das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas.

O ressentimento, a má consciência e o ideal ascético. A neurose, a patologia e a psicologia em Nietzsche.

“Para ser feliz, o homem precisa afirmar sua potência de vida. Quando essa é reprimida, ele leva uma existência submissa, apenas reativa. Sentimentos como culpa e ressentimento decorrem de valores estabelecidos pelo homem reativo”. Por Amauri Ferreira filósofo e escritor. É nesse discurso da modernidade ao tentar corrigir o caráter infinito da existência onde tudo que se preserva é a metafísica ou o ideal de algum sentido negador do devir, da totalidade da existência e do corpo em nome de pressupostos “valores superiores”, ditados na época de Nietzsche pela moral e pela religião, é hoje, sobretudo ditado pelo mercado e pelo consumo. Nietzsche buscava fortalecer o homem. A proposta aqui é pensar em uma psicologia da maneira de se pensar nietzschiana propondo esse novo olhar como uma espécie de ciência “cuidadora” da vida e expressar um movimento de superação da passividade, da falta de sentido, ou seja, o niilismo, para isso o super homem que é uma figura usada por Nietzsche é antes uma atitude de se recusar a continuar na passividade, culpado pelo o que a moral condenou, torturando-se em arrependimentos de má-fé.


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Ao se pensar em uma psicologia voltada para a filosofia de Nietzsche, mergulhamos na sua história, onde Nietzsche, na segunda metade do século XIX, em sua obra “O Nascimento da Tragédia” pensa uma nova forma de “se pensar a vida”, contrária às tendências predominantes nas religiões, da filosofia, da moral, da ciência, da própria cultura em geral e nos remete ao valor incondicional do corpo, dos sentidos e do vivido e da vivência humana, e como tais formas se manifestam em toda sua espontaneidade. Por isso a sua crítica à chamada tradição metafísica (filosofia socrático-platônica e filosofia medieval), da cultura ocidental, de desvalorização do corpo e da vida. Dessa forma certas noções no mundo moderno como justiça, deus, bem, mal, verdade, virtude, teria uma relação entre elas, assim constata o progresso científico. O objetivo fundamental em sua obra a Genealogia da moral é a de realizar uma crítica radical dos valores morais dominantes na sociedade moderna.

Em Além do Bem e do Mal, Nietzsche nos provoca e dará a chance de repensar a psicologia como uma “doutrina dos afetos”, assim não cabendo mais para estabelecer uma cisão entre o homem e o mundo. Por fim, fará apologia da psicologia a qual ele chamou de "a rainha das ciências".

(,,,)Por outro lado, se o seu navio foi desviado até esses confins, muito bem: Cerrem os dentes! Olhos abertos! Mão firme no leme! – navegamos diretamente sobre a moral e além dela, sufocamos, esmagamos talvez nosso próprio resto de moralidade, ao ousar fazer a viagem até lá – mas que importa nós! Jamais um mundo tão profundo de conhecimento se revelou para navegantes e aventureiros audazes: e o psicólogo, que desse modo “traz um sacrifício” – que não é o sacrifizio dell’intelletto, pelo contrário! -, poderá ao menos reivindicar, em troca, que a psicologia seja novamente reconhecida como rainha das ciências, para cujo serviço e preparação existem as demais ciências. Pois a psicologia é, uma vez mais, o caminho para os problemas fundamentais. (Além do bem e do mal, cap. 1, aforismo 23, trad. de Paulo C. de Souza, p. 27, 28).

Na obra A Genealogia da moral, voltada para o ressentimento ou para a forma reativa do vivente, quando o sujeito ao se deparar com a falta de sentido e no devir se torna um niilista reativo, dessa maneira é como se a oscilação de potência oposta a uma afirmação de vida, volta-se para o seu interior, com isso impossibilitado de agir no exterior, há um enfraquecimento da potência de vida e nesse retorno, ou seja, procurando mudar o que faz mal, o homem ultrapassará a sua própria crença que o prendia, uma forma de transcendência, de tentar superar o que o coloca pra baixo, uma forma de negação da vida. A análise voltada para a clínica nos faz notar que esse homem ressentido não é somente uma destruição em si ele é uma construção de si mesmo e isso atravessa todas as áreas da vida, ou melhor, da existência.

