das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

A fita branca e a reprodução da má consciência na humanidade

Sem crueldade não há festa: é o que ensina a mais antiga e mais longa história do homem – e no castigo também há muito de festivo!” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 6
Esse animal que querem ‘amansar’, que se fere nas barras da própria jaula, este ser carente, consumido pela nostalgia do ermo, que a si mesmo teve de converter em aventura, câmara de tortura, insegura e perigosa mata” – Nietzsche, Genealogia da Moral, segunda dissertação, § 16 (notas do autor)


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Esse filme foi escrito e dirigido por Michael Haneke. Premiado com Palma de Ouro em Cannes. Pode ser que algumas pessoas não goste. Ele exprime uma narrativa que envolve muitos fatores morais e psicológicos. Um filme denso, pesado, em preto e branco cheio de metáforas e simbolismos que desperta no espectador muita emoção e reflexão a respeito do holocausto e o “antes” da era Hitler.

De tanta repressão sofrida há um distanciamento entre as pessoas e ainda muita frieza. Por essa repressão algumas hipóteses são levantadas a respeito da omissão da população em frente a tanta tragédia enfrentada naquele período.

O filme é o tempo todo narrado pelo professor onde ele menciona passo a passo os acontecimentos estranhos quando um médico do vilarejo sofre um acidente grave, seu cavalo fica entre os arames, dias depois a esposa de um dos agricultores morre, e tantos outros. E assim passam-se dias, todo dia com uma tragédia envolvendo aquelas pessoas e o vilarejo. Essa é uma forma de controle, das mais manipulativas práticas, pois essas pessoas ficam reféns de novas tragédias, não conseguem nem pensar mais no que seria o certo e o errado, pois o criminoso pode ser qualquer um deles e também por ser próximo.

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Assim é todo o percurso deste filme. Um povo se torna sem nenhuma esperança, em total niilismo existencial, assim nasce à figura de Hitler. Se formos pensar, em algumas histórias, essa situação vem se repetindo até os dias atuais. A problemática, talvez esteja na sociedade, pois assistem tudo de forma passiva ao aceitar as regras, ao se colocar como massa de manobra e assim a má consciência toma conta da humanidade de cada pessoa. A raça ariana nasceu assim por esses relatos sociais e para formar uma base ideológica e motivar o nazismo.

Todas as crianças do vilarejo nesse filme eram a semente do amanhã, do futuro. Essas crianças quando adultas colocariam no poder o próprio Hitler. Tudo isso para a formação de má consciência nos indivíduos é uma das piores formas de manipulativas de produção de rebanho.

O símbolo mais importante do filme é a fita branca, como forma de lembrar os pecados que cometeram e o comportamento que devem seguir um simbolismo de vergonha, pois todas as crianças ficam muito constrangidas ao usar a fita, assim como o símbolo de David que os judeus usaram obrigados em várias cidades. Ou seja, aquele vilarejo na verdade é o desenho da nossa sociedade. Patriarcal, arcaica dentro dos lares, movendo os passos dentro da família com uma rigidez e moralidade com rigorosos princípios religiosos. E as crianças as principais vitimas da total repressão e violência dos pais.

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A repressão nasce assim, da prática religiosa e nas diferenças sociais entre classes. A má consciência é a subjetividade reativa. Ela surge da repressão a que foram submetidos todos os instintos, não deixa de ser a doença da subjetividade, pelos castigos sofridos e na invenção social de por regras, a derrota dos instintos e a invenção da razão, assim uma vez que os instintos são interiorizados, voltados para dentro, pois são impedidos por castigos e repressão, o homem se ressente. E o instrumento usado para isso é a dor, é o castigo, é a arma que a sociedade tem para enfraquecer o ser humano. O homem ressentido por esse instinto que quer sair, se volta para o externo, movido por vingança, ele quer matar, quer destruir tudo no mundo, uma explosão, assim surgiu o holocausto.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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