das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

o amor na linguagem dos filósofos

Ovídio, Platão, Sêneca, dos mais antigos filósofos pensadores até os mais modernos e mais próximos do nosso tempo como Nietzsche, Balzac, Kant, Oscar Wilde, entre outros, há certa complexidade sobre o assunto. Juntar todos eles não é tarefa fácil ainda mais quando o assunto envolve o amor. A pergunta: O que faz sucumbir ao amor? Quais os benefícios? Como amar sem sofrer? A resposta é outra pergunta: Haverá uma resposta para essas perguntas? A intenção do texto é refletir sobre o amor na visão desses filósofos. Demócrito nos diz: "Não amar ninguém é, em minha opinião, não ser amado por ninguém".


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O que é o Amor?

Uma fonte de inspiração.

"A pintura do amor é o tema principal de todas as obras dramáticas, trágicas ou cômicas, românticas ou clássicas, nas Índias bem como na Europa; é também, de todos os temas, o mais fecundo para a poesia lírica e para a épica; sem falar das inumeráveis quantidades de romances que, há séculos, se produzem a cada ano em todos os países civilizados da Europa, tão regulares quanto os frutos das estações."

Schopenhauer da Metafísica do Amor.

A compreensão do outro.

“O que é amar senão compreender e regozijar-se com o fato de que um ser viva, aja e sinta de maneira diferente da nossa, até mesmo oposta? Para que o amor possa unir os contrários na alegria, não é preciso que os suprima e os anule.”

Nietzsche. Humano, Demasiado Humano.

Um desejo de posse.

"É difícil definir o amor. O que se pode dizer é que na alma é uma paixão de reinar, nos espíritos é uma simpatia, e no corpo não passa de uma vontade oculta e delicada de possuir o que se ama depois de muitos mistérios."

La Rochefoucauld, Máximas.

Uma fonte de prazer.

"Amar é ter o prazer de ver, tocar, sentir por todos os sentidos, e, além disso, o mais profundamente possível, um ser que se pode amar e que nos ama."

Stendhal, Do amor.

A graça do amor eleva o gênero humano.

"Queres ter uma ideia do amor, vê os pardais do teu jardim; vê os teus pombos; contempla o touro que se leva à tua vitela; olha esse orgulhoso cavalo que dois valetes teus conduzem à égua em paz que o espera, e que desvia a cauda para recebê-lo; vê como os seus olhos cintilam; ouve os seus relinchos; contempla os seus saltos, cambalhotas, orelhas eriçadas, boca que se abre com pequenas convulsões, narinas que se inflam, sopro inflamado que delas sai, crinas que se revolvem e flutuam, movimento imperioso com o qual o cavalo se lança para o objeto que a natureza lhe destinou; mas não tenhas inveja, e pensa nas vantagens da espécie humana: elas compensam com amor todas as que a natureza deu aos animais, força, beleza, ligeireza, rapidez. Há até mesmo animais que não sabem o que é o gozo. Os peixes escamados são privados dessa doçura: a fêmea lança no lodo milhões de ovos; o macho que os encontra passa sobre eles e fecunda-os com a sua semente, sem saber a que fêmea eles pertencem. A maior parte dos animais que copulam só têm prazer por um sentido; e, assim que esse apetite é satisfeito, tudo se extingue. Nenhum animal, com exceção de ti, conhece os entrelaçamentos; todo o teu corpo é sensível; os teus lábios, sobretudo, gozam de uma volúpia que nada cansa, e esse prazer só pertence à tua espécie; enfim, tu podes a qualquer tempo entregares-te ao amor, os animais têm o seu tempo específico. (...) Por isso, estás acima dos animais; mas, se gozas de tantos prazeres que eles ignoram, em compensação quantas tristezas os animais não fazem ideia!"

Voltaire, Dicionário Filosófico.

Nascimento do amor.

"Quando Afrodite nasceu, os deuses celebravam um banquete, de que participou Poros, filho de Métis. Findo o jantar, Pênia, querendo aproveitar a boa comida, apareceu para mendigar e se pôs perto da porta. Ocorre que Poros, ébrio de néctar, pois ainda não havia vinho, saiu para o jardim de Zeus, e, pesado pela embriaguez, adormeceu. Então, Pênia, impulsionada pela inteligência, teve a ideia de se aproveitar da ocasião para ter um filho de Poros: deitou-se perto dele e concebeu o Amor. Por isso, o Amor se tornou o companheiro e o servidor de Afrodite, porque foi engendrado no dia do nascimento da deusa, e porque é naturalmente amoroso e belo, assim como Afrodite."

Platão, O Banquete.

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Os benefícios do amor. Da felicidade e bem-estar.

A alma está cumulada.

"Nos transportes do amor, na conversa com a amada, nos favores que recebes dela, até nos mais extremos, vais mais em busca da felicidade do que à tentação de provar isso de que o teu coração agitado sente uma grande falta, um não-sei-quê de menos do que ele esperava, um desejo de algo, mesmo de muito mais. Os melhores momentos do amor são aqueles de uma tranquila e doce melancolia em que choras e não sabes por que, e te resignas quase na quietude a um infortúnio que desconheces. Nessa quietude, a tua alma está quase cumulada, e quase sente o gosto da felicidade. Assim como no amor, que é o estado da alma mais rico de prazeres e ilusões, a melhor parte, a via mais correta para o prazer e para uma sombra de felicidade é a dor."

