo hoje: pais, irmã, tios, tias, primos e primas, estejam próximos ou distantes. Foi possível alcançar o significado atemporal e real da palavra família.

O DNA sai das ruas da cidade e vai para o sangue. Assim como uma rua não é igual à outra, uma pessoa não é igual à outra. Que bom que seja assim!

A cidade se expandiu. Na periferia urbana novas construções, casas e prédios modernos foram erguidos. A vizinhança não é a mesma, os causos são outros, mas o miolo do centro histórico e o da alma das pessoas estão vivos e constantemente restaurados.

Hoje meu pai se abre mais, se expressa mais, se impõe mais e até perde mais a paciência. O tempo traz uma certa leveza e despreocupação na lida da vida. Se conhecemos boa parte do percurso, seria natural carregar menos bagagens e encarar o fim da viagem como mais uma etapa a ser cumprida, sem tanto medo ou resistência. O tempo fez bem a ele, a vida (com todas as suas limitações) está sendo generosa com ele.

Os meus pés fincados no chão do presente firme, do passado resolvido e do futuro reservado por Deus; o apreço que tenho pelo silêncio tão confortável aos ouvidos da alma; a percepção crítica e, na medida do possível, compassiva em relação ao mundo e às pessoas são com certeza heranças dele e da cidade.

As fotos dessa viagem foram compartilhadas e minha mãe ao vê-las me disse muito sabiamente que ela estava vendo Diamantina pelos meus olhos. Olhei com calma, devagarzinho mesmo, sem pressa!  


CAMILA ALADA

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