das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

Gradiva de Dalí aquela que avança na arte

Salvador Dali avaliou a importância que Freud dava à arte, considerando-a muitas vezes associada a uma aproximação do inconsciente. Freud ao produzir o tema “Delírios e sonhos na Gradiva”, realizou sua primeira análise literária em 1903, mas esta obra se chamou originalmente “Gradiva – uma fantasia pompeiana”, quando foi escrita pelo alemão Wilhelm Jensen 1837 – 1911. Do ensaio freudiano "Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen” aborda, principalmente, os diferentes tipos de delírios.


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A Gradiva de Jensen (do latim, "aquela que avança") foi tema do famoso estudo de Sigmund Freud "O delírio e os sonhos" na 'Gradiva' de W. Jensen inspirou vários surrealistas e o famoso Salvador Dali.

A história de Gradiva é a de um arqueólogo cujo "esquecimento das mulheres", por assim dizer, vai obter sua cura exatamente em... Pompéia!

Segue pesquisa sobre a história:

“Um jovem arqueólogo, chamado Norbert Hanold, descobriu no museu de antiguidades de Roma, um relevo que o atraíra muito, tendo conseguido do mesmo uma cópia de gesso que colocou em seu gabinete de trabalho, numa cidade universitária da Alemanha, para admirá-la. A escultura representava uma jovem adulta, cujas vestes esvoaçantes revelavam os pés calçados com leves sandálias, surpreendida ao caminhar. Um dos pés repousava no solo, enquanto o outro, já flexionado para o próximo passo, apoiava-se somente na ponta dos dedos, estando à planta e o calcanhar perpendicular ao chão. Possivelmente foi esse modo de andar incomum e particularmente gracioso que atraiu a atenção do escultor e que, tantos séculos depois, seduziu seu admirador arqueólogo.

O jovem arqueólogo chamou-a de Gradiva, "a jovem que avança". Imaginou-a filha de uma família nobre, de um patrício a serviço de Ceres (deusa do lar, do casamento e da agricultura), e pensou que ela estava a caminho do templo da deusa. Sua natureza tranquila e serena não combinava com a vida agitada das cidades grandes, então ele imaginou-a vivendo em Pompéia. Percebeu em sua fisionomia traços gregos e imaginou-a de origem helênica.

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Hanold colocou seus conhecimentos arqueológicos a serviço desta e de outras fantasias relativas ao modelo da escultura. Daí partiu para pensar se aquele modo de pisar seria encontrável na realidade e passou a observar a vida.

Isso o levou, contrariando seus hábitos, a observar as mulheres e seu tipo de andar. Até então ele só considerava o sexo feminino em mármore ou bronze e nunca prestara a menor atenção em suas representantes contemporâneas.

Sua pesquisa levou-o a concluir que o modo de andar da Gradiva não era encontrável na realidade. Jensen relata então uma série de sonhos de Hanold”.

Passa-se assim uma série de sonhos que provoca angústia, processo o qual por fim leva Hanold transparecer modificações, até chegar à sua amiga de infância Zoé por quem ele foi apaixonado. Esse sentimento foi recalcado, passando a procurar por outras mulheres, sendo indiferente em relação ao sexo e se interessando mais pelo jeito de andar das mulheres, do que nas mulheres em si. Esses delírios e fuga diante do desejo recalcado, passa a ser um violento desejo de tornar a ver Zoé e esse desejo é mais forte do que o ímpeto de fuga. E Hanold constrói sua fantasia roteirizando-a, pondo-a em cena.

Salvador Dali, excêntrico, com uma intimidade que beira a loucura expressou na pintura, na escrita, no cinema e até na criação de objetos que dizem algo do real abriu caminho para muitos artistas e surpreendeu os próprios surrealistas. Serviu-se de gavetas secretas acopladas aos corpos para representar a psicanálise em suas pinturas, apoiado nas ideias de Freud, de quem fez um retrato em 1938 (de memória), quando o procurou para lhe apresentar sua pintura Metamorfose de Narciso.

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Para falarmos a relação de Gradiva e Dali é apontar justamente aquilo que faz laço e que serve de ancoragem para que o artista não sucumba na loucura. Vemos que não só o surrealismo e a pintura faziam essa ancoragem, mas também, Gala – Helena Devulina Diakanoff – uma mulher que acompanhou Dalí por cinco décadas. Dalí sentia-se curado por Gala através do amor, e ainda afirmava que essa forma de cura ultrapassava os métodos psicanalíticos. Além de retratá-la nas pinturas, costumava distribuir elogios em referência a ela em livros, conferências e entrevistas. A vida sexual de Dalí, anteriormente, se resumia às práticas masturbatórias, a única descarga sexual a que se permitia. Antes de Gala, se apavorava com as ideias de ficar louco, assim como de ser um possível homossexual. No entanto, o corpo e o sexo feminino lhe assustavam, mas, ainda assim, sua chance de não enlouquecer e ficar só seria encontrar uma mulher companheira. E assim foi Gala.

Dali havia acabado de ler Gradiva e a interpretação de Freud, na qual a heroína conseguiu a cura psicológica do arqueólogo a partir do desvelar do inconsciente dele na trama, o artista ficou muito interessado. Para ele a percepção do jovem se assemelhou muito com a dele próprio, porque quando ele viu Gala caminhando pela primeira vez, percebeu que os movimentos dos pés assemelhavam-se aos de Gradiva de Freud – Jensen. . Imaginava-a como uma deusa e que estava dentro do seu próprio templo, em Cadaqués.

Depois de Dali deixar a Escola de Belas Artes em Madri dedicou seu conhecimento à psicanálise. Em 1925 investiu na compreensão das obras de Freud, tornando-se um grande admirador e assíduo leitor do seu trabalho.

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O próprio pintor não hesitava em rotular-se constantemente como um portador de alguns transtornos identificados por Freud, como a histeria, narcisismo e paranoia. O artista buscou explicações para as suas próprias obras a partir do método psicanalítico.

Apesar do romance de Gradiva se esclarecer e o ensaio freudiano reconhecer mesmo a origem do delírio na ficção, Dalí identifica ali o seu romance e a sua cura. Afirma também ter conhecido Gala quando pequeno, em uma imagem projetada por seu professor de escola. Assim como a heroína do conto, Gala estava em suas visões e tinha o poder de curá-lo, ela conseguia trazê-lo de volta aos laços com a realidade, e marcar seu nome na história da arte.

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Sem dúvidas, Gala teve uma função para Dalí e “se não fosse a notável capacidade de organização de sua mulher, viveria perdido em seu mundo fantástico, sem nenhum contato com a realidade” de NÉRET, G. (1994). Salvador Dalí.

(Imagens Google de Salvador Dali) Referências: NÉRET, G. (1994). Salvador Dalí. Paris: Taschen. FREUD, S. (1976[1906-1907]). Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. ESPINOSA, P. (2009). Salvador Dali y Gala.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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