Roberto Machado define esse tipo de homem niilista a partir de suas três principais figuras de representação: o ressentimento, a má-consciência, o ideal ascético. Conforme ele, o ressentimento é o predomínio das forças reativas sobre as forças ativas. O ressentido é alguém que nem age nem reage realmente; produz apenas uma vingança imaginária, um ódio insaciável.

"Visto que o homem se consumiria rapidamente se reagisse, acaba por não reagir: eis a lógica. E nada consome mais rapidamente do que os afetos do ressentimento. O desgosto, a suscetibilidade doentia, a impotência em se vingar, a inveja, a sede de vingança, o envenenamento em todos os sentidos: eis para o homem esgotado o modo mais nocivo de reagir." (MACHADO, 1999).

Machado nos diz que o ressentido, é uma força do fraco, nega os valores que o outro institui e a má-consciência ou o sentimento de culpa que tem é a transformação do tipo ativo em culpado.

Nietzsche nos dirá: “A lembrança é uma ferida supurante. Estar doente é em si uma forma de ressentimento... e nenhuma chama nos devora tão rapidamente quanto os afetos do ressentimento... o ressentimento é o proibido em si para o doente, seu mal: infelizmente também sua mais natural inclinação” (Ecce Homo, Por que sou tão sábio, 6)

A argumentação de Nietzsche nesses importantes textos que analisam essa forma de surgimento da má-consciência se faz pela relação entre instinto e consciência. Isto é entendido como um mal para a vida, ou seja, uma reconstrução do passado e antecipação do futuro, ou melhor, às forças reativas desse homem imperam sob as forças ativas, ao invés desse vivente agir no aqui e agora, ele re-age, fica preso no que passou com ele no passado ou antecipa o futuro, estagnado na ação e do movimento, nega o agir. Os acontecimentos no mundo para o vivente reativo deixam marcas, pois estes são recordados constantemente, como uma doença grave, porque tais marcas, ou melhor, tais impulsos são por ele interiorizados e refreados, que o leva a má consciência, se sentem culpados. Por isso Nietzsche dirá que esse homem planeja uma vingança para se livrar da culpa. Para Nietzsche, a doença é uma forma de ressentimento. Seria um sintoma de ressentimento dado a experiência do ressentir, ou seja, sentir de novo e de novo e de novo... Uma forma de repetição.

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A filosofia deleuziana: "Quando é que os homens do ressentimento alcançarão o triunfo sublime, definitivo, brilhante, da sua vingança? Indubitavelmente quando conseguirem lançar na consciência dos felizes a sua própria miséria e todas as misérias: de modo que estes comecem a envergonhar-se da sua felicidade e a dizer talvez uns aos outros: é uma vergonha ser feliz perante tantas misérias."(DELEUZE, 1976) Como podemos avaliar a vontade de potência em um homem reativo? Essa estranha força reativa seria uma vontade que quer mais potência?

A vida para esse homem é sofrimento e esse sofrimento é interminável, pois ele ainda não experimentou a força ativa, pode ser que um dia tenha um fim a sua dor, ele na esperança de alcançar essa suposta felicidade ele irá procurar o sacerdote ascético que irá lhe oferecer uma nova chance, uma nova explicação.

Ao procurar o ascetismo, ganha uma inversão do seu valor, esse homem dependerá de outra pessoa, ou de uma instituição para que a sua vida entre nos eixos para que a sua força retorne, mas continuará culpado, os "fracos" para Nietzsche são incapazes de enfrentar à existência, pois eles são o tipo reativo que irá considerar o forte um egoísta e os maiores culpados pela sua desgraça é uma ameaça a sua integridade, a sua moral e os seus bons costumes. Projeta dessa forma no outro a sua má consciência, pois ao tentar sublimar seus instintos, negará a vida.

