das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

13 reasons why e alguns temas

Fica a dica de Sartre: “O que você fez daquilo que te fizeram?”
Ou de Jung: “Eu não sou o que me aconteceu. Eu sou o que escolho me tornar.”


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Terminei alguns dias atrás de assistir a série produzida pela netfix “13 Reasons Why”, ou “Por Treze Razões”, baseada no romance escrito por Jay Asher. Conta a história de Clay Jensen, estudante do ensino médio da Califórnia, que recebe em sua casa, uma caixa de sapatos contendo fitas cassetes gravadas pela sua colega Hannah Baker, a qual cometera suicídio. As recomendações de Hannah, inicialmente foram para que todos os seus colegas devessem escutá-las e com instruções de passá-las uma a uma a cada estudante apresentando as “13 razões” que explicam porque ela se matou e através da sua narrativa ela revela sua dor e sofrimento, sinais da depressão e angústia que conduzem o ato suicida. Essa série mexe conosco de uma forma abissal, por ela proporcionar um aprofundamento nos temas como morte, suicídio, pânico, dor, Bullying, na questão dos gêneros, preconceito, depressão. Angústia e estereótipos. Temas esses tão bem colocados e escondidos por nós na sociedade de forma ainda velada, porque lidar com eles é preciso tamanha coragem. Cada um de nós vai se identificar com cada tema exposto pela série. Cada um com a sua estrutura psíquica terá uma reação. Como é difícil lidar com o outro. É um dos maiores mal estar do nosso tempo. Já dizia Freud.

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O que os temas trouxeram é tudo que se passa na realidade, essa impossível de viver. O que fica claro para mim é quanto mais sabemos o nosso lugar no mundo mais nos diferenciamos daqueles que nos quer ver fraquejar. Lembro-me de Nietzsche quando ele diz no seu livro Aurora, que “Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.”

O lugar que ocupamos no mundo é essencial. Ocupar esse lugar e confiar na sua escolha é se constituir como sujeito. É estar no mundo sem ser mundano. Sem querer ser o outro. E sim nós mesmos. Não podemos querer ser igual a ninguém, mas respeitar os outros que são diferentes, isso é sinal de respeito, de dignidade e confiança em si mesmo e um valor de autenticidade. Saber quem eu sou é esperar que o Outro seja quem ele é. Isso é a maior liberdade que um ser humano pode almejar.

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E por falar em contemporaneidade é saber que frente às exigências do mundo que nos cerca, essas se voltam para nós mesmos e muitas vezes nos permanecemos fechados por não termos o contato autêntico conosco, com a nossa própria natureza e em consequência disso com o outro a nossa volta. Muitas vezes nos deixamos levar por um modelo de vida, de felicidade inautêntica e o qual não se encaixam aos nossos reais valores e por isso sofremos e nos fechamos. Quando você sabe quem é, pelo autoconhecimento sobre si mesmo, tudo pode ficar mais fácil de lidar.

E nessa trama de exigências da vida, podemos observar resultados e consequências de vários fenômenos psíquicos como temores, esperanças, depressão, ansiedades (que se desvelam, no psíquico, no emocional e no físico) deixando o sujeito perdido perante as suas responsabilidades. Esquecendo-se assim do cuidado com o outro e com ele mesmo, perdendo de vista a alteridade. Todos estão vivendo uma crise, onde os sintomas são dolorosos. Saber do nosso papel no mundo e o nosso lugar é precioso. É sua identidade. É o seu compromisso com o mundo. Nunca duvide disso. O mundo clama por isso.

O que a série talvez mostra no final que os iguais chegam juntos, criam a tribo deles, mas para isso eles precisaram se diferenciar e se transformar para se tornar quem são e antes disso é preciso auto conhecer. Assim como o clube dos cinco nos apontava naquela época nos anos 80.

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É preciso transformar e resignificar relações. Quem não souber disso hoje em dia ficará a mercê. Se escondendo. Tentando se encaixar. Igual a Hannah e não vai aguentar o tranco. Muitos adolescentes passam por diversas metamorfoses na puberdade. Tem aquelas aberrações sexuais. E as mudanças no corpo. Tudo esta nessa série. A sexualidade na infância é perversa. Dai já podemos nos situar em muita coisa na vida principalmente quando estamos passando por essas metamorfoses. A reedição do Édipo perante a castração na adolescência é perturbador. É a idade dos desejos a flor da pele. Até hoje tratamos a criança no adulto, porque tais questões ainda não foram bem elaboradas.

O questionamento que fica para o final da série: Você esta pronto para ser quem você é? E se diferenciar do seu meio arcando com a responsabilidade pelos seus atos sendo uma pessoa autêntica?

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É preciso se diferenciar do rebanho, ser autêntico, ser quem é e persistir no desejo é realizar a sua potência como criador. Criador porque nessa transformação você irá criar novos olhares, a Hannah fez isso, mas escolheu a transformação da morte. E não da vida. Podemos escolher. Você vai viver ou morrer? Viver é um esforço diário de criar e transformar. Morrer é destruir tudo e a todos ao seu redor e transformar também. Como você prefere viver a vida. A vida tem essas duas dimensões. Viver morto, zumbi, ou querer estar vivo, sentindo, criando. A Hannah ela escolheu uma. Qual é a sua escolha?


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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