Leopardi, Pensamentos diversos.

"Estar com pessoas que amamos, isso basta; sonhar, falar-lhes, não falar-lhes, pensar nelas, pensar nas coisas mais indiferentes, porém junto delas, tudo é igual."

La Bruyère, Caracteres.

O amor faz amar a vida.

"Amamos a vida não porque estamos acostumados a viver mas porque estamos acostumados a amar."

Nietzsche, Fragmento do verão-outono de 1882.

"Quando um homem quer tenda para os rapazes ou para as mulheres, encontra aquele mesmo que é a sua metade, é um prodígio como os transportes de ternura, confiança e amor os tomam. Eles não desejariam mais separar-se, nem por um só instante. E pensar que há pessoas que passam a vida toda juntas, sem poder dizer, diga-se de passagem, o que uma espera da outra; pois não parece que seja o prazer dos sentidos que lhes faça encontrar tanto encanto na companhia uma da outra. É evidente que a alma de ambas deseja outra coisa, que não pode dizer, mas que adivinha e deixa adivinhar."

Platão, "O Banquete".

O amor torna os homens melhores.

A Metamorfose do Homem Apaixonado. "A paixão desenvolve a sensibilidade; torna o rústico amável e dá coração ao poltrão. No ser mais miserável e mais abjeto, instilará a audácia e a força de desafiar o mundo, por pouco que ele seja encorajado pelo ser amado. Dando a outro, ele o dá mais a ele próprio. É um homem novo, com percepções novas, perspectivas novas e mais vivas, e uma solenidade religiosa no carácter e objetivos. "

Ralph Waldo Emerson, "O Amor"

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As regras do jogo amoroso. O que os homens e as mulheres visam no amor.

A satisfação do orgulho. "Os homens querem sempre ser o primeiro amor de uma mulher. É uma vaidade inábil. As mulheres tem um sentido mais seguro das coisas. O que elas amam é ser o último amor de um homem."

Oscar Wilde, aforismos.

A reputação do amor. "Há pessoas que nunca ficariam apaixonadas se nunca ouvissem falar no amor."

La Rochefoucauld, Máximas.

"Na vingança, como no amor, a mulher é mais bárbara do que o homem."

Nietzsche, Além do bem e do mal.

O amor é um combate.

"Com o ardor com que perseguem a vitória, os homens gostam sempre de compra-la; e as mulheres que creem não poder render-se tão prontamente em geral se arrependem de se terem deixado vencer cedo demais".

Crébillon Fils, Os desnorteios do coração e do espírito.

Usos e costumes dos europeus amorosos.

"O alemão e o inglês dão provas, em amor, de um estômago bastante bom e se ao gosto deles não falta delicadeza, é, sobretudo sadio e forte. Não há amantes mais escrupulosos do que os italianos mais fantasiosos do que os espanhóis, mais gulosos dos que os franceses."

Kant, Observações sobre o sentimento do belo e do sublime.

Não ofender o decoro.

"[Nos banquetes] pega os pratos com a ponta dos dedos (é muito a graça ao comer); não sujes o rosto todo com a mão mal limpada. Não comas em casa antes de vires jantar, mas [à mesa] para antes de estares saciado e fica um pouco àquem do teu apetite[...] É preciso ainda que a cabeça possa aguentar, que a inteligência e o comportamento não sejam afetados, que os olhos não vejam duplamente. Que espetáculo vergonhoso uma mulher estendida no chão, empanturrada de vinho! Ela merece que o primeiro a chega a possua. Tampouco pode ela, à mesa, entregar-se ao sono sem correr riscos: o sono, em geral, permite muitas coisas que ofendem o pudor."

Ovídio, A arte de amar.

"Não convém e choca ver um homem de certa qualidade, velho, descasado e desdentado, cheio de rugas, tocar viola e cantar no meio de um circulo de mulheres, ainda que o faça de passagem, e isso porque, geralmente, cantando, dizemos palavras amorosas, e porque, nos velhinhos, o amor é coisa ridícula, mesmo que pareça por vezes sentir prazer, entre outros milagres de que é capaz, em inflamar, apesar dos anos, os corações enregelados. [...] Não quero privar as pessoas velhas desse prazer, mas vou privar-te de rir dessa incoveniencia. Se os velhinhos querem tocar viola, que seja em segredo, es ó para exupulsar da alma as dura preoucupaçoes e os graves aborrecimentos de que a nossa vida está repleta."

Castiglione, O livro do cortesão.

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Pequenos ardis como estratégia amorosa.

Eleger o ser do próprio amor.

“Antes de tudo, preocupa-te em encontrar o ser do teu amor [...] Consagra os teus esforços, em seguida, em tocar na moça que te agradou, e, enfim, em fazer dura o teu amor. São esses os limites.”