Nietzsche, dando origem a má-consciência:

“Todos os instintos, que não se descarregam para fora se voltam para dentro... A hostilidade, a crueldade, o prazer na perseguição, no assalto, na mudança, na destruição, tudo isso se voltando contra os possuidores de tais instintos: esta é a origem da má- consciência” (Genealogia da Moral, 2ª dissertação, 16).

Por se tratar de um prisioneiro no ressentimento, interiorizando seus afetos, pois constantemente “re-sente” a sua dor, impedido de agir no mundo, pois procurou uma instituição ascética para sublimar suas forças instintivas, a força reativa relacionada a “posses”, como o “tenho que ter isso, tenho que ter aquilo”, preencheria a sua vontade, ou melhor, aliviaria a sua reatividade e para o homem ativo, a alma preencheria com as sensações do corpo que recebem tudo que se sente para poder servir ao mundo tudo que ela não careceria na vontade.

Sobre as posses e as riquezas, Nietzsche dirá em Assim falou Zaratustra: “Tornar-vos vós mesmo oferendas e dádivas, é essa a vossa sede; e, por isso, tendes sede de acumular, na vossa alma, todas as riquezas”(Da virtude dadivosa, diferenciar-se de si mesmo é, sem dúvida, tornar-se o que se é).

A inversão de valores se dá no ideal ascético onde os valores gerados pelo vivente foram invertidos por outros valores, ou seja, os valores da força ativa foram invertidos pela força reativa.

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Como isso acontece?

O sofrimento faz parte do homem que é reativo e como dissemos anteriormente, não termina nunca essa dor, é o re-sentir, sentir de novo e de novo, sofre por estar no mundo, por viver, não age e não experimenta agir, algum dia a sua dor irá passar mas se conseguir encontrar alguma coisa que tenha explicação para tudo, para seu sofrimento e que assim possa encontrar respostas procura o sacerdote ascético que ira lhe dar tais respostas e ainda lhe passará a “fórmula mágica para entrar nos reinos dos céus”. O sacerdote que acolhe o “rebanho”, na interpretação do ascetismo os homens com força ativa passam a serem culpados, pois são egoístas, os “maus”, e os homens fracos, são os bonzinhos, humildes, pacientes e submissos, pois não são egoístas, eles seguem o “rebanho”. Esse ideal aparece quando tomado pela culpa e a má consciência, restaria negar a vida, ou melhor, ir em busca da religião, para encontrar respostas e dar um fim ao seu sofrimento, negando tudo no mundo que lhe causa dor e sofrimento.

Roberto Machado(1999) no seu livro Nietzsche e a verdade, conta que:

“(...)A necessidade do homem ocidental se desvencilhar da moralidade cristã a fim de que pudesse nascer o que chamou de além-do-homem, novo homem capaz de levar às últimas consequências a afirmação da vida, dando vazão a sua “vontade de potência”. O grau de afirmação seria tal que o além-do-homem desejaria o eterno retorno, ciclo interminável da existência, vivenciando-a novamente em todos os detalhes, tanto os agradáveis, como aqueles que lhe causam dor e sofrimento. Para Nietzsche, este homem estaria por vir. Este seria o homem do futuro...” (MACHADO, 1999)

O mundo tal como ele é, é o mundo dos afetos para Nietzsche. Para melhor elaborar tais questões, não se pode estar alheio as questões que Nietzsche traz, como a análise do ressentimento e da interiorização.

Para Nietzsche o desafio do homem é em relação com a sua própria natureza! A patologia se apresenta quando o homem fica preso a uma crença, sem mudança, sem movimento e sem criação.

Todo individuo neurótico é incapaz de perceber quais são as suas necessidades dominantes ou de definir sua relação com o meio de forma a satisfazer tais necessidades.

Sabemos que a neurose manipula o meio, cristaliza e tira a possibilidade de criar. A neurose é uma fuga do ritmo da vida, manipulando o meio para não se arriscar. O individuo deixando de ser o que se é, fugindo do novo, ao invés de se abrir para uma nova ideia, correndo o risco de algo desconhecido, sem saber o que irá acontecer à vida perde sua força e assim a vida deixa de ser uma dança e nem todos suportam a tarefa.

