das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

Apolo e Dionísio e o trágico em Homem Duplicado de Saramago

Saramago disse: "Estamos sempre buscando conhecer o outro. E se buscamos conhecer o outro, de forma direta ou indireta, voluntária ou involuntária, também estamos a tentar dizer quem somos". Com isso ele discursa sobre as implicações filosóficas de uma questão: “o que você faria se descobrisse, ao assistir a um filme, que existe uma pessoa que é a sua cópia perfeita?” Entramos no terreno das perplexidades subjetivas em o Homem duplicado. “O Caos é a ordem que ainda não foi decifrada”.


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O diretor canadense Denis Villeneuve inspira-se no livro do escritor português José Saramago para fazer esse filme “Enemy”, o “homem duplicado” (2013). A variação do filme é complexa a princípio, mas logo percebemos dois personagens iguais e diferentes ao mesmo tempo em um só homem. Há um problema de identidade fragmentada como se fosse pedaços espalhados e deixados por aí no mundo.

O filme nos conta a história do professor de Universidade na cidade de Toronto, Adam Bell (Jake Gyllenhaal). Sua vida é uma rotina que varia entre a monotonia e o tédio sem grandes novidades. Vive com sua namorada Mary em um relacionamento de silêncios gelados e sexo quente. Essa história começa a mudar quando vê o seu “duplo”, ao assistir um filme em DVD. Então pesquisa todos os nomes que aparecem nos créditos e descobre que o ator se chama Anthony Claire. Descobre ainda onde ele vive e mora, tenta estabelecer um contato, mas tudo é em vão, pois Antony e sua esposa desconfiam dele.

Evidente que há diferenças no comportamento dos dois, enquanto o professor expressa uma "alegria aparente" o outro que é ator expressa variadas máscaras e se multiplica em outros, representando papéis. No percorrer do filme, os antagonistas, são na verdade complementares, mas há também semelhanças, ambos não são realizados e vivem insatisfeitos. Frustrados beiram a raiva e tentam descontar tudo no sexo e na luxúria e são envolvidos com mulheres parecidas fisicamente. Desse encontro as características dos dois de hostilidade e competitividade vêm a tona, tentando levar cada um a mulher do outro para a cama.

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O encontro dos dois é para marcar as diferenças físicas e emocionais, enquanto Adam é embaraçado e ressentido, o seu duplo é assertivo. Villeneuve cria um desconforto no espectador, pois a trama é sem sentido e no drama aparecem elementos surreais, tudo para provocar uma perplexidade a quem assiste ao filme. O simbolismo da aranha, afirma o diretor Denis Villeneuve é "o medo da perda de controle diante da ameaça dos poderes do inconsciente. É uma questão de saber o quanto temos controle sobre nós mesmos. Para mim, o filme é uma reflexão dessa preocupação”.

Esse simbolismo representa o inconsciente adentrando a cidade de Toronto, pois simbolicamente, a aranha é a tecelã do destino e também o perigo, onde remete paradoxalmente a dualidade entre a culpa e o desejo de todos os seres humanos conscientes marcados pela castração de Édipo. As neuroses dessa castração, que barra, transfigura as ansiedades, desconfortos e as atmosferas claustrofóbicas são marcantes no filme.

O clima que paira sobre eles é da traição, luxúria e perversão, símbolo da aranha e ameaça a destruir a ordem estabelecida, das regras do consciente e inconsciente.

A narrativa dos duplos há um conflito existencial entre os fatos históricos, derivados de monotonia e processos lentos, como na vida de Adam e as narrativas rápidas e superficiais do cinema de Anthony e ronda algo que ameaça como uma aranha, o desejo.

Para explicar o sentido dos duplos, fazemos uma analogia do primeiro contato que temos ao nascer é com a nossa mãe, para que uma separação seja feita, precisa-se o bebê se diferenciar, Lacan vai nos dizer sobre o primeiro estádio do espelho, onde o bebê se vê e se diferencia do Outro diferente que não é ele em uma imagem refletida que não é realidade. Essa metáfora do espelho é quando a mãe vai permitir ao filho se reconhecer como um sujeito outro que não ela. Ao se sentir como “Eu” no espelho percebe-se como um outro diferente da mãe, embora ainda dependa da sustentação desta mãe.

