das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

ANIMAIS NOTURNOS NA DIMENSÃO ESTÉTICA

Kierkegaard e a existência possível. A relação entre a existência e a possibilidade estes dois conceitos ocupam na filosofia de Kierkegaard papéis primordiais. Da existência enquanto possibilidade de ser como existente possível, o homem não apenas se apodera de sua condição de vivente, quanto projeta e decide os modos com que se articulará com os sentidos que lhe seriam próprios e autênticos, por não possuir determinações essenciais (como subjetividade ou realidade), o espírito humano seria uma contínua síntese entre o universal e o particular, entre infinito e finito, entre o eterno e o temporal, entre o possível e o realizado. (Notas do autor)


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Esse filme realizado pelo cineasta Tom Ford, trata-se de uma narrativa complexa. Aqui é bom lembrar que Tom Ford é estilista, e envolvido por tudo que passa nesse cenário, mundo onde a estética reina. Posso dizer a principio, que essa dimensão da estética é um modo de ser do homem se colocar no mundo, ou seja, é o mundo do prazer, das subjetividades dos corpos. É uma das dimensões que pode ser entendida, como etapa da existência de todo ser humano. E é incrível perceber isso, pois no inicio do filme, o autor já nos aponta o corpo para nós espectadores contemplarmos cenas de formas criativas, cobertos de objetos, joias, o corpo fala e pede. O que o corpo quer? Chamar a atenção, seduzir. A beleza desses corpos estimula a sensibilidade e provoca em nós um estado afetivo paradoxal, porque somos ao mesmo tempo tocados pela dor e atraídos pela beleza. A este tipo de experiência chamamos experiência estética, um estado afetivo de agrado e de prazer suscitado pela apropriação subjetiva de um objeto, seja a contemplação da natureza, seja a criação de uma obra de arte. Essa dimensão diferente das outras, a ética ou a religiosa, tem algumas características, como a belo, o feio, a autoimagem, a imagem, a imagem da felicidade ligada à da salvação. A imagem do passado, que traz o mistério, que o impede à redenção. É a dimensão dos objetos, dos artifícios. Da inveja, da hipocrisia, da superfície, da pele, de olhar e ser visto, do bizarro, do exibicionismo. Do que está no externo e não no que toca o coração.

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A partir disso, a história de Susan é contatada. Ela começa a ler o livro do seu ex-marido Edward que conta a história do personagem Tony Hastings e que se titula “Animais Noturnos” e esse livro foi um presente, pois foi em sua homenagem, talvez pela maneira abrupta que ela o deixou. é bom acostumar com o tom de Tom Ford, ele não suaviza nenhum instante no cinismo sobre a natureza humana e o seu lado obscuro. Animais noturnos quer dizer isso, o ser humano na sua forma mais cruel e pervertida.

Ao longo da narrativa, várias cenas são atravessadas pelas histórias da vida dos dois. Susan escolheu estar casado com um homem rico, indiferente e frio, um casamento só de aparência onde escolheu mudar toda a trajetória da sua vida, influenciada por uma mãe onipotente. E ele, Edward abalado pela escolha de Susan também muda sua vida ao se casar com outra pessoa. Esses dois personagens conta duas formas de vida diferentes, mas uma não é pior do que a outra, pois são duas historias trágicas. Experiências da dimensão estética, do mundo das aparências.

O livro narra o lado mais sombrio do ser humano. Um lado que talvez Susan nem soubesse que existia, ao mesmo tempo o livro conta a história do filme, com isso notamos vários sentidos, metáforas e transformações. Esses intercâmbios que o filme faz, com várias histórias diferentes, talvez nos mostre o mundo mais perverso que nos atinge. Como uma pessoa pode se tornar outra que não quer ser, mas é também. É como se toda perversão fizesse sombra para a neurose. Como toda neurose fizesse sombra à perversão, pois há de saber somos todos neuróticos.

hqdefault.jpg Esse filme talvez seja todo ele uma metáfora, o cartaz já diz muito a respeito do filme, é como se fossem espelhos refletidos das duas historias. Qual é a mensagem que o espelho quer passar? O espelho reflete duas faces, boa e a má. Quando criança, refletimos a imagem no espelho e nos vemos como nossos pais, pelos seus desejos narcísicos, como a mãe de Susan declara que toda filha é sim parecida com a sua mãe, mesmo ela querendo ou não.

O visual no espelho é um elo com o narcisismo, a exemplo disso temos o exibicionismo. E por detrás do espelho podemos observar o outro que habita o nosso corpo, nós mesmos. Essas variações se aplicam também a outros cenários. O espelho é imagem. Tudo que o filme passa é imagem e ambivalência, ou seja, o saber da verdade, da realidade, ou da ilusão e do engano, ao ver-se tal como é ou retocar a autoimagem, ao adotar poses, posturas com o objetivo de se maquiar, ficar belo, ou sofrer, sentir dor. O espelho é a metáfora onde encenamos a maioria dos conflitos entre o eu e o não eu e suas representações, a realidade e a fantasia. O natural e o estranho. Assim como a dimensão estética é, cheio de enganos, vinganças, tragédias, angústia, beleza, corpos, desejos, sexo, cabe ao ser humano escolher em qual dimensão há um possível de viver, já que se trata de dimensões excludentes entre si e atravessadas entre elas. Essa relação com o mundo através dessas dimensões é denominada angústia, um sentimento profundo diante da instabilidade de viver em um mundo de possibilidades, sem garantias de que nossas expectativas sejam realizadas, pois vivemos em um mundo onde são possíveis a dor e o prazer. O bem e o mal. O amor e o ódio. Assim é o desfecho do filme.

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Seus personagens são interpretados por Amy Adams, Jake Gyllenhaal. Um grande filme, infelizmente não foi indicado ao Oscar. O ator coadjuvante Michael Shannon foi indicado. Os prêmios até o momento são do Festival de Veneza: Prêmio Especial do Júri, Prêmio Globo de Ouro: Melhor Ator Coadjuvante em Cinema.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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