Para Nietzsche tem vidas que não suportam a existência! Nem todos suportam a tarefa de existir!

Tanto é que:

"Mas existem dois tipos de sofredores, os que sofrem de abundância de vida (...) e depois os que sofrem de empobrecimento de vida, que buscam silêncio (...) ou a embriaguez, o entorpecimento, a convulsão, a loucura" (Nietzsche, Aforismo 370 de A gaia ciência, intitulado “O que é romantismo?” pp. 272-273, 2001).

Segundo Nietzsche, a experiência do corpo é fio condutor do devir na humanidade, e, é a autêntica forma de consciência (a partir do corpo, da terra, da imanência, da natureza integrada como totalidade orgânica e espiritual, em nossos termos, pois aqui por espiritual, entendemos uma integração da pessoa com a totalidade de sentido que está nela e para além dela, e não uma representação usual, a de que não passamos de pó, criaturas de Deus). Por espiritual, não estamos querendo dizer uma metafísica que Nietzsche se preocupa e denuncia como adoecedoras, que funda uma tradição que nega o corpo no platonismo, e, a seguir, o demoniza na apropriação institucional e teológica da fé cristã. Na tradição metafísica, os ocidentais passam a ser figuras corretoras da realidade, daí nós os ocidentais queremos corrigir, nós temos um critério, uma medida única, absoluta, regulada pela racionalização técnico-instrumental para a correção da vida, um comando onde Nietzsche irá dizer que isso é uma autêntica doença do homem ocidental, pois na modernidade, através da ciência, ou mesmo da filosofia, ela terá a tarefa de cada vez mais corrigir o caráter infinito da existência, e de nunca ver o sentido pleno das coisas como elas e se dão entre si, como se relacionam, como acontecem na própria existência. Esse espirito de tensão e de conflito para o indivíduo Nietzsche irá se referir em Além do bem e do mal como uma "crítica da modernidade", acompanhada de "indicações para um tipo antitético que é o menos moderno possível, um tipo nobre, que diz Sim" (Nietzsche, 1995, p.95). Com essa e outras palavras, ele assevera que a modernidade lhe era uma referência de posicionamento, todavia, jamais como destino, fim ou saúde, mas sim como meio e doença.

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É nesse discurso da modernidade ao tentar corrigir o caráter infinito da existência onde tudo que se preserva é a metafísica ou o ideal de algum sentido negador do devir, da totalidade da existência e do corpo em nome de pressupostos “valores superiores”, ditados na época de Nietzsche pela moral e pela religião, é hoje, sobretudo ditado pelo mercado e pelo consumo. Nietzsche buscava fortalecer o homem.

Nietzsche então irá dizer que esse indivíduo estará ausente da vida, não estará pleno naquilo que faz ou pensa, estará sempre procurando algo no passado ou no presente para justificar os infortúnios e a tragédia da vida, e se sentindo vitimado no seu íntimo ao precisar de um sentido superior a vida para buscar tais justificativas. É contra isso que Nietzsche irá se posicionar.

Sabemos que para Nietzsche não tem como separar o sujeito e o objeto, não se precisa de verdades absolutas e buscar uma teoria para justificar essas dicotomias, na forma de entender o outro em uma forma provisória logo irá ser outra coisa na dinâmica do tempo, na dinâmica da vida. Isso nasce dessa busca individual de ser coerente com aquilo que se é e enxergando o individuo como um todo sem separar corpo e alma, o individuo se apropria dele mesmo sem formas teóricas, assim esse individuo aprende a se equilibrar no todo, como uma dança fluídica, fazendo com possa ser quem se é, em sua totalidade ao lançar-se para fora, ao aparecer o seu modo de ser.

Nietzsche diz: "O que é 'passivo'? Ser tolhido no movimento que avança açambarcando: portanto, um agir da resistência e da reação. O que é 'ativo'? É o que açambarca poder, dirigindo-se para fora" (A vontade de poder, 657).

