das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas.

A forma da água é o conto que encanta

“A forma da água” é filme que transborda emoção. Conforme declarado por Guillermo Del Toro: “A água toma a forma do que quer que a esteja contendo, e embora possa ser tão suave, é também a força mais poderosa e maleável do universo. Isso também é amor, não é?! Não importa em que fôrma colocamos o amor, ele se molda a ela, seja homem, mulher ou criatura”.


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Guillermo del Toro, nos apresenta o cinema mágico.

As mensagens dos seus filmes são sempre feitas por contos impactantes cheias de metáforas, simbologias, fantasias, monstros. Podemos lembrar de alguns como o seu mais famoso O Labirinto de Fauno, a série da sua trilogia The Strain, A Colina Escarlate um conto sobre o feminino, A Espinha do Diabo, Mutação, etc.. De uma maneira direta ou indireta, ele escreve nas entrelinhas o que se passa com o mundo e a realidade que nos cerca. A fantasia é a sua janela para o Real.

Esse filme The Shape of Water, A forma da água, não deixa a desejar. Pela sua linguagem encantadora, que perpassa fantasia e realidade e traz sentimentos profundos, essa história nos faz ir de encontro com as diferenças e ainda denuncia, as diferentes faces do amor. Permitindo assim desconstruções. Trata-se de um poema porque fala da delicadeza, em contraste com a estupidez humana.

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O filme nos traz a realidade da civilização como vimos hoje em dia, um mundo horrível, cruel, misógino, preconceituoso, homofóbico, fundamentalista, cheio de Ideais perfeitos, formatados, concretos e nunca alcançáveis e que só desumaniza, onde os homens considerados decentes, numa família perfeita, são os mais cruéis e perversos, lembrei Lacan quando diz em um dos seus seminários: “o perverso é o moralista por excelência”. Enfim uma salada de monstros. E Del Toro ainda provoca o espectador ao questionar: quem são os monstros?

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E por outro lado, ou seja, uma outra forma para a humanidade com o possível de viver nessa civilização, com o pouco que se tem, e que mesmo privada e oprimida, essa humanidade tem a arte operando o seu maior milagre, pois se consegue respirar como as nadadeiras da “forma – o anfíbio” e nos salva como a música suave, com a nossa Carmem Miranda, com o cinema perto de casa, e com o nosso primeiro objeto de amor, seja ele qual for, pois como diz a grande ciência humana e o cientista do filme sabia muito bem disso, somos seres pulsionais, diferente da definição de instinto da biologia que determina uma forma pré concebida, assim como a agua a pulsão assume a forma do desejo, de tudo que nos é relevante para ser investido, porque corremos atrás da completude, daquilo que imaginamos que irá nos completar, mas que não completa jamais, só quando a morte chega.

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O filme é visualmente belo e essa atmosfera delicada, do amor que tudo cura, circunda a trajetória da heroína dessa história, assim como os amigos que ensina a forma do cuidado ela aproxima da forma, daquilo que a envolve e a transforma para livrar-se do silêncio mortífero da sua mudez e entrar na linguagem para salvar o que quer que seja. Seja lá o que for, porque fala sobre o amor sem pudor.

E nós espectadores podemos ainda contar com uma fantasia tão bem narrada por Del Toro como a música “you'll never know, just how much I miss you”, na tradução: “Você nunca saberá até o quanto sinto sua falta” numa das cenas mais emocionantes deste filme.

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Heráclito há séculos atrás nos ensina que tudo flui e nada permanece no mesmo lugar.. em um mundo concreto, formatado pela civilização, é preciso deixar fluir, assim como a água que não tem volume e assimila a forma que quer, sem água morremos. A água é pura, adaptável e essencial é toda forma de vida. E nesse filme a água não podia estar em melhor lugar para falar e espelhar diferentes emoções do humano, que podem ser refletidas na “criatura”, diante das diferentes conexões.


Maria Fernanda Carvalho

Carioca, psicóloga e psicanalista. Nas horas vagas curto muito cinema, livros e conversar com os meus três gatos boêmios. Alguns textos são meramente metáforas. .
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