das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas.

A república em Platão, a política e as olimpíadas

Platão escreveu muito acerca da alma: o que ela é e por que a justiça, a educação e o bem são os únicos exercícios para o alcance da felicidade. A leitura da obra de Platão nos traz conceitos que nos levariam a idealidades nunca praticáveis no mundo em que vivemos. Acreditar na justiça como o elemento sem o qual a felicidade é impossível é o mesmo que dizer que jamais veremos a luz. Afinal, onde encontrar a justiça? Ele irá dizer que sem justiça não há felicidade e essa, depende do conhecimento filosófico para ser alavanca por toda a sociedade. Do mesmo modo como nem todos os pássaros cantam, nem todos os homens tem a mesma aptidão para o atletismo, a desigualdade natural é responsável pela harmonia da diversidade.


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Platão em seu dialogo mais conhecido, A República, traça os contornos de uma cidade ideal em que a justiça, a beleza, o bem e a felicidade são os caracteres primordiais de uma constituição politica que paira pela salvaguarda da coletividade e atribuí ao filósofo a responsabilidade por todas as decisões concernentes a educação, ao matrimonio, a manutenção e a administração das leis, a tudo que diga respeito ao funcionamento da cidade estado. Talvez o que mais surpreenda aqueles que leem esse teto platônico não sejam tanto os assuntos polêmicos que causaram choque nos críticos da sociedade, mas a maneira cirúrgica pela qual Sócrates personagem do dialogo, costura o questionamento sobre o que acreditamos saber sem nunca termos de fato refletido sobre esse pretenso conhecimento advindo da experiencia do sensível.

A empreitada platônica não visa estabelecer um novo modo de governo em que haja justiça e felicidade se as condições forem desfavoráveis para isso. Facilmente, uma revolução colocaria tudo a perder. Contudo, se começarmos por nós mesmos, em nossa alma, a prática da justiça e da temperança, fundaremos em cada um de nos, o governo da razão e da melhor escolha.

Platão vai dizer sem justiça não há felicidade e essa, depende do conhecimento filosófico para ser alavanca por toda a sociedade. Esse é o governo do sábio, que salva a cidade por meio da filosofia. Surge Platão no começo do século 4 a. C., com obras que propõe em cena indagações sobre a política, a moral, o conhecimento, a justiça e, essencialmente, trazem para o primeiro plano a preocupação continua com a felicidade dos seres humanos.

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Platão foi o primeiro filosofo a elaborar uma teoria sobre a politica. Em A República, se fala pela primeira vez na história dos regimes políticos, e é delineada dessa forma: a aristocracia, a oligarquia, a democracia, a tirania e a timocrasia (regime de Esparta, governada pelos detentores das honras de guerra). Os tipos de governo, por sua vez, têm como correspondente uma alma que lhes é semelhante. Com isso fica claro que cada um está no seu quadrado. Assim, o filosofo, concede o individuo ligado à cidade da qual participa. Ou seja, do mesmo modo como podemos classificar os regimes políticos em cinco, também dispomos de cinco espécies de indivíduos. a cidade nada mais faz do que espelhar em letras maiúsculas aquilo que em letras minúsculas os seus cidadãos representam.

A república também é a obra na qual a preocupação com o conhecimento referente ao exercício politico assume sua mais bem acabada forma teórica, com a construção de uma cidade ideal baseada na justiça, na educação e na felicidade de todos os indivíduos.

Tal construção resulta na impraticabilidade do governo democrático, isto é, na refutação do governo praticado em Atenas, onde a decisão sobre os rumos da sociedade estava a cargo de todos os cidadãos, sem levar em conta nenhuma técnica ou preparação anterior. Uma vez que a justiça é o alicerce do melhor regime politico, e é compreendida como a restituição cabível a natureza dos dons que ela distribui aos indivíduos, conclui-se que apenas quando aquele que naturalmente for dotado para exercer a politica e instruído segundo os mais nobres preceitos filosóficos da virtude, tomar para si a responsabilidade pelo governo da cidade, a felicidade e a justiça serão as ordenadoras da vida dos cidadãos.

