das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

A carta de Freud, o homoterrorismo e Orlando

Antônio Quinet inventou o termo “homoterrorismo”, também podemos dizer “homo-horror". Termos que se adequam aos casos violentos e covardes, assim como o que aconteceu em Orlando, 2016. Com efeito, o termo homofobia, recobre, de fato muito mais o campo semântico do repúdio projetivo da homossexualidade do outro: repudia-se, no outro, aquilo que incomoda em nós mesmos.


e2a8d2ad8acf4aa18d74bfe172675954.jpeg

"Prezada Senhora, deduzo de sua carta que seu filho é homossexual. Estou especialmente impressionado com o fato da senhora não ter mencionado este termo no seu relato sobre seu filho. Posso perguntar-lhe porque o evitou? A homossexualidade seguramente não é uma vantagem, mas não é nada vergonhoso, não é um vício, não é uma degradação, não pode ser classificada como uma doença; nós a consideramos uma variação da função sexual produzida por certo bloqueio no desenvolvimento sexual. Muitos indivíduos altamente respeitáveis na antiguidade e também nos dias de hoje, foram homossexuais, muitos homens notáveis de sua época (Platão, Michelangelo, Leonardo da Vinci). É uma grande injustiça e crueldade a perseguição da homossexualidade como um crime. Se você não acredita em mim, leia os livros de Hamelock Ellis. Ao perguntar-me se eu poderia ajudar, suponho que você quer saber se posso abolir a homossexualidade e colocar a heterossexualidade normal em seu lugar. A resposta é que, de uma maneira geral, não podemos prometer conseguir isto. Em certos casos temos sucesso em desenvolver as incipientes tendências heterossexuais que estão presentes em todos os homossexuais, mas na maior parte dos casos isto não é mais possível. Depende das características e idade do indivíduo. O resultado do tratamento não pode ser previsto. O que a análise pode fazer por seu filho segue em outra direção. Se ele é infeliz, neurótico, torturado por conflitos, inibido em sua vida social, a análise pode lhe trazer harmonia, paz de espírito, completo desenvolvimento de suas potencialidades, continue ou não homossexual. Se você decidir que ele deve fazer análise comigo - e eu não espero que isto aconteça - ele deverá vir a Viena. Não tenho intenção de mudar-me. De qualquer forma, não deixe de me responder.

Sinceramente, Desejo-lhe boa sorte, Freud

Ps: Não achei difícil ler sua letra. Espero que você não ache minha letra e meu inglês uma tarefa mais difícil.”

as-polemicas-da-teoria-de-freud.html.jpg

Esta carta foi escrita em 1936, em resposta à mãe de um homossexual, esse é o nosso ponto de partida, de lá pra cá muitas mudanças houveram na instituição familiar, nas relações amorosas e na expressão da sexualidade. Para começar a posição da igreja é de defender a moral e tratam a homossexualidade como algo abominável. E isso é assustador.

Nessa carta, Freud vai chamar atenção pelo questionamento inicial: Por que é que a mãe não consegue usar o termo homossexual?

Freud é tão sutil que começa a nomear a ideia de homossexualidade por um motivo de tirar o preconceito de muitos de ver a sexualidade homossexual como uma doença, crime ou algo degenerado e, portanto sem o merecimento de sentimentos bons perante o individuo que portar essa obscenidade.

É, no entanto que quando ele escreveu os Três Ensaios sobre a sexualidade em 1905, diz: “toda sexualidade humana traz em si uma condição perversa”. É por isso que trata desse assunto tão bem, pois Freud como sendo uma pessoa única de extrema inteligência a frente do seu tempo ele diz que o sexo é o impulso maior para o comportamento humano.

A sexualidade humana é subversiva, nada tem a ver com a sexualidade animal, portanto não é uma sexualidade movida por instintos, ela é movida pela pulsão. E pulsão não tem um objeto à priori, ou seja, não há nada no humano que diz que um homem nasce um homem e que uma mulher nasce uma mulher, ou melhor, que uma mulher nasceu para um homem e que um homem nasceu para uma mulher, portanto os acontecimentos da vida de cada um, ou melhor, a subjetividade de cada um que determinam a orientação sexual.

Freud deixa bem claro na carta que a análise não tem o poder de transformar o homossexual em heterossexual e nem este é o objetivo. Não há um diagnóstico, pois pode estar em qualquer uma estrutura psíquica de um individuo.

