das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas.

essa nossa totalidade

Aristóteles enunciava o princípio da sinergia, ao dizer que a soma combinada e conjunta de todas as forças é maior do que a soma das suas partes individualmente, mas não podem ser explicadas apenas pela soma. O todo é que determina como se comportam as partes. A vida é cíclica, por isso somos divididos ora estagnados em nós mesmos, ora somos o coletivo. Como a escritora Lya Luft disse uma vez: “A vida é feita de ciclos, começos e recomeços. Mudanças e transformações. E para sermos felizes precisamos nos transformar e nos recriar. Viver é recriar-se”. O desafio está dentro de nós em sermos um só com o todo. Nós somos o todo.


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No dia a dia, achamos que nada acontece por acaso. Por outro lado achamos que esses “acontecimentos” não interferem no acaso, mas podemos dizer que eles se relacionam com um “todo” e se complementam de maneira coletiva ou singular.

Por exemplo, imagina no coletivo, a união de dez pessoas tentando remover uma pedra pesada de um lugar. Se cada pessoa for sozinha ao tentar remover a pedra não conseguirá, mas se você somar todas essas forças individuais, teremos uma força triplicada, determinada e coordenada na mesma direção assim à pedra se move, mas no singular a transformação acontece de dentro para fora e é bem diferente.

Assim consideramos a parte que é inter-relacionada, quero dizer, nenhuma parte fica de fora que não esteja relacionada ao “todo”, com o seu respectivo resíduo do passado nas coisas que acontecem de forma coletiva ou singular, digo isso porque todas as partes são conectadas no “todo”, sejam elas passadas, presentes e futuras, dessa forma a expressão de observações, impressões, sentimentos, experiências relevantes de eventos dessas partes formam o “Self”, nada é descartado ampliando a visão desvelam as nossas atitudes em frente ao acaso, fora isso só o sentimento de angústia vem do que é velado, do que é escondido. Com isso hoje podemos pensar que a cada dia nada é escondido, mas sim percebido.

É a partir dessa conexão com o Self que algo acontece entre pessoas e na interação entre elas enriquece o processo singular aumentando a capacidade de olhar por novas perspectivas o “todo”. E dessa conexão que vem da busca de ser verdadeiramente quem se é que a singularidade aparece para “poder ser” uma possibilidade no mundo de forma coletiva, conectada e desperta. Dessa forma nos diferenciamos cada vez mais do que esta ao nosso redor, deixando o passado e tudo aquilo que não serve mais para traz. Dá-se assim um novo começo, um novo dia, um novo caminho. Ao se relacionar com o todo, somos singulares e diferentes ao mesmo tempo compartilhamos, a integração de ideias descobrimos a criatividade plena e a capacidade de ser total e conectado com o pulsar da existência.

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Portanto vivenciar essa diferença referente a quem somos sobre “o que eu deveria fazer” e “o que eu quero fazer” é a tomada de consciência produzindo uma mudança natural em todos nós, pois ao pensarmos no controle de situações tentando achar soluções e o no que “tu deves fazer” há uma diferença. Nietzsche em "Das três metamorfoses do espírito" diz que o "tu deves" é o espírito do camelo, aquele animal que carrega tudo nas costas, mas o espirito do leão diz: “Eu quero”.

Essa nossa totalidade chamada de “self” formada por essas diferentes partes que competem entre si, mas se encaixam, como se cada parte fizesse o seu papel e teriam que estar ali como se fosse um “quebra cabeças”, favorece o embate e a tomada de consciência das polaridades, negativas e positivas, são partes opostas e complementares, pois fazem parte do “todo”, quando essas diferenças individuais são integradas trabalhadas criativamente no crescimento pessoal damos voz ao “self”, mas esse aparente “desequilíbrio” nos leva ao equilíbrio, entretanto a nova forma de se apresentar ao mundo pode ser dolorida, pois é diferente, única e ao mesmo tempo coletiva.

Seguir a visão de mundo de maneira individual é mais fácil, seremos pra sempre ovelhas, mas ao descobrir o jeito de ser e ao se relacionar mesmo sendo diferente é assumir uma postura de uma absoluta profundidade.

E na autonomia autêntica em vir a ser quem se é, um ser integrado às partes que forma a sua totalidade é libertador e angustiante, pois ao se encontrar e afirmar a existência como “ser no mundo” a vivência dos acontecimentos se tornam cada vez mais fáceis ao serem enfrentados, sem jogar contra a existência e esconder quem se é. Isto é, quanto mais forte a consciência de nós mesmos, podemos lutar e vencer qualquer adversidade, apesar da angustiante contradição que nos rodeia. É uma luta interior. Assim afirmando-se a vontade e ir adiante se fortalece. Como diria Nietzsche: “Aquilo que não me mata, me fortalece”.

Esse processo é uma perda daquilo que não serve mais, deixando para trás as “camadas”, ou seja, as resistências que “velam” a origem da pessoa e quanto mais forte forem essas camadas que encobrem a pessoa mais elas estão longe do Self.

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Esse nosso “poder ser” são as possibilidades que geram a mudança de receber e ofertar o melhor de si sem pretensões. É da integração dos opostos que a autocriação e a alquimia acontece.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas. .
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