Ovídio, A arte de amar.

Nada espero em retorno.

“Que homem experiente não misturaria os beijos às palavras de amor? Mesmo que ela não se lhes renda, faze-o sem que ela se lhes renda. Primeiro talvez ela resista e te chames de “insolente”; mesmo resistindo, ela desejará ser vencida. Mas não vás magoá-la com beijos desastrados sobre os seus lábios delicados, e muito cuidado para que ela não possa queixar-se da tua rudeza.”

Ovídio, A arte de amar.

O que faz sucumbir o amor.

O encanto do que vem de longe.

“Se me possível apaixonar, isso poderia produzir-se mais com uma estrangeira do que com uma italiana. Esse –não- sei- que de novo ou de desconhecido que há nos modos, na maneira de pensar, nas inclinações, nos gostos, na maneira de pensar, nas inclinações, nos gostos, no comportamento exterior, na língua de uma estrangeira é muito apropriado para fazer nascer ou manter num amante essa imaginação de mistério, essa convicção de ver e conhecer na pessoa amada muito menos do que ela esconde em si mesma, do que ela é, essa ideia de profundeza, de espirito escondido e secreto que é o primeiro e necessário fundamento do amor que é mais do que uma simples sensualidade.”

Leopardi, Pensamentos diversos.

O olhar é uma arma. “O olhar é a grande arma da coquetaria virtuosa. Pode-se dizer tudo com um olhar, e , entretanto, pode-se sempre negar um olhar, pois ele não pode ser repetido textualmente.”

Stendhal, Do amor.

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O sexo.

“É preciso amar os prazeres. É preciso saber gozar de tudo o que é permitido sem escrúpulos, e privar-se sem dor.”

Cristina da Suécia, Máximas.

O sexo, uma das formas de altruísmo.

“As sensações sexuais tem isto em comum com as sensações de piedade e adoração: graças a elas um ser humano faz o em a outro, sentindo prazer, não se encontram assim tão amiúde na natureza disposições tão benevolentes.”

Nietzsche, Aurora.

Os prazeres são os fermentos de uma vida feliz.

“É preciso cuidar para não fundamentar a vida numa base de apetites estreita demais, pois, ao abster-se das alegrias que situações, honras, corpos construídos, volúpias, comodidades, artes comportam, pode chegar um dia em que se percebe que em vez da sabedoria, é o desgosto de viver que a pessoa se deus por vizinho devido a essa renuncia.”

Nietzsche, Além do bem e do mal.

“A única maneira de se livrar da tentação é cair nela. Resiste e a tua alma adoece de tanto enlanguescer daquilo de que se proibiu.”

Oscar Wilde, Aforismos.

Méritos do orgasmo sincronizado.

“Quando encontrares o lugar onde a mulher gosta de ser acariciada, o pudor não deve impedir-lhe de acaricia-lo. Verás os olhos da tua amiga brilharem com um esplendor tremente, como acontece muitas vezes com os raios do sol refletidos por uma agua transparente. Em seguida, virão as queixas, virá um terno murmúrio e doces gemidos e as palavras que convem ao amor. Mas não vás, soltando mais véus do que a tua amiga, deixa-la para tráz, ou permiti-lhe de apressar-te no caminho. O objetivo deve ser alcançado ao mesmo tempo; é o ápice da volúpia, quando, ambos vencidos, mulher e homem permanecem deitados sem forças.”

Ovídio, A arte de amar.

Da ternura ao coito.

“Aquele que arde de desejo sexual sente pelo menos uma ternura momentânea para com o ser que ele embeleza ao mesmo tempo pela imaginação; ao passo que muitos outros começam pela ternura e pelo mérito da pessoa, e progridem dai para as outras paixões."

Hume, Tratado da natureza humana, dissertação sobre as paixões. A educação sexual.

"Voluptuosos de todas as idades e de todos os sexos é a vós apenas que ofereço esta obra: nutri-vos de seus princípios, eles beneficiam vossas paixões, e essas paixões, com as quais os frios e insípidos moralistas vos assustam, são apenas os meios que a natureza emprega para que o homem alcance as intenções que ela tem sobre ele; atentai apenas a essas paixões deliciosas; seu órgão é o único que vos deve conduzir à felicidade."

Sade, A filosofia da alcova.

"Pensai no casal mais belo, mais encantador, como ele se atrai e se repele, se deseja e foge um do outro com graça num belo jogo de amor. Chega o instante da volúpia, e toda a brincadeira, toda a alegria graciosa e doce de súbito desapareceram. Porquê? Porque a volúpia é bestial, e a bestialidade não ri. As forças da natureza agem por toda a parte seriamente. A volúpia dos sentidos é o oposto do entusiasmo que nos abre o mundo ideal. O entusiasmo e a volúpia são graves e não comportam a brincadeira."

Arthur Schopenhauer, Metafísica do Amor.

"O tormento do desejo não tem nada em si de tão terrível quando não o considerarmos como algo ruim. É como uma premente necessidade natural que provoca em nós profundas aflições espirituais."

Nietzsche, Fragmentos do final de 1880.

[imagens Google]


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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