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Em pleno século estamos adentrando uma cultura de selfies e redes sociais onde queremos aparecer por meio das fotos, sem medo, sendo apenas a própria imagem refletida no espelho. Uma réplica de si mesmo sendo possível um filtro estabelecendo assim uma simulação, onde pode alterar a forma o jeito diante de um espelho do nosso psiquismo. Essa visão espelhada entre eles nos faz lembrar as oposições arquetípicas do psiquismo humano. Aqui no caso desse artigo iremos explorar essa visão apolínea e dionisíaca, mas há outras oposições que poderemos relacionar como o Yin e Yang e, superego e id.

Nesse conflito humano atualizamos a mitologia grega de Apolo e Dionísio. Duas identidades separadas, mas inseparáveis. Onde seria impossível matar uma identidade para ficar somente com a outra? Há um perigo de que nesse caminho haverá confrontos se não for bem direcionado e na busca pode-se perder a identidade, onde o mergulho da situação leva a esquizofrenia e ao caos.

Nietzsche, diz que Apolo não pode viver sem Dionísio! O titânico e o bárbaro eram, no fim de contas, precisamente uma necessidade complementar. Essa busca constante de ser somente uma única pessoa, sem máscaras, sem filtros poderemos explorar nesse filme. Nessa exploração da busca de identidade, precisamos de uma analogia, um simbolismo para se tentar entender esse conflito.

Lembrando bem das aulas de filosofia com o professor Frajman, podemos dizer que: Apolo e Dionísio são dois princípios designados por Freud de Principio do Prazer e da Realidade. Nesse filme enquanto o artista Antony é o artista dionisíaco, o professor de história Adam é Apolo. Duas instancias do Eu, da identidade de qualquer ser humano. Dionísio é o Deus da desmesura, do fim da dor de estar separado no mundo. Deus da fartura, da embriaguez, do sexo com todas as suas forças, luta contra a aparência e a civilização, tudo que ele quer é prazer, mas há uma tragédia que o acompanha, pois como viver na civilização com essas características? Dionísio é o homem da tragédia, pois vive das suas emoções e do prazer, ele representa o excesso, o vinho, a dança, o êxtase. Representando assim a busca do prazer, a satisfação imediata do desejo desmedido.

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Já Apolo representante do principio da realidade é a consciência de Dionísio como excesso e desmesura passa a ser medido. A razão assombra agora, o espirito dionisíaco. Para os gregos, Apolo era uma proteção contra a desmesura dionisíaca e para Freud, tal Principio de Realidade passa a ser a evolução: o surgimento da civilização. Apolo barra Dionísio. É a concepção do drama em detrimento do trágico. Por outro lado enquanto Apolo barra Dionísio, Dionísio através da instauração desse principio se torna sublimado. Surge aí uma nova estética.

Esse dois princípios, ou melhor, Apolo e Dionísio, são dois instintos ou duas divindades, segundo Nietzsche, eles viviam brigando, pois a vontade de poder imprime sua marca nestes instintos, que só podem estabelecer entre si relações de luta. E o que quer uma força é afirmar-se. Esta luta pela potencia, por mais potencia, contamina as relações entre Apolo e Dionísio.

É assim que esses dois instintos estão constantemente em luta aberta, luta de cada um por sua afirmação. Apolo como proteção contra Dionísio, mas chega um momento que todas as defesas cedem e onde a resistência torna-se impossível. Dai se passa os conflitos em todos os seres humanos. Há uma solução ao de render-se ao adversário, ou então negociar e chegar a uma solução de compromisso onde todos os mecanismos de defesas tornaram-se inúteis. Nietzsche ainda nos diz que a reconciliação desses instintos é que se tentar juntar os dois dar-se-á a tragédia, o caos, a esquizofrenia no sujeito.

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Com isso a subjetividade trágica é resultante de uma dialética, esse dois instintos são fundamentais Freud nos conta que: “Tal como o eu-prazer nada pode fazer a não ser querer, trabalhar para produzir prazer e evitar o desprazer, assim o eu-realidade nada necessita fazer a não ser lutar pelo que é útil e resguardando-se contra danos. Na realidade, a substituição do principio do prazer pelo principio da realidade não implica a deposição daquele, mas apenas sua proteção. Um prazer momentâneo, incerto quanto a seus resultados, é abandonado, mas apenas a fim de ganhar mais tarde, ao longo do novo aminho, um prazer seguro”.

Uma analogia com a sociedade atual onde o sujeito contemporâneo, levado pelo provisório, variável e problemático não possui uma configuração fixa, essencial ou permanente, é desse estranhamento do duplo que vivemos em meio ao caos criando uma nova ordem: caos é a ordem que ainda não foi decifrada.

(imagens Google)


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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