das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

o filme blade runner de 1982 no tempo.

Nietzsche, nos conta sobre a história dos dois próximos séculos, quando ele diz que o futuro pronuncia-se em cem sinais, o destino anuncia-se por toda parte, com a tortura de uma tensão, que cresce de década em década, como se estivesse encaminhando-se para uma catástrofe: inquieta, violenta, precipitada como uma correnteza que anseia por chegar ao fim e que não mais se lembra, tem medo de lembra-se. Blade Runner é isso e muito mais, nos traz mensagens sobre o passado e o futuro.


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Termino de assistir Blade Runner. Ligo o computador e tento escrever sobre as ideias acerca dessa obra prima. Nesse momento gostaria de poder prender o passado e ter uma daquelas vitrolas para tocar as músicas e me fazer levar por elas, mas lembro de um app e puxo a sua trilha sonora e as escuto e penso que passado e futuro, coexistem no presente e sinto a temporalidade do filme que é impressionante, pois continua extraordinário como tempos atrás. Blade Runner se faz tão presente e nos manda até hoje mensagens sobre o futuro. Acho que daqui algum tempo se for assisti-lo novamente irei ter esse mesmo sentimento de ser tão atual.. e consegue até hoje ir além do tempo. Ridley Scott foi visionário impulsionado pelo romancista Philip K. Dick ao dirigir a trama.

Nessa atmosfera me deixo guiar pelas belas musicas da sua narrativa melancólica, estupenda e encantadora em ambientes frios, escuros, sujos, um destaque a pura ausência de vida.

Não quero aqui me prender a sinopse do filme, pois acho que o mundo assistiu Blade Runner.

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Quero falar sobre sentimento. Sobre a humanidade dos Replicantes. Com olhos cheios de vida, pois reflete a luz que nos traz as mais variáveis possibilidades. Quatro deles fogem para a Terra, onde não podem habitar e são caçados até serem exterminados sem noção da sua existência de apenas 4 anos. Por isso que eles desembarcam na Terra em busca de informações que lhes possibilitem alterar essa temporalidade.

O homem os inventa a sua imagem e semelhança com mais inteligência e ao mesmo tempo os escraviza assim como os humanos que sobrevivem na terra. Eles são tão humanos e quase robôs. De tão perfeitos se rebelam contra os humanos, quem os criou. Essa perfeição destinada à imitação, e uma metáfora sobre Deus ao criar o ser humano e o próprio homem brincando de ser deus. O criador no filme é uma pessoa que transforma a sua impotência em uma eterna criação de seres mais perfeitos do que ele. Um paradoxo, uma ironia, um divertimento. Ele imortaliza-se na perfeição das obras finitas que projeta. Será Deus tão egoísta?

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O filme é de 1982, mas a trama se passa em Los Angeles, novembro de 2019. E hoje, 2017, já estamos quase lá. E nesse momento ao refletir sobre o filme, e evidente por ser da área da psicologia com pé na filosofia lembro-me do que disse Nietzsche, sobre a história dos dois próximos séculos, quando ele diz que o futuro pronuncia-se em cem sinais, o destino anuncia-se por toda parte, com a tortura de uma tensão, que cresce de década em década, como se estivesse encaminhando-se para uma catástrofe: inquieta, violenta, precipitada como uma correnteza que anseia por chegar ao fim e que não mais se lembra, tem medo de lembra-se.

E Freud quando diz: “… qualquer que seja a maneira em que definamos o conceito de civilização, o certo é que todas as coisas com as quais buscamos nos proteger das ameaças que emanam das fontes de sofrimento são parte dessa mesma civilização“, (Sigmund Freud, O Mal-Estar na Civilização).

E um destaque é para a cena mais incrível do filme quando Roy chega ao seu fim em sua perfeição salva a vida do exterminador e diz as palavras: "Eu vi coisas que vocês não acreditariam. Naves de ataque em chamas nas bordas de órion. Vi a luz do farol cintilar no escuro na Comporta de Tannhäuser. Todos estes momentos se perderão no tempo... como lágrimas, na chuva". Com a tristeza de saber que tem alguns minutos antes de apagar a luz levando a sua história, as memórias o passado. A sua luta pela vida que ele perseguia tanto desde o começo. Ele não poderia tirar a vida de outro ser que assim lutava como ele, pois a vida se tornou um valor inigualável. Agora. É tempo de morrer.

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Não somos robôs, não somos desumanizados, não somos embotados, zumbis, somos humanos por sermos complexos demais e demasiadamente humanos somos cheios de passado, onde podemos resgatar a nossa história, como referencia da nossa humanidade e com possibilidades de futuro. É quando Roy diz: "não somos computadores, somos seres vivos".

Em outubro chega Blade Runner 2049 com a versão do diretor Denis Villeneuve, o mesmo de homem duplicado, Enemy, incêndios, o último dele Arrival, a chegada. Após Trinta anos dos acontecimentos desse primeiro filme. Vale a pena assistir no cinema.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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