das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas.

a indignação provoca manifestações

A venda do livro "Indignai-vos!", ultrapassou os 500 mil exemplares. Stéphane Hessel foi um filósofo antigo resistente que fez um apelo ao envolvimento social e político em nome da emoção suscitada pelas injustiças. Teve uma vida nada convencional apesar de viver dentro de uma conduta diplomática, e foi quase no fim dela que se tornou um fenômeno editorial, graças ao livro Indignai-vos!
"A minha longa vida deu-me uma série de motivos para me indignar»


hessel capa livro fr copie.jpg O século XX num só homem

Stéphane Hessel publica Indignai-vos! no final de uma vida fabulosa, que abrange quase toda a História do século XX. Nascido em 1917, em Berlim, numa família de judeus (mas parcialmente convertida ao luteranismo), chega a França em 1925, naturaliza-se em 1937 e entra para a Normale Sup em 1939. Mobilizado, prisioneiro, consegue fugir e junta-se ao general De Gaulle, em Londres. Enviado para França, em 1944, é preso e deportado para Buchenwald, onde dissimula a sua identidade para escapar à forca. Foge mais uma vez, é capturado, salta de um comboio, junta-se aos soldados americanos.

No dia da Libertação, entra para o Secretariado-Geral da ONU e participa na redação da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Galardoado com o título de "Embaixador de França" pela esquerda, em 1981, dedica-se, na reforma, à luta pelos "sem papéis" (serviu de mediador por ocasião da ocupação da Igreja de São Bernardo, em Paris) e, mais até antes da sua morte, pelos palestinianos, associando-se inclusivamente à campanha de boicote aos produtos israelitas.

Promovido a Grande Oficial da Legião de Honra, em 2006, Stéphane Hessel deu ares de velho senhor à moda antiga. Afável, sedutor, extremamente cortês, não há nada que mais nada encantador nele do que levantar-se da mesa no final de uma refeição e recitar Baudelaire ou Paul Verlaine. Mas também não menosprezava o prazer da política: figurou, nesse ano, em posição não elegível, nas listas da Europe Ecologie.

Naquela época Um casal à volta dos sessenta, com ar de professores reformados, chega a correr mesmo em cima da hora de fechar: "Tem o livro de Stéphane Hessel?” "Está ali um monte deles”. Um grande suspiro de alívio: pelos vistos, tinham. Um outro livreiro conta que alguns clientes compram por atacado: "Levo dez, para oferecer aos meus amigos”. Esta cliente pergunta na caixa: "Para que associação reverte o dinheiro das vendas?"

Publicado em 2011, Indignai-vos!, de Stéphane Hessel, teve um êxito fulminante: 500 mil exemplares vendidos, dez edições e pedidos de tradução no mundo inteiro, da Turquia ao Brasil, da Polónia ao Japão.

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Uma emoção coletiva

Sendo uma brochura de umas vinte páginas a três euros, este êxito não foi tanto uma receita editorial milagrosa, mas sobretudo um fenômeno social. Da mesma maneira que trauteamos uma música e recomendamos um filme aos nossos amigos, Indignai-vos! cristaliza o espírito de uma época. Comprar uma brochura era um ato militante, um gesto de comunhão, a participação numa emoção coletiva. O objetivo, numa sociedade esgotada pelos altos e baixos da finança mundial e seus efeitos sociais, é encontrar palavras para dizer que a sociedade se ressente.

Quando escreve: "A atual ditadura internacional dos mercados financeiros […] ameaça a paz e a democracia", Stéphane Hessel exprime um sentimento largamente generalizado com a autoridade que a sua história pessoal lhe dá. Depois do fracasso do alter mundialismo, uma vasta franja de opinião procura um meio para dar a conhecer que não quer viver num mundo onde uns enriquecem ao mesmo ritmo a que outros empobrecem. Acabou de encontrar um. Embora os seus leitores reúnam diversos ativistas de esquerda, Stéphane Hessel assume claramente a herança social-democrata.

Quanto ao resto, no seu texto, Hessel mantém uma grande moderação. Ao estabelecer uma comparação com a Resistência, pretende desde logo diversificar: "As razões para se indignar podem parecer atualmente menos claras, ou o mundo demasiado complexo. Quem manda, quem decide? Nem sempre é fácil distinguir as correntes que nos governam. Deixamos de ter contacto com uma pequena elite cujas atitudes compreendíamos claramente. É um vasto mundo, que sabemos bem ser interdependente."

E embora se colocasse sob a autoridade do programa econômico do Conselho Nacional da Resistência, não afirmava conhecer soluções: "As propostas que figuram neste texto e os desafios que designo não são muito originais em si mesmos", reconhece.

hqdefault.jpg A indignação é por si só um valor?

Resta o título, Indignai-vos!, slogan eficaz, mas ambíguo. A indignação é a chave do compromisso, repete Hessel, eliminando outros motivos que pudessem conduzir à ação política: tomada de consciência, decisão racional, desejo de servir, amor à justiça, ou à verdade…

Com este apelo à indignação, Hessel, infelizmente, alinha pelo diapasão de uma época dedicada ao espetáculo das emoções. A filósofa Hannah Arendt já havia analisado estes perigos ao provar como a "política da piedade", baseada na emoção suscitada pela miséria alheia, poderia prejudicar uma verdadeira "política da justiça". Será que uma "política da indignação" não irá correr o mesmo risco? Será a indignação por si só um valor?

Houve uma época em que o sonho dos avant-gardes das artes e dos contestatários era chocar a burguesia: a indignação era assim uma reação de direita. De A Velha Senhora Indigna, um conto de Bertolt Brecht, eis que passamos assim ao "velho senhor indignado".

7 janeiro 2011 LIBÉRATION PARIS

Stéphane Frédéric Hessel 20 de outubro de 1917 26 de fevereiro de 2013


Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas. .
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