das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

Dracula de Bram Stoker's. O amor nunca morre.

A atmosfera sedutora, melancólica e ao mesmo tempo perversa dessa trama de Francis Ford Coppola traz os atores Gary Oldman, Winona Ryder, Keanu Reeves, Anthony Hopkins e Sadie Frost. O filme nos conta a trágica história do amor impossível de Mina e conde Drácula. O amor quando é impossível talvez seja o maior de todos.


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A história se passa em uma sociedade burguesa da época, onde a calmaria aponta a superficialidade do local onde os personagens habitam reprimindo os temores e medos, a noite, a lua, a morte. Nesse cenário arcaico, Drácula aparece para quebrar com esse embotamento, como se eles fossem os verdadeiros mortos vivos. Vivem no automático. Como se a existência fosse, somente, casar, ter filhos e morrer, com isso abafando o imaginário inglês povoado e rico de estórias fantásticas, com monstros e muita magia. O Drácula vem para refletir a insegurança do homem com sua própria natureza, pois revela o animal nele bem diferente dos valores morais daquela época. Só a transgressão poderia fazer com que o homem explorasse os seus limites.

Drácula já tinha transgredido e ultrapassado todos até a sua própria fé em Deus e com isso se tornou um “semideus” com vários poderes até mesmo a imortalidade.

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Drácula traz no romance uma mensagem que o mal está no externo, no que acontece no real. Transgride quando vai em busca do amor em Londres pelos seus atos de maldade, mas a verdade que Drácula é Vlad um herói injustiçado. A ordem à qual o conde pertence jurou defender a Cruz, em referência às Cruzadas cristãs, o que já coloca o futuro vampiro “ao lado do bem”.

Com a invasão dos turcos, Drácula lidera um exército para combater os inimigos da cristandade, deixando a esposa Elisabeta em segurança em seu castelo. Depois da batalha, o conde sai vitorioso e retorna ao lar, ansioso por encontrá-la, mas ela está morta.

Numa vingança dos turcos por causa da derrota, eles fazem chegar às mãos de Elisabeta uma carta informando falsamente que Drácula havia morrido. Tomada pela dor, ela salta da torre do castelo para o rio. Só que o Cristianismo defende a crença da santidade pela vida e faz com que o suicídio seja considerado um crime, uma afronta a Deus. Assim, a alma de Elisabeta foi condenada e não pôde ser recebida no Paraíso. Saltando para a morte, Elisabeta afastou-se da presença de Deus, como se fosse um “anjo caído”. Ao saber do castigo de Elisabeta, Drácula revolta-se contra sua fé. O nobre jura vingar a morte da amada através dos séculos, retirando sua força do sangue. Ele enche uma taça com este sangue e diz “O sangue é a vida e ele será meu”. Ao beber a taça, tem início a sua própria maldição.

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Antes mesmo de ser um filme de terror, Drácula de Bram Stoker é um romance, onde amor, desejo, medo e repulsa se confundem e se misturam. Tudo que Drácula faz é por conta da busca desesperada e da tentativa de reencontrar Elisabeta em sua reencarnação, Mina Murray. O vampiro não só tem sentimentos, como age por amor. Dotado de sentimentos, o conde é humanizado e ora Drácula aparece como herói romântico, ora como vilão. Humano demasiadamente humano. O homem da Era Vitoriana buscava explicações racionais para os acontecimentos e também para a intervenção do sobrenatural no cotidiano.

Os personagens do romance levavam suas vidas normalmente, até a interferência brusca do sobrenatural, que liberta os “duplos” de cada um, ou seja, os assuntos morais rigorosos, são tementes a Deus, parecem incapazes de cometer algum erro. E, caso tenham se rendido a algum instinto considerado negativo, este seria uma interferência do mal externo, isentando-os de culpa.

Por exemplo, como a aparência de Mina que muda nesses diferentes momentos. A Mina pura e recatada usa vestidos comportados em tons pastéis, ou outros mais austeros, os cabelos sempre presos em um coque apertado. Já a jovem que, depois de beber uma dose de absinto, drinque alucinógeno muito consumido pela boemia do final do século XIX, se funde com Elisabeta depois de ter uma espécie de visão da vida passada, usa vestidos decotados, de cores berrantes, como o vermelho, e deixa os cabelos soltos. É como se Mina tivesse despertado uma pulsão sedutora, medieval e selvagem que até então desconhecia. Em várias cenas do filme percebe-se que Mina está claramente dividida, entre o amor do noivo Jonathan Harker e de Drácula.

Na cena mais incrível a meu ver é quando Drácula alimenta-se do sangue de Mina. E revela toda a verdade para ela que se revolta contra ele, mas não consegue rejeita-lo, porque já o ama. Mina se entrega de livre e espontânea vontade e o momento em que ela bebe o sangue de Drácula é onde assume o tom de uma metáfora para o ato sexual, quando o vampiro atinge um êxtase semelhante a um orgasmo e Mina passa de menina para a mulher amada. Assim se dá a transgressão de Mina. Para atingir o gozo alguma transgressão é necessária.

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O final é outra cena marcante quando Drácula encontra a redenção. A cruz ferida 400 anos antes se reconstitui diante de Mina. As velas se acendem e o conde volta à forma humana. “Dê-me paz”, ele diz à sua esposa.

Outra coisa que chama atenção são as várias cenas na cor vermelha que se destacam e aparece conforme as reações dos personagens, representando o sangue e a paixão, elementos diretamente relacionados na história.

Além de serem contagiados por aquela atmosfera, tornando-se parte daquele mundo, os personagens passam ser agentes transformadores, interferindo nos planos do vampiro.

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Embora ele consiga reencontrar Elisabeta em Mina Murray, ele não consegue passar a eternidade com ela. Vale ressaltar mais uma vez que, no filme, Drácula não é a representação do mal. O vampiro é um herói romântico, vítima das circunstâncias, que pratica um mal justificado em busca do amor perdido. Depois de ser atacado por Harker, ele recebe o golpe de misericórdia da própria Mina, que através da morte, trouxe uma redenção inesperada para o vampiro. Neste aspecto pode-se observar que a mulher, enquanto agente transformador na história possui o poder de vida e morte sobre o homem.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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