das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas.

O estranho em Camus

Camus um estrangeiro no mundo. "Nunca me lembrei senão de mim mesmo. Nunca me preocupei com os grandes problemas, eu vivia intensamente e num livre abandono à felicidade... chamo verdade a tudo o que continua." Assim, Camus é um filósofo preocupado com o simples, o cotidiano e os profundos problemas da existência. Especialmente com a felicidade.


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O autor francês Albert Camus escreveu a sua obra “O Estrangeiro” em 1942 onde conta a história de um homem que não se destaca em sentido algum, na verdade, o típico homem moderno. Ele sente a morte da sua mãe, trabalha, tem um caso e outras experiências sexuais, tudo sem qualquer decisão nítida ou consciente da sua parte. Mais tarde atira num homem, e mesmo em seu intimo não sabe se atirou por acidente ou em autodefesa. E submetido a julgamento, executado, tudo sob uma horrível sensação de irrealidade, como se as coisas acontecessem sem interferência de sua parte.

O livro está impregnado de um colorido vago, que deixa o leitor frustrado e chocado, como o tom indeciso das histórias de Kafka. Tudo parece ocorrer como num sonho, sem um verdadeiro relacionamento entre o homem e o mundo, ou ele mesmo e suas ações.

O “estrangeiro” não tem coragem nem desespero, apesar dos acontecimentos exteriores trágicos, não tem consciência de si mesmo. No final, quando está a espera da execução, tem um resquício de compreensão, mas não inteiramente. O romance é um quadro, uma visão sutil e aterradora do homem moderno, um verdadeiro “estranho” para si mesmo.

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Nesse embate entre homem e o mundo, o estrangeiro percebe que está sendo julgado, exposto e condenado, mas ele não se defende. E agora como um criminoso, ele passa a se ver como um criminoso, diferente do que era antes um cidadão comum, nas ruas, nas relações, no trabalho, mas foi julgado como criminoso e assim todos diziam: “Ele, o sujeito estranho, só podia mesmo ser um homicida, um assassino cruel. Como se toda a vida fosse uma preparação para o crime.”

Assim é o mundo na visão de Camus, um mundo do insuportável, do absurdo e da revolta ao mesmo tempo um mundo da fraternidade, da solidariedade mas também da miséria e do mal entendido.

Em Camus suas expectativas são sempre diferentes das que a vida oferece. Então, nasce o sentimento de exílio. Ele afirma: "não existe pátria para quem desespera e, quanto a mim, sei que o mar me precede e me segue, e minha loucura está sempre pronta. Aqueles que se amam e são separados podem viver sua dor, mas isso não é desespero: eles sabem que o amor existe. Eis porque sofro de olhos secos, este exílio. Espero ainda. Um dia chega, enfim."

O sentimento é vida e ele acontece. Viver e sentir não nomear para sentir, apenas sentir, é desafiador porque não há regras para isso ao invés disso criarmos uma busca ilusória de satisfação momentânea, não há tentativas de controle do sentimento, se sinto algo porque devo controlar? Apenas podemos sentir.Talvez por medo do que é desconhecido nomeamos o mundo para darmos um sentido para não sentir, talvez porque precisamos parar com esse hábito de rotular, de nos colocarmos como se precisássemos do governo, ou de qualquer outra coisa que nos defenda, porque ainda somos crianças e precisamos que alguém faça algo por nós. Como dizia Camus: “A vida será mais bem vivida se não tiver sentido”.

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E quanto mais forte for a consciência de nós mesmos, melhor para a nossa saúde mental. Se vence a angústia, a ansiedade, que é uma luta interna. Assim como um sintoma no corpo como a febre que as forças físicas fazem de tudo para derrubá-la e combater a infecção, ou seja, quanto maior a capacidade para preservar a consciência pessoal e do mundo que nos rodeia, menos seremos dominados pela ameaça. E o pior que pode acontecer é deixar se abater e se entregar a apatia, ao empobrecimento do pensamento e ao fracasso do sentimento.

A humanidade precisa talvez modificar suas crenças e passar a acreditar mais na capacidade de transformar o mundo e a si mesmo. Desviar os olhos do que é real, ou melhor, da realidade que nos cerca, facilitamos desviamos muitas vezes do caminho traçado para darmos garantia de uma sobrevida por mais um dia. É dizer que a vida é um grande negócio, um “passa prato”, algo de superficial há nisso. Antes de qualquer coisa, já dizia Camus: “Pensar é antes de mais nada querer criar o mundo”. Há uma responsabilidade nisso, alguém se responsabiliza por isso? Fazer algo pelo social de proveitoso para todos?

Apesar da confusão que nos rodeia no âmbito mundial é permitir a consciência, ou melhor, aqui sem ideias de moral ou religiosidade, é criar uma identidade própria e isso depende de cada um.

Cada década tem o seu desafio e a nossa é criar uma identidade, ou seja, é esta capacidade para ver-se do exterior a autoconsciência, essa é a capacidade de distinguir entre “eu” e o mundo, é sair do presente que poderá aprender com o passado e planejar o futuro e contemplar sua história e a partir do seu desenvolvimento como pessoa valer dos acontecimentos em seu país, na sociedade, como um todo. Essa autoconsciência lhe trará a empatia, porque permitirá que se coloque no lugar do outro e imaginar como se sentiria e o que faria se fosse o outro. Essa sensibilidade é criar beleza, dedicar-se a ideias e morrer por elas, caso necessário. Realizar potencialidades é ser pessoa. É ser gente.

A conformidade é uma grande destruidora, ao se deparar com tudo já pronto e estabelecido, fugimos da capacidade para sentirmos e criarmos a nós mesmos.

Como o escritor inglês David Hebert Lawrence disse uma vez: “Por baixo daquilo que somos, somos algo diferente, somos praticamente qualquer coisa”.

Podemos entender a felicidade de Camus? Talvez...

"Então, planando em pensamento por cima de todo este continente que me é subordinado sem saber, bebendo a luz de absinto que se eleva, ébrio, enfim, de palavras más, sou feliz, sou feliz, estou lhe dizendo, proíbo-o de não acreditar que sou feliz, que morro de felicidade! Ah, sol, praias, e as ilhas sob o os alísios, juventude cuja lembrança desespera!" Sempre sobre uma terra onde tudo é "Tarde demais, longe demais". (A Queda, CAMUS 1956).

(Imagens Google)


Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas. .
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