das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

ARRIVAL - A CHEGADA DA TRANSCEDÊNCIA

A transcendência é ultra passamento de um limite. A existência é finitude, porque a vida é pouca, é limite. É um constitutivo da vida. O homem tem sede de infinito e quer transgredir. Assim aconteceu na historia de Adão e Eva, ao comer a maça. Um simbolismo dessa transgressão foi comer do fruto do conhecimento. Caímos em pecado e até hoje nos sentimos culpados. Essa culpa é inconsciente. Fomos castrados, em prol da civilização para nos lembrar de que não podemos tudo. Hoje vivemos em uma era que tudo está vindo à tona, exemplo: “O presidente deve tomar uma decisão de transcendência para o futuro do país”. A um nível filosófico, a transcendência está relacionada com aquilo que está mais além do mundo natural. O transcendente está associado ao imortal e ao essencial. Transcender é sobressair, alcançar de uma maneira ou de outra algo que está fora dos limites que impõe o corpo.


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Outro grandioso filme do diretor Denis Villeneuve. Traz a atriz talentosa Amy Adams com a personagem Louise, filóloga atravessada por suas questões conflituosas. Ela no filme tenta descobrir junto à tripulação alienígena (o outro ser) que embarca em vários países, a sua linguagem para saber o que eles vieram fazer na terra. Louise faz de tudo para tentar decifrar a linguagem desse outro que não é ela e assim evitar o caos mundial e o seu caos interno. Porque talvez como diz Saramago: “O caos é uma ordem por decifrar.... “

Como sabemos é de costume do diretor desse filme, narrar histórias que provocam reflexões no espectador nada é como o previsto, ele consegue ir mais além do habitual. Confesso, eu gosto de como ele dá vida aos seus personagens percebo muito do que ele parece ser em cada um deles e isso é fantástico.

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Nesse filme, diferente dos outros filmes, com personagens conflitosos, em suas dualidades e não pluralidades chegamos à transcendência. Veja bem, não há religião nisso. Trata-se da dimensão humana, onde todos nós teremos que lidar, de uma forma ou de outra por esse momento um dia na vida. Digo desse "ir mais além" de nós mesmos ao superar conflitos internos, dessa forma de sermos o passado, o presente e o futuro, coexistindo no ser humano. Essa forma de ser é o ser no mundo, tendo uma relação com as coisas do mundo, e aqui podemos fazer uma analogia com o filme na experiencia de Louise como os alienígenas (o outro), pois é na sua forma de escutar esses seres e "obedecer", aqui se trata de escuta empática, assim como faz os iogues transcendentais em sua experiencia de meditação, que se colocam a escuta da divindade e na sua obediência, na sua entrega, advinham o futuro. Como seguisse um só caminho, o do corpo, da visão, o de quem tem olhos para ver sua historia toda passada de dor e revolta contra a finitude. E isso é entrar no sentido do acontecimento. Que é a entrega, a obediência. Nesse caso aqui não há romantismo. Há transcendência. A maior função da existência humana no planeta terra, ou seja, o salto da fé, como diz Kierkegaard. Porque a vida na terra é constitutiva de limite. E nesse planeta precisamos irromper com as amarras que nos prende a finitude, para isso acontecer é preciso essa entrega, esse salto para ir mais além de nós mesmos. Isso é irrupção. É ir além do habitual.

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Assim como fizeram os alienígenas deram um salto no planeta Terra, um lugar desconhecido por eles, saíram do que é imposto pela finitude. Ultrapassando barreiras, limites e ao irromper do convencional deram um salto na existencia. Dessa forma o filme mostra que todos nós habitantes desse planeta, ou não, podemos ser unos. Quer dizer íntegros. É o sem sentido que faz total sentido. Só assim superamos a dor.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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