dança de superegos

Cuidado: Perigo de incepção cultural e ideológica

Eduardo Fidler

Meio gaúcho, meio canadense. Cursando Engenharia Mecânica, se arrisca na escrita e na culinária nas horas vagas. Amante da música, da literatura e dos esportes

Ponte de Cinzas

“Ser um artista de rua é contrastar-se, é tocar em feridas, é fazer pirâmide com taças de estereótipos.”
Um ensaio sobre a arte urbana. O impacto das manifestações da cultura underground na sociedade e seus antagonismos.


Bailarinas_de_rua.jpg Foto by Gustavo Cassina

Das pinceladas de Monet os escritores e críticos amontoam-se. Das turbulências de Van Gogh. Da dança dos pincéis de Degas.

Fácil é falar da intensidade dos olhos fotografados por Dorothea Lange, dos cenários de Koudelka, ou de Salgado. Há uma linha tênue entre o artístico e o patético, entre o brilhantismo e o infortúnio do artista. Mas quem são os juízes dessas manifestações? Quem decide se arte é arte ou é rascunho?

A arte de rua não tem tanta sorte ao encarar os tribunais do padrão social e é marginalizada, escanteada, na maioria das vezes. Por brincar com os padrões, por apresentar os contrastes de uma realidade hostil.

Ser um artista de rua, aliás, é contrastar-se, é tocar em feridas, é fazer pirâmide com taças de estereótipos. Quanto mais a pirâmide cresce, as chances de vermos um monte de cacos também aumentam. Uns preferem beber essas taças, outros derramá-las, outros optam pela abstenção total, vivendo em cima do muro. Esta última, mesmo que lhe doa os ouvidos, é de uma pobreza ainda maior que a primeira.

Pior que ter uma opinião ruim é não ter opinião nenhuma. Uma ideologia errônea pode ser transformada, redirecionada, esse é um dos objetivos das manifestações culturais e elas tem sucesso em muitos casos. Mas que se há de fazer com a completa falta de um caráter questionador e investigativo ou uma total falta de ideologia?

No começo dos anos 70, quando a arte de rua engatinhava, as necessidades não eram muito diferentes das de hoje. Os aforismos de Holzer começavam a confrontar os passantes a pensar, em lugar de comer dos pratos do consumismo, e ainda o fazem. Os estêncis de Banksy ainda se vêm em Bristol. Os painéis dos Gêmeos e de Blu recheiam as grandes capitais. Por que então ainda enfrentamos estereótipos arcaicos que rechaçam e afugentam a arte urbana ou a cultura underground?

Bom seria começar a responder as perguntas antes que as mesmas se enfileirem. 'Ne quid nimis', dizia Ortega, é a lei seca da arte: nada além do necessário. Tudo o que é supérfluo, tudo aquilo que podemos suprimir sem alterar a essência é contrário à existência da beleza.

A verdadeira arte não tem monopólio, não tem juiz nem promotor, mesmo que indivíduos se convençam como tais. Tem o propósito de despertar a essência de quem a observa para as facetas da realidade. A arte urbana, se posso afirmar, é a arte do essencial. Contudo, em um mundo de supérfluos e desenfreado consumo, quem está disposto a optar pelo essencial?

Esta pergunta, diferente das outras, nem precisa de resposta. Daí nasce uma das razões de a arte de rua viver nas sombras, mesmo estando na cara do povo. O populismo midiático não tem interesse algum em divulgar um tipo de arte que o critica nas bases.

arte urbana.jpg Foto by Gustavo Cassina

Em uma era de antagonismos, cabeças ocas não faltam, assim como inovadoras e criativas. A criatividade está por aí, nos subúrbios ou nas favelas, nos baixos ou altos calões, mas os comodismos a impedem de aflorar. Ah! O comodismo! Um dos mais perigosos males do presente século.

O exercício profundo da facilitação do viver trouxe consigo uma casta de ignorantes e preguiçosos, justificam-se essas palavras por que não há necessidade de outras mais rebuscadas. Tão mais fácil é ouvir o que outros tem a dizer do que intervir, do que questionar, do que mover barreiras por um objetivo.

Há quem pense que evoluímos milhas em relação ao século passado, que o cenário artístico urbano não enfrenta mais os preconceitos já enfrentados. A verdade é que até nisso os comodismos se apresentam! Cutuque qualquer pessoa por aí a dar opinião sobre as intervenções artísticas e o que se vê? Uma enchente de preconceitos. Eles estão por aí, na mente das pessoas, mas o próprio comodismo delas nem as permite expressá-los! O que resulta é um tipo novo de preconceito, ainda mais perigoso que o que já se teve. O silencioso, pernicioso, caracterizado pela falta de discussão, e que vai se transmitindo para formação de uma geração caracterizada pela pobreza intelectual.

Essa osmose de ignorância - pegando a palavra emprestada dos químicos- gera uma espécie de “agnosticismo artístico e intelectual”, por falta de expressão mais apropriada, no sentido de manter-se neutro, de não buscar embasamento ideológico e de não criticar os ideais a que se expõe.

Artistas desconhecidos, fotógrafos ou grafiteiros, músicos ou atores, tem por rotina conviver com tais antagonismos. Isso não é de agora, Basquiat e seus colegas neo-expressionistas que o digam! Desde os anos 80 sentem na pele o que é encarar a crítica de suas propostas artísticas, não somente na forma de combate contra suas manifestações, porque nossas leis de liberdade de expressão, em todos os âmbitos hoje penalizam isso, mas nos olhares dos observadores. Não é difícil deparar-se com situações em que dir-se-á ser a obra até interessante aos olhos, mas questionando-se o “interlocutor” sobre os sentidos que a envolvem, perde-se o rumo e as palavras, e fica claro o atraso e a falta de entendimento do mesmo.

Ser um artista urbano, por final, é trilhar uma ponte de cinzas rumo ao reconhecimento. Não do reconhecimento em forma de fama midiática, comum nessas ascensões meteóricas de hoje, mas de alcance de entendimento de sua obra, e de que ela provoque na mente do observador as transformações as quais foi propositada. Os cabos dessa ponte são toras que incendeiam-se pelo criticismo.

Afortunados são os que conseguem atravessá-la antes de cair no mar dos preconceitos e serem varridos junto com os que já cederam aos caprichos do comodismo.


Eduardo Fidler

Meio gaúcho, meio canadense. Cursando Engenharia Mecânica, se arrisca na escrita e na culinária nas horas vagas. Amante da música, da literatura e dos esportes.
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