Freud vai nos dizer que não é um vicio, não é vergonhoso. A homossexualidade não pode ser classificada como doença, pois existe no mundo relações afetiva entre pessoas do mesmo sexo, mas sem a noção de homossexualidade. Há sociedades onde isso acontece, mas não há nenhum conceito que descrimina entre uns e outros esse tema homossexual, para se referir a pessoas que tem desejos por pessoas do mesmo sexo, mas na sociedade em que vivemos quando a pessoa se diz homossexual é sinônimo de bicha, veado, que prefere ser passivo na relação, no caso do homem e no caso da mulher, sapatão, lésbica, porque prefere ser ativa na relação. O que é pior que o outro da relação respectivamente será o homem e a mulher.

Esse conceito como identidade é recente. O imaginário popular que divide entre passivo e ativo é de puro preconceito e geralmente vem do próprio linguajar LGBT, mas muitos não gostariam de ter esse linguajar e definitivamente entendo, é como Freud diz vai sofrer mais na vida, vai ser mais discriminado. É nessa dificuldade de ativo e passivo que é pouco assimilado e que faz parte do próprio ser humano. Qual a diferença? Nenhuma. Não há um sentido. E essas definições só trazem mais confusão, a sexualidade é tão natural, o ser humano complica e sempre quer explicações para o sentimento, para a natureza humana, ou porque não para a alma humana?

massacre-em-orlando.png O que motivou uma pessoa atentar “terroristicamente” contra outros seres humanos em uma boate gay em Orlando? Para quem ainda não sabe uma fonte de pesquisa na internet nos diz o seguinte:

“Omar Mateen, que abriu fogo no nightclub Pulse, matando 50 pessoas e ferindo 53, era um cidadão americano filho de pais afegãos. O pai dele disse à rede de TV NBC que Mateen ficou revoltado depois de ver dois homens se beijando há dois meses em Miami. O pai nega motivação religiosa, mas, segundo autoridades, Mateen fez contato com um terrorista e jurou lealdade ao Estado Islâmico. Mateen, de 29 anos, tinha habilitação do Estado da Flórida para trabalhar como segurança e autorização de porte de arma. Ele entrou na boate com um fuzil automático e uma pistola. Foi o maior massacre perpetrado por um único atirador na história dos Estados Unidos.”

O que o motivou? O Estado Islâmico? A igreja? As pessoas do mesmo sexo que se beijavam? Homofobia? Foram as estatísticas? Pois elas não incluem os enrustidos, os ocasionais, os circunstanciais, os ativos que pensam em não ser “homossexuais” ou ainda os HSH, aqueles que se dizem homens que fazem sexo com homens.

Como diz Quinet, essas estatísticas podem nos levar muito longe.

A homofobia, um termo que significa “o temor de estar perto de homossexuais” foi definido por George Weinberg e Mark Freedman acrescentou a essa definição a descrição da homofobia como sendo uma “reação extrema de ira e temor em relação aos homossexuais”.

images (1).jpg

Em seu livro “As homossexualidades na Psicanalise” (2013) Antônio Quinet nos conta que para Freud o amor não pode ser concebido como se fosse uma pulsão parcial da sexualidade entre outras, mas sim a expressão da aspiração sexual, como um todo. Para Lacan, o amor se dirige ao sujeito. “No amor, o que se visa é o sujeito, o sujeito como tal, enquanto suposto a uma frase articulada, a algo que se ordena ou pode se ordenar por uma vida inteira”.

Precisamos entender que há um “real no sexo”, impossível de ser simbolizado, que escapa ao campo do sentido imaginário, no qual a cultura tende a forjar a ideia de uma complementariedade entre os sexos que recubra inteiramente aquilo que, na natureza animal, surge como diferença sexual anatômica entre macho e fêmea. Não há saber sobre o sexo, trata-se de um real em jogo na sexualidade é quando Lacan diz: “não há relação sexual”. A ausência de sentido é a maneira pela qual Lacan define o real, que se opõe ao imaginário. Já o simbólico, registro da palavra e da linguagem, caracteriza-se pelo duplo sentido. Assim toda versão da sexualidade é igualmente legitima e ninguém pode se arrogar o direito de autorizar ou desautorizar a sexualidade de ninguém. (QUINET, 2013).

Para finalizarmos pouco importa se um homem ou uma mulher descobrem que estão em um corpo que não gostaria, não é essa a diferença, se quiser depois esse homem ou essa mulher pode só se relacionar com o sexo oposto, mas o mais importante da identidade de cada um e o que faz a maior diferença é ajudar quem precisa, seja uma criança que passa fome, um animal que sofre acidente, um transexual, travesti que não sejam aceitos pela família, isso sim é provar a humanidade de cada vivente humano e isso não é uma questão de gênero, de religião ou mesmo da sexualidade de cada um. É uma questão da possibilidade de ser Humano.

Para poucos... muito poucos.

(imagens Google) Referência: As Homossexualidades na Psicanálise (2013) organizadores: Antonio Quinet e Marco Antonio Coutinho Jorge.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Maria Fernanda Carvalho
Site Meter