das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

Krisha e a construção da singularidade.

Como diz Charles Taylor em sua tese sobre a política de reconhecimento: “A tese consiste no fato de a nossa identidade ser formada, em parte, pela existência ou inexistência de reconhecimento e, muitas vezes, pelo reconhecimento incorreto dos outros.” Ele argumenta que essa inexistência de reconhecimento ou o reconhecimento incorreto por parte da sociedade e de outros membros da comunidade em que o indivíduo está inserido constituem uma forma de agressão, afetando negativamente sua identidade, “reduzindo a pessoa a uma maneira de ser falsa, distorcida, que a restringe." Assim Krisha tenta se reinventar, mas para isso é preciso passar pela demanda do Outro, pelo desejo (o que queres?) e se constituir como sujeito. Hoje em dia a singularidade é disfarçada, ignorada e assimilada a uma identidade dominante ou família, grupos. O tempo urge para a formação dessa singularidade, onde desejamos que o Outro nos autorize para sermos quem somos. Muitas vezes nesse percurso fracassamos e diante disso não há autenticidade.


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Um filme de Trey Edward Shults com Olivia Grace Applegate, Krisha Fairchild.

Krisha retrata a experiência de um retorno ao passado e a sua história familiar, para resgatar sua autonomia e identidade, em pleno feriado de ação de graças e reconquistar o amor do seu filho deixado aos cuidados da irmã, devido a sérios problemas com o álcool e drogas.

Krisha é a ovelha negra dessa família que retorna ao lar. Um filme sobre a constituição do sujeito. Alienação, identidade e a dinâmica do desejo.

*cuidado contém spoiler*

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Krisha ao chegar ao seio familiar conversa superficialmente com todos e vai até o quarto reservado para deixar sua "bagagem" e encontra um dos cachorros da família e dá as boas vindas, dizendo que só vai ficar por uns dias. Nesse momento passa para ao espectador a sensação de sufocamento.

Ela vai até ao banheiro organiza seus pertences e suas ideias, com um ar de desmoronamento e ao lidar com esse sentimento, o suporte são os remédios tamponando a falta, guardião do não dito.

Feito isso deseja realizar uma aproximação com o filho e se depara com a realidade de saber que ele realizará o desejo do Outro, ao se formar em administração e não como cineasta, profissão do seu desejo. Ao tentar destituir o filho do desejo do Outro, ela o coloca na posição de objeto, assim como faz a família. Ela agora é o Outro. Essa é a dinâmica do sujeito e objeto se passa entre o sujeito e o Outro que está o objeto, na concepção do desejo.

Só aí a história já dá um bom rolo.

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Krisha tenta nessa aproximação com o filho, interditar o gozo do Outro, para ele se constituir como sujeito de desejo, mas é desacreditada por ele pelo seu histórico de vida e da sua reputação como mãe, o papel que não desempenhou. Ele, o filho, muda a lógica: “Ela deveria estar comigo.” Perde o filho para a família de que um dia também fez parte, mas perante a escolha teve que excluí-los e foi ao encontro do possível de viver e arcou com suas consequências, meio cambaleante, meio torpe por causa das drogas, mas estava dentro do processo de constituição de sujeito desejante. Esse desejo que é o desejo de um Outro, nos aliena como sujeito, porque é fácil fazer o que o outro quer e deseja e quanto a nós sujeitos também desejantes? Paramos de desejar e ficamos a mercê e reféns diante desse Outro?

Quando nos deparamos com esses questionamentos, muitas vezes é tarde demais.

De volta ao passado, ao tentar lidar com o filho e diante da dor, começa a beber e com isso reduzindo o efeito da medicação, do suporte, da bengala imaginária que a sustentava em suas estratégias para esconder de todos e dela mesma a falta acontece o pior.

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Ao tentar retornar a sala onde está a família e se acalmar, chega até à cozinha, onde a família a deixou excluída e onde aceitou o papel para preparar o Peru de ação de graças como se fosse entrar num trabalho de parto, de tão grande a iguaria, pesando10 quilos levando um tempo enorme para ficar pronto, como se estivesse numa sala de parto esperando o filho nascer, mas ao retirar do forno/ útero e o colocar na mesa, perdida em si mesma, o deixa deslizar. Aqui podemos supor que o peru simboliza o falo, ou seja, o filho objeto de gozo de toda mulher. O desejo da completude, do não sentimento de falta. Ao deixa cair, se despedaça, igual ao Peru/ falo/filho. Perdendo de si mesma o filho/falo. Ao deparar com a falta, do sentir “não toda” se vê diante do filho/peru e de frente para o que deixou escapar. O retorno do que foi recalcado.

A escolha de Krisha é vencer ela mesma, ao excluir e deixar de lado a família se excluiu. Ao provar o quanto é capaz e desejante, se vê alienada a família e sem o suporte do “suposto namorado” substituição a falta do filho, a quem desejava amar e ser amada se vê diante daquilo que tanto tentou apagar com uso de medicações. Desse jeito a sua insatisfação gera circunstancias desencadeantes apontando para o desequilíbrio ao se deparar com o real da sua situação.

Louco é o desejo. Quem ocupa o lugar de desejante, sempre acha que está fora de contexto, onde por tanto tempo acreditou estar dentro do que foi criado pelo o Outro para ficar.

O sujeito se constitui a partir do desejo, das suas escolhas e o preço a pagar é pertencer a si mesmo é o maior preço para formar uma identidade. Separar do rebanho. E hoje o tempo urge para a formação dessa identidade, onde desejamos que o Outro nos autorize a sermos nós mesmos.

No caso de Krisha ao se excluir da família perfeita que a asfixiava não suportou e encontrou no vício, nas drogas a sua redenção e ao retornar e tentar lidar com Outro, foi aceita só porque se restabeleceu das drogas sem ao menos tentar conversar, então Krisha só piora ao tentar encaixar naquele lugar do ideal imaginário daquelas pessoas, que a tornou a vitima, a culpada, a diferente de todos. O mal de Krisha foi aceitar esse lugar e cumprir com maestria a tal tarefa que lhe deram.

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Uma vez ovelha negra. Sempre ovelha negra. Não há redenção. Desse lugar ela não deveria ter saído. Essa é a sua marca a sua identidade. O passado já se foi, só há o agora. O agora é constituinte e estruturante do desejo.

Curiosidades sobre o filme: Grande parte do elenco faz parte da família do diretor na vida real, inclusive a protagonista quer dá nome ao filme, interpretada por Krisha Fairchild (tia do diretor na vida real, que no filme faz a mãe do personagem que o diretor interpreta no filme).


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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