A nós, filósofos não nos é dado distinguir entre corpo e alma, como faz o povo, e menos ainda diferenciar alma de espírito. Não somos batráquios pensantes, não somos aparelhos de objetivar e registrar, de entranhas congeladas – temos de continuamente parir nossos pensamentos em meio a nossa dor, dando-lhes maternalmente todo sangue, coração, fogo, prazer, paixão, tormento, consciência, destino e fatalidade que há em nós. (NIETZSCHE. A gaia ciência, “Prólogo”)

As dicotomias podem ser superadas através da conquista de si, o que dá propriedade de ser, o que faz sermos diferentes um do outro. Nietzsche irá dizer: “Nesse sentido, nós não mais somos possuidores de um corpo, nós somos um corpo.” (Assim falou Zaratustra I, “Dos desprezadores do corpo”).

A neurose são essas dicotomias ao se fazer uma tentativa desesperada do indivíduo em evitar o conflito e recuperar o equilíbrio com o meio. Novos elementos sempre irão entrar na vida, como de repente poder se apaixonar... E em um momento nos ressentir, eis o problema! A vida é isso! A vida é um jogo entre forças!

Forças essas onde ampliamos, onde nos distinguimos. Na humanidade Nietzsche irá dizer que o ser humano é um ressentido, governado por forças reativas, como ele irá dar conta desses novos elementos?

Logo Nietzsche dirá:

"Quando se fala de humanidade, a noção fundamental é a de algo que separa e distingue o homem da natureza. Mas uma tal separação não existe na realidade: as qualidades "naturais" e as propriamente chamadas "humanas" cresceram conjuntamente. O ser humano, em suas mais elevadas e nobres capacidades, é totalmente natureza, carregando consigo seu inquietante duplo caráter. As capacidades terríveis do homem, consideradas desumanas, talvez constituam o solo frutífero de onde pode brotar toda humanidade, em ímpetos, feitos e obras" (Nietzsche, 2000, p.65).

Quem somos nós? Nietzsche dirá, sempre somos o que estamos sendo naquele exato momento, no instante, o si mesmo que precisa dar conta, ou que essa vontade precisa da força para ser si mesmo, para expansão da força, da vontade de potência.

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No ressentimento o combate é com algo novo, que ainda não aconteceu com isso o ressentido não expande sua força vital tornando-a fraca, despotencializada para enfrentar novas situações, por exemplo, quando o pianista está em uma orquestra, ele está conectado, ele é o si mesmo!

As ideias de distinção entre o que é profundo e a superfície, Nietzsche nos dirá que essas dicotomias tornam os seres humanos sem força para alimentar a vontade, pois o homem ocidental não irá alcançar o mundo além deste mundo, essas hipóteses levam o indivíduo a negar à vida, a negar o corpo, as sensações essa supressão de instantes absolutos, essa superfície diferente do profundo de viver a vida tal como ela é. A partir desse pensamento nietzschiano trata-se o mundo como uma relação, mas sem duração eterna, podendo se reconfigurar através das forças conflitivas do pensar o mundo através das relações de forças, onde há uma força que resiste e outra que agem, essas relações serão dinâmicas para o individuo.

Quando elementos opostos tem uma intenção, há tensão, mas sem aniquilamento da força, onde há a vontade de potência. Essa dinâmica no devir cria uma unidade, uma singularidade, a vontade de potência que nos dirige, agindo e reagindo, com caráter conflitivo, para expansão ou subtração das forças, destas relações que não se tem uma continuidade da força ela mingua, pois a vida são essas forças e essas transformações se passam em pleno devir em mudança constante, que precisa de uma unidade, pois a vida sem unidade não existe, mas com relação relativizando a entrada de novas forças para poder se preservar ela expandirá.

"A vontade de poder só pode externar-se em resistências; ela procura, portanto, por aquilo que lhe resiste. [...] A apropriação e a incorporação são, antes de tudo, um querer-dominar, um formar, configurar e transfigurar, até que finalmente o dominado tenha passado inteiramente para o poder do agressor e o tenha aumentado" (NIETZSCHE, A vontade de poder, 656).