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Assim para que a cidade ideal seja efetivada, é necessário que cada um faça aquilo para o que a natureza o talhou. Do mesmo modo como nem todos os pássaros cantam, nem todos os homens tem a mesma aptidão para o atletismo, a desigualdade natural é responsável pela harmonia da diversidade. Paralelamente ao que ocorre na configuração natural, quando o assunto é politica não há diferença, já que os diferentes indivíduos possuem distintas habilidades naturais, devem, por meio da disciplina do estudo, lapidar tais aptidões e exerce-las do melhor modo possível. Dessa maneira, a politica, na sociedade ideal platônica, passa a ser objeto de conhecimento, e só os detentores de tal saber, isto é, os filósofos são os únicos capazes de praticar o governo em que o justo é o fundamento para as decisões politicas que tem em ira, exclusivamente, o bem e a felicidade de toda a comunidade.

As concepções expressas em A República tenham causado, ao longo dos séculos, um número de criticas. Afinal, ao deslocar para o campo epistemológico a politica, o filosofo provoca uma fenda no senso comum torna a politica assunto de exclusividade dos sábios e ainda desenvolve um modelo de governo arquitetonicamente pensado e fundamentado para que a vida individual reflita e a bem aventurança de toda comunidade.

Foi na forma do dialogo que Platão colocou as grandes discussões de sua época para serem analisadas e vistas sob as mais diversas perspectivas por diferentes espécies de interlocutores. Talvez possamos também nos incluir como interlocutores dos seus diálogos. Afinal, o amor, a amizade, a alma ou o conhecimento nunca deixaram de ser grandes temas para as rodas de conversa infindáveis do gênero humano.

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A observação do mundo nos mostra diversas coisas às quais costumamos atribuir inúmeros adjetivos que expressam nosso sentimento em relação a elas. Dizemos que uma flor é bela assim como afirmarmos ser belo o figurino de um espetáculo teatral. Também consideramos justo determinado castigo, ou ainda injusto o salário mínimo pago no Brasil. Em meio à multiplicidade das coisas belas, justas, feias e boas, Platão chama nossa atenção para a existência de um paradigma segundo o qual nos referimos a pluralidade das coisas sensíveis, todas as que percebemos por meio dos sentidos.

No plano do sensível, as incontáveis ocorrências particulares dos objetos e de suas qualificações bem como os conceitos morais. Ora posso dizer que uma pintura ou uma ação são belas porque existe uma Ideia universal de Belo, da mesma maneira que há uma Ideia de Justiça, uma Ideia de Mesa, e assim por diante. As Ideias são o original de tudo o que percebemos neste mundo, porém Sócrates diz que para tudo o que há, existe uma ideia imutável que nos tona capazes de fabricar artefatos ou pensar neles, do mesmo modo que pensamos nos conceitos políticos e morais.

Assim quando pedimos justiça, desejamos paz ou buscamos felicidade, podemos direcionar cada um desses termos para um caminho, dizendo que a justiça significa o respeito às leis, a paz a conquista da tranquilidade no mundo e a felicidade, o gozo incessante dos bens. Definições como essas bastante comuns, trazem um problema: o circulo vicioso. No momento que digo que a paz tranquiliza, introduzo outra ideia para explicar o que é a paz, afinal, sou levado a me perguntar o que é tranquilidade. E caso eu continue a definir as coisas desse jeito, nunca terei uma definição satisfatória.

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As olimpíadas 2016 nos faz imaginar super heróis, vencendo obstáculos em um momento atual desfavorável para o país e abafar como balsamo a lástima, trazendo de novo um sentido para vivermos os dias atuais. Sendo a cidade olímpica ideal em que a justiça, a beleza, o bem e a felicidade ideias perfeitos de um mundo melhor.

[imagens Google] [contribuição para o texto revista mente e cérebro]


Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas. .
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