das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas.

The Silence – O silêncio. Um ato de fé?

Falou-se sempre de fé, mas agiu-se sempre apenas por instinto... Cristo é a forma de existência centrada no amor e na não-violência. O seu mundo interior dá um sentido à sua vida, é um remédio, uma consolação que, àquele que não suporta o carácter trágico e brutal da existência, indica um caminho diferente do da fuga à terra em direção ao Além. Na verdade, o último Cristão morreu na cruz. «Que significa a 'Boa Nova'? A vida eterna não é prometida, está aqui, está em vós: como vida no amor, no amor sem retraimento e exclusão, sem distância. Cada um é filho de Deus - Jesus nada absolutamente pretende para si apenas, como filho de Deus, cada um é igual a todos.»
[Nietzsche, O Anticristo, § 29.°]


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O que esperar de um filme de Martin Scorsese? Tudo, não é? Depois de grandes obras como Taxi Driver, o Touro Indomável, Bons Companheiros, os Infiltrados e tantos outros, lembrei também da Ilha do medo e Lobo de Wall Street com o talentoso DiCaprio. Acho que nesse drama, ele chegou ao ápice da carreira. Esse filme interpretado por brilhantes atores como: Liam Neeson, Andrew Garfield e Adam Driver, Scorsese garante a sua maestria de cineasta. Veja bem, longe da técnica, do marketing, uma boa história contada pode ser tudo. Pode haver maneiras de falar sobre um filme, mas o que interessa aqui é tentar traçar uma linha psicológica da narrativa do filme. Porque os filmes trazem grandes dramas humanos e ficam psicologicamente vivos durante um bom tempo nas nossas mentes. Para entender o filme é preciso também compreender a história de quem o criou, no caso a história do Scorsese. Ele cresceu em um bairro na parte sul de Manhattan. Não podia sair de casa. Preso por causa da asma, só assistia filmes, onde ficava protegido das ruas de Nova York, mas se sentia solitário e isolado, com isso se aproximou muito do catolicismo e frequentou seminários por um bom tempo. Talvez por esse motivo Scorsese tenha a religião atravessada, ou pode explicar também o longo tempo que passou para fazer esse filme não chegando a tempo de concorrer ao Oscar. Porém deixo de lado essa história de conjecturas para entrar na dimensão da arte.

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Nesse filme, alguns mencionam sobre a narrativa ser a perda da fé. Outros são curiosos para saber o motivo porque o Japão não aceita bem o cristianismo. Tantos outros assuntos podem ser discutidos, mas preferi abordar de outro jeito. Para isso, vamos à sinopse do filme. O filme é baseado na história do romance publicado em 1966, de Shusaku Endo. Narra uma viagem de dois padres portugueses até o Japão durante o século XVII para saber o motivo que levou o padre Ferreira a renunciar e resgatar a fé cristã. Essa época marca a prática do cristianismo no Japão, pois como os japoneses valorizavam o budismo, os que eram cristãos eram perseguidos pelas autoridades. Nessa jornada, os padres sofrem crises inimagináveis. Levam a acreditar que Deus não existe, pois onde estaria Ele diante de tanta tristeza e caos naquelas terras?

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A mensagem do filme é a reflexão sobre o bem e do mal. O mal e o bem estão misturados nesse filme. Em nome dos valores japoneses, fizeram tantas atrocidades e a boa vontade dos moralistas se quebra contra aquilo que chamam de má fé. A Má fé na linguagem sartreana, é algo como um ser que não-é-o-que- é. O que acontece é que todos os padres que foram para o Japão sofreram uma transformação e ficaram frente a frente com os valores espirituais bem diferentes dos valores criados pelo homem. Em nome da moral cristã mata-se. Talvez a melhor forma de encontrar Deus, é a mais simples, talvez o desejo de Deus seja a transformação o Homem. Como diria Nietzsche: “Na verdade, o único cristão morreu na cruz”, ou seja, há uma santidade do mal. O gosto pelo sagrado, o gosto pelo escândalo. A santidade humana, maquiada. É algo do dever amar aquilo que se repugna, assim na jornada, o homem se transforma em criar novos valores e a má fé faz com que o homem se torne aquilo que ele não é. Qualquer que seja a religião. Ou mesmo os ateus...

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Deus não está nisso. Ele está naquilo que faz o homem se tornar melhor. No final, sem saber aos olhos de Deus, o homem está fazendo o que mais lhe agrada. Um paradoxo. E o silencio sobre o espiritual é da grandeza do divino. E um verdadeiro ato de fé.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca e psicóloga, interessada em literatura, filosofia e outros ramos da arte e da cultura, criando uma malha de conexões entre esses meios. Apaixonada por Bob Dylan, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, cinema e seus três gatos boêmios. Lido com metáforas. .
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