O ser humano não se apropriando dessa dinâmica cria estratégias, cria uma neurose, tentando se preservar intacto, o individuo ressentido não vendo o devir, não tornará o que se é. Não suportando a vida tal como ela é. Entrar na dinâmica da vida é afirmar o caráter expansivo, dinâmico, plural e uno da própria existência.

A necessidade para Nietzsche não é refratária é preciso selecionar para expandir quem se é. A vida não tem regras, a vida é sem sentido absoluto, porque não tem plano absoluto, para criar a necessidade existencial para cada individuo, a vida obriga o individuo a ser como se é para que viva um processo que se expande, apropriando-se daquilo que se é com grandeza e para que saiba morrer no tempo certo, pois não vitaliza mais o individuo que não se tem mais vida. O espirito livre para Nietsche é ser quem se é deixando de lado aquilo que não faz expandir o ser humano para se tornar o que se é sendo o que se é.

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Podemos dizer que a observação atenta dos valores trazidos pelo individuo na psicologia é um tema que nos abre os olhos a filosofia de Nietzsche. Da mesma forma, Nietzsche convida os psicólogos a trabalhar junto ao paciente a criação de seus próprios valores, desistindo de seguir impessoal e niilisticamente valores alheios, ou, até, ser indiferente a eles e aos seus próprios. Estudando Nietzsche, podemos trabalhar, igualmente a aceitação da tragicidade da existência, ou seja, seus limites, a condição humana, para poder realizar a transformação dos valores e um lançar-se nela como um ser renovado, que Nietzsche chama de super homem.

O super homem é uma figura usada por Nietzsche para expressar um movimento de superação da passividade do niilismo, uma atitude de se recusar a continuar a se fazer passivo, culpado pelo o que a moral condenou, torturando-se em arrependimentos de má-fé. A pessoa, quando consegue adotar um chamado “niilismo ativo” adota uma negação ativa, questionando e procurando inventar os seus próprios valores, sem que com isso, se dissocie da convivência. Isso, evidentemente, não significa que ela resolveu todos os problemas e pendências de sua vida, e pode partir para a definitiva conquista da tão sonhada pelo senso comum felicidade. Trata-se, antes, de uma atitude que pode criar condições de se mudar a vida de forma decisiva a partir de aceitação dela como devir, tragicidade, beleza, delírio, intensidade, paixão, ponderação, sofrimento, êxtase, superação.

Quando conseguimos um movimento afirmativo da vida e da existência fortalecemos e dinamizamos quem somos nós. A integração de uma interpretação inspirada em Nietzsche, aplicadas à clínica podem facilitar uma afirmação e expressividade do que se é vivido e compreendido pelo paciente.

A potência das forças ativas se dará através do que se é criado pelo individuo como forma de viver a vida tal como ela é, sem atitudes de negação. Tais atitudes, como mostramos, leva o paciente a se deparar com frases de que “se fosse dessa forma, não teria acontecido daquele jeito”, o que revela a marca do ressentimento, da culpa: é o que Nietzsche trata como má consciência. A má consciência (lembrando-nos a má-fé enunciada por Sartre) leva o paciente afirmar sua potência pautado em atitudes niilistas como a negação do corpo, das sensações perante a vida, da sua experiência organísmica, com o predomínio de forças reativas.

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Assim, a psicologia pode proporcionar ao individuo um resgate da sua vontade de potência ativa, o que abre possibilidades de enfrentar suas dificuldades no mundo, na existência podendo se construir a partir de um tornar-se o que é, saindo da inércia e deixando de frequentemente se colocar como vitima do acaso ou da vontade divina.

É a afirmação do que se é vivido que irá gerar mudança, não o que está estagnado e sem vida. A criatividade no devir potencializa a vida projeta esse indivíduo no aqui e agora. Dessa forma, como criador de seus valores, cada um de nós é, de certa forma, um artista, e pode se dar conta de que a finitude e o sofrimento irão se passar na vida, pois a vida também tem cenas trágicas, mas com grandeza e sem mesquinharias irá se alegrar criando condições para assumir sua liberdade de ser quem se é.

[imagens Google] *As referências bibliográficas são citadas no texto.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas. .
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