dança de superegos

Cuidado: Perigo de incepção cultural e ideológica

Eduardo Fidler

Meio gaúcho, meio canadense. Cursando Engenharia Mecânica, se arrisca na escrita e na culinária nas horas vagas. Amante da música, da literatura e dos esportes

Einfühlung, Ensaio sobre a cegueira e a empatia ilusória

"É desta massa que nós somos feitos? Metade de indiferença e metade de ruindade?"
Tempos de epidemia de cegueira para com o outro e de falsas empatias.
Será preciso que todos ceguemos para que enxerguemos a essência de cada um?


lens NY Times.jpg Refugiados de Rohingya rumo a Bangladesh. Foto by Saful Huq Omi

Queres que eu te diga o que penso? Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem.

Demorou ele a quebrar-me com essas palavras, confesso. Cheguei a desistir da leitura algumas vezes. A instigação sobre a conhecida genialidade do mestre Saramago foi o que me levou a continuar, a pensar: Haverá, pois, de haver algo mais. Algo escondido, quiçá. Uma lição da qual não me anteno ou um detalhe que passou despercebido.

Uma indignação com o fluxo temporal e as ocorrências do texto cresce. Estou a cansar-me dos personagens, até dos cegos. Minha empatia desvanece. Ah, por que não fazem isso? Ou aquilo? De certeza que haveria de resolver o problema. Uma sensação de falta há de tomar lugar. De incompletude. De maneira que mesmo lendo a frase ali do começo, nas últimas linhas do livro, não irá despertar-me um bocado de empatia. A ortografia não há de ajudar-me, a pontuação cansa-me. Chega a ser massiva.

Então, como que de súbito, algo me ocorre, um choque de realidade, uma mistura de frustração pessoal momentânea e um sentimento de queda de escamas dos olhos. Quanto tempo demora-se a perder essa empatia? A tratar o caso com desdém e por um momento pensar: O general há de estar certo. Melhor seria o extermínio dos contaminados!

Não é fácil admitir uma transformação de pensamento tão rápida.

Pois bem, pensemos então que os refugiados de hoje são os cegos de Saramago. Não será difícil entender onde quero chegar. Quantos estão presos à falácia do acolhimento dos refugiados? Tão fácil é tratar os casos distantes como se fossemos Madre Teresa, mas os haitianos na praça não passam de ladrões roubando nossos empregos, tirando oportunidades de nossos filhos. Esse é o perigoso sinal de uma empatia mentirosa, ilusória e de caráter egocêntrico. De xenofobias mascaradas. Uma tentativa do superego de racionalização e de autoconvencimento de que não somos tão maus.

Um dia desses, caminhando numa galeria de arte em Ontario, topei com uma série de pinturas com o tema -Einfühlung- palavra criada por Robert Vischer e que tem suas origens na preocupação em explorar a psique humana através da empatia, que é seu conceito base. A história desse conceito é bem complexa e sua definição mais ainda. Einfühlung não tem tradução direta do alemão, mas pode ser expressa como “ sentir com”. Vischer utilizou pela primeira vez essa palavra em seu ensaio Über das Optische Formgefühl: Ein Beitrag zur Aesthetik (No sentido óptico da forma: uma contribuição à Estética ) de 1873, e significava em sua obra, a participação ativa de um indivíduo em um objeto da arte ou outras formas visuais.

Não é apenas ter apreço por uma manifestação artística, por exemplo, é ser afetado ou identificar-se tão profundamente com ela de modo que cada pequeno detalhe, de melodia ou letra ou cor, seja registrado no formato de sensações em algum ponto do cérebro, e intimamente relacionado com o exato momento de contato com essa manifestação. Essa empatia eleva-se a tão alto grau, que cada futuro contato com o objeto servirá como uma ponte de acesso à todas as sensações que outrora foram registradas e o que ocorre é uma espécie de descarga de sentimentos, um transporte temporal àquele primeiro momento vivenciado.

lens times 2.jpg Acampamento de refugiados em Bangladesh. Foto by Saful Huq Omi

A arte tem sim o poder de engatilhar todas essas sensações e isso é de uma profundidade imensa, porém não quero deter-me na arte. Indo além, esse conceito pode ser explicado como um sentimento de afinidade profunda com o objeto da empatia, é um agente de transformação capaz de mover bases e provocar mudanças substanciais, capacitar, amadurecer e motivar profundamente o indivíduo. Esta última abordagem, com bases em Johann G. Herder é muito mais humanista e de extrema necessidade em tempos de uma epidemia de cegueira para com o outro.

Perdemos a sensibilidade, estamos quase que anestesiados ao sofrimento de outrem e isso não é nossa culpa!? Mais fácil é culpar a globalização. Os fatores históricos. As redes sociais. A crise financeira. Os próprios refugiados que poderiam ter ido pra outro lugar.

Herder acreditava que Einfühlung poderia ir além da arte, que temos sim capacidade de conectar-se tão profundamente com outros indivíduos de maneira que todas aquelas sensações já descritas quanto à arte possam ser desencadeadas com momentos de verdadeiro altruísmo, de bondade inteligente. Isso o levou a estudar culturas, ser apaixonado por elas e a aceitá-las incondicionalmente. Ele revela que o processo de empatização depende sim da personalidade do indivíduo porém esse não é o fator dominante, ele provém do envolvimento e reconhecimento cultural e interpessoal. A questão é o quanto estamos dispostos a fazê-lo.

Te aconselho a voltar, a ler uma vez, reler, e outra vez então, a frase lá do começo, se já não o fizeste. Até perceber o quanto ela se aplica a você. Aceite ser alvejado por essas palavras. Pegue no sono pensando nelas. Saia de sua zona de conforto e rompa seus preconceitos.

A beleza de Saramago está também nessa canseira que ele é capaz de provocar, nessa inquietude com o que nos rodeia. Na capacidade de fazer dos pensamentos um lagar no qual nossas ideologias são pisoteadas. E o lodo da hipocrisia é finalmente decantado mostrando de que é feita a nossa essência.


Eduardo Fidler

Meio gaúcho, meio canadense. Cursando Engenharia Mecânica, se arrisca na escrita e na culinária nas horas vagas. Amante da música, da literatura e dos esportes.
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