das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

Spellbound by psicanálise de 1945

Uma introdução em legendas nesse filme vem nos dizer: "Este filme é sobre a psicanálise. O método usado pela ciência moderna para tratar problemas emocionais. O analista busca apenas induzir o paciente a falar de seus problemas mais escondidos para abrir as portas de sua mente. Quando os problemas que afligem os pacientes são descobertos e interpretados a doença e a confusão desaparecem e os demônios internos são exorcizados da alma".
Assim a trama do filme de Hitchcock "Quando fala o Coração" se apresentou em 1945.


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Spellbound de “confuso”, “desnorteado”, no Brasil sofreu a tradução de "Quando fala o Coração", é um filme que tem uma adaptação de "The house of Dr. Edwards", de Francis Beending's, Hilary St George Saunders e John Palmer, vale a pena assistir, além de ser um filme de 1945, um verdadeiro clássico de Hitchcock, é sem dúvida uma Obra de Arte do gênero e também é um dos primeiros filmes que aborda a psicanálise, naquela época estudar Freud estava em alta.

Assim quando começa o filme a frase de Shakespeare: "O erro não está nos astros, mas em nós mesmos", é de grande comoção na época, pois no século XX as pessoas estavam acostumadas a serem “deuses”, essa frase vai quebrar com isso e dizer que os dramas vivenciados são de origem interna, ou seja, somos responsáveis por eles.

O filme nasceu das experiências vivenciadas pelo produtor David O. Selznick com Psiquiatras, que sugeriu a Hitchcock a realização de um filme trazendo alguns conceitos da psicanálise.

Ingrid Bergman (Dra. Constance Peterson) e Gregory Pecky (Dr. Edwards), faz o par romântico da trama que envolve um romance entre uma analista e seu colega de profissão, que acaba tornando-se paciente. Os dois são tão perfeitos em seus papéis que o espectador se identifica com o casal e é de uma trilha sonora inesquecível, vencedora do Oscar em 1946 de Miklos Rozsa o mesmo que fez do filme Ben-Hur onde mescla romance e suspense.

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Esse filme talvez não seja um daqueles famosos filmes de Hitchcock que esperávamos como suspense, mas os incômodos de um homem em plena crise de amnésia ao se sentir culpado, pois acredita de fato que matou uma pessoa é algo que cria uma atmosfera de tensão e mistério acerca de uma dúvida.

O desenrolar do filme, passa na clínica, no local de trabalho que está substituindo a direção, no lugar do antigo diretor entra o Dr. Edward e surpreende a todos com tamanha jovialidade e estranhos comportamentos, assim a Dra. Constance logo percebe que há algo de estranho e descobre que ele não é o Dr. Edward, é na verdade uma pessoa que perdeu a memória e não sabe quem é e nem o que aconteceu com o Dr. Edward.

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Na tentativa de introduzir os temas da psicanálise, o filme se utiliza da interpretação dos “sonhos”, pois há uma investigação no filme para saber se há realmente assassinato, o papel do analista é de um detetive, onde faz uma varredura na mente humana, o sonho, será uma ferramenta utilizada para essa investigação, assim se reconstrói o passado para poder entender os passos seguintes do paciente.

Há várias sucessões de acontecimentos onde estes acontecem em um consultório de análise. Por exemplo, a histérica que despreza os homens, o ódio do paciente pelo seu analista, a própria analista que esquece de ser humana, a ideia do analista passa de viver no “mundo da lua” e claro os sonhos, onde há material recalcado para análise. E assim, como previsto no filme a psicanalise trava um duelo onde sempre vence. É aonde impera o amor entre os protagonistas. Sim, evidente que de tantos significantes e significados é um filme sobre a Psicanálise e o seu público alvo.

A cena mais curiosa e são as sequencias de sonhos idealizada e criada por Salvador Dalí, baseada no surrealismo. São paisagens oníricas, que causam estranheza e impressionam pela criatividade.

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"A arte deve antes de tudo e em primeiro lugar embelezar a vida, portanto, fazer com que nós próprios nos tornemos suportáveis e, se possível, agradáveis uns aos outros: com essa tarefa em vista, ela modera e nos refreia, cria formas de trato, vincula os não educados a leis de conveniência, de limpeza, de cortesia, de falar e calar a tempo-certo. Em seguida a arte deve esconder ou reintepretar tudo o que é feio, aquele lado penoso, apavorante, repugnante que, a despeito de todo esforço, irrompe sempre de novo, de acordo com a condição da natureza humana: deve proceder desse modo especialmente em vista das paixões e das dores e angústias da alma e, no inevitável ou insuperavelmente feio, fazer transparecer o significativo" - (citado por Rosa Maria Dias em: Arte e vida no pensamento de Nietzsche. In: Nietzsche e Deleuze: intensidade e paixão. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000).

(Imagens Google)


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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