dança de superegos

Cuidado: Perigo de incepção cultural e ideológica

Eduardo Fidler

Meio gaúcho, meio canadense. Cursando Engenharia Mecânica, se arrisca na escrita e na culinária nas horas vagas. Amante da música, da literatura e dos esportes

Preconceito e a maldição do mas

DESCONSTRUA, DISCUTA, EDUQUE. OLHE ALÉM DOS ESTEREÓTIPOS!


Não tenho nada contra, MAAAS... Ah! Meu amigo, poderias ter parado antes da vírgula, antes de quase fazer-me devolver o lanche da tarde.

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Não há maior prova da profundidade em que se esconde o preconceito do que esse maldito (e deveras pequeno) “mas”. Nessas horas, pra quem tem um pingo de empatia e massa encefálica, o sangue ferve, o estômago remexe e as mãos suam.

Qual a diferença entre o preconceito descarado, aquele das antigas, em que preto fica lá e branco aqui e homossexual merece chibatada, para o preconceito mascarado, que não se expõe pelo medo de ser punido, mas que está por aí na mente e na boca nervosa do povo?

De um ponto de vista que analisa o preconceituoso (das antigas ou de hoje) de maneira absolutamente pessoal e sem levar em conta suas ações, a resposta é: Os dois são absolutamente iguais.

Agir contra alguém é crime, isso não significa que o crime não tenha passado pela mente do discriminador que não o fez, e para quem é humano de verdade, a linha entre o pensar e o agir é tênue. Essa linha nomeamos convenção social. A evidência fatal da nossa ambiguidade está justamente nas convenções sociais, aquilo que a maior parte da população diz ou pensa simplesmente por que a maior parte da população diz ou pensa. Não entendeu? Leia mais umas três vezes.

As convenções alteram-se de tempos em tempos no âmbito histórico, de maneira nada fácil, ressaltemos. A escravidão, por exemplo, já foi uma simples convenção social, tida como normal em qualquer família. Por muito tempo, as convenções sociais foram sinônimas de convenções religiosas, e estas são, sem dúvida, as que nos acompanham há mais tempo, do radicalismo extremo aos liberalismos neo-pentecostais. Elas atravessam gerações e não nos livraremos delas tão cedo.

Fazendo uma conta esses dias me deparei com uns números interessantes. Do aparecimento de Cristo às cruzadas temos um período de aproximadamente 1200 anos. Do aparecimento de Maomé e a fundamentação do islamismo, que aconteceu por volta do ano 700 até o início dos ataques do estado islâmico que aconteceram nos anos 70, temos 1270 anos. É obvio que os dois casos tem magnitudes totalmente diferentes, mas as motivações não são nem um pouco parecidas? A expansão da crença pessoal pela fé e eliminação dos infiéis (preconceito justificado).

Será coincidência ou será a história nos dizendo que as convenções religiosas são tão previsíveis? Que a ordem natural da mudança deve passar pelo extremismo?

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Deixando essas perguntas, talvez a raiz do problema se encontre no fato de termos preferido a criminalização do preconceito à admissão de que ele não tem fundamento algum ou nem deveria ter sido concebido! Entenda, o discriminador que agiu contra seu alvo (qualquer pessoa sofrendo qualquer discriminação), agiu errado. Contudo não há admissão por nenhuma parte de que o que sofreu não tenha parcela alguma de culpa no ato.

Sendo mais específico, o indivíduo que possui outra crença, o/a homossexual, o hippie ou punk, sei lá, ainda é considerado uma anomalia, apresenta algum distúrbio de interação social ou personalidade, ou possui uma motivação sempre externa que justifica seu comportamento. O simples fato de todos esses gêneros serem considerados como anomalias já é a própria raiz do preconceito! A natureza evolutiva rejeita anomalias. E a rejeição é a mãe do preconceito.

Essa nova forma de preconceito, a que começa com: "Não tenho nada contra", talvez leve séculos para ser extinta, justamente pelo fato de ser silenciosa e indiferente. Na história nunca houve mudança nas convenções sociais sem revoluções massivas, e como haverá revoluções se não há discussão ou indignação?

Enquanto os diferentes são tratados como indiferentes, como anomalias sociais a serem desconsideradas, a discriminação se alastra vagarosa e continuamente nas pequenas ações e palavras do pai para o filho que repete seus passos e amanhã será um de nossos representantes.

Será utópico pensar que evoluamos a ponto de que o não convencional seja aceito tão naturalmente que a rejeição ou o preconceito nem possa ser concebido?

Nessas horas justifico a guerra - vai ver por que estou cá longe - porque ela provoca mudanças drásticas. Na guerra o convencional se reduz a cinzas e talvez seja isso que precisemos. Preparo-me para as pedradas.


Eduardo Fidler

Meio gaúcho, meio canadense. Cursando Engenharia Mecânica, se arrisca na escrita e na culinária nas horas vagas. Amante da música, da literatura e dos esportes.
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