das travessias limiar em profundidade

Psicologia, Filosofia e Arte.

MFernandaCarvalho

Carioca, psicóloga clínica e psicanalista, nas horas vagas, blade runner, curto muito cinema, arte, livros e os meus três gatos boêmios. Sou o meu maior desafio. Alguns textos, são meramente articulações inacabadas.

o filme Us e o mal estar do desgoverno

Como disse Freud, “O eu não é mais senhor em sua própria casa”. Com esse enunciado, o eu é outro e seus atos dão prova do inconsciente. O sujeito está sempre referenciado ao Outro. Existe uma dualidade de sentimentos nessa relação, que se estabelece, a partir do estádio do espelho. Vivemos em um mundo especular.


O novo filme de Jordan Peele, com requintes de Thriller psicológico, traça uma narrativa inquietante e vale a pena conferir. Gosto do seu talento inato para direção e produção, por não deixar se enquadrar, por isso talvez, ele abra possibilidades de interpretações inusitadas sobre seus filmes, então seguirei a psicanálise, por ser uma das áreas a qual faço uma construção de conhecimento.

A sinopse do filme conta a história de uma família negra, classe média que vai ao parque de diversões à beira-mar na Califórnia com a filha, chamada Adelaide e ela entra na sala de espelhos do parque, logo depois passa o tempo e Adelaide está casada, com seus filhos e seu marido, nas férias e retorna ao mesmo parque.

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Nós (Us) traz novamente a reflexão sobre a civilização no mundo e a mensagem no filme, é certeira. Ao analisar esse filme, pude verificar que trata-se de uma divisão, podemos pensar sobre os indivíduos biologicamente humanos, cheios de conflitos, mazelas, angústias que a partir das normas da civilização, transmitidas pela família, pelos os valores culturais impostos do meio em que vive, que podem ser herdados ou ditos antes mesmo do nascimento da criança, é imprescindível fazer um corte (a representação da tesoura), uma renúncia pulsional, daí o sujeito é barrado, ele não pode tudo e cada um de nós, vai precisar lidar como pode com isso e com o mundo a sua volta. Assim, dessa maneira, o sujeito se constitui, mas há o seu duplo. Porque são dois, lembram de Rimbaud? O Eu é um outro. E ainda Freud, quando diz que a neurose é o negativo da perversão. Ou mesmo podemos lembrar Jung, sobre o jogo de luz e sombra. Isso tudo é nosso, está em nós.

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Podemos pensar assim que o ódio também habita o humano, mas como estamos na civilização, e ao seguir suas normas, sejam elas morais e cívicas, como por exemplo: “não matarás”, não podemos sair matando todo mundo, mas sabemos bem no fundo que talvez essa seja a vontade de fato, pois o sentimento de ódio é desumano, mas ele está ali em nós mesmos. É fundamental mencionar isso, pois esses afetos afastam a convivência, são segregários e nenhum laço social é feito no processo civilizatório desse jeito e sem isso estamos condenados à barbárie e ao que há de mais primitivo na humanidade de cada um.

Como estamos todos inseridos na civilização e seguimos adiante, nos constituindo como sujeitos, dentro da lei civilizatória, somos inseridos nessa ordem simbólica, que antecede por sermos sujeitos divididos: biológico e psiquismo, consciente e inconsciente e somos atravessados pela linguagem que humaniza o sujeito promovendo o laço social. Sem linguagem, vivemos idiotizados, no biológico, como animais, sem liberdade, e por sermos permeados pelo simbólico, fica evidente a metáfora dos corpos primitivos e deficientes que mal conseguem articular uma frase no filme. Aqui podemos citar como exemplo: os discursos precários dos governantes e dos “Minions” nas redes sociais, eles não conseguem elaborar, analisar, refletir e muitos ainda são permeados pelo imaginário a maneira da perversão, como os delírios persecutórios, mentiras, fake news, manipulações, confabulações, imaginações, teorias da conspiração, está tudo nesse registro, são ignoródios, tem horror ao saber, dificultando o laço social e respeitando as diferentes singularidades.

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Freud diz, inicialmente, que a perversão são aqueles comportamentos biológicos, desviantes da norma civilizatória, como diz a psiquiatria, mas para psicanalise são aquelas subjetividades direcionadas para o desmentido da castração, da renúncia pulsional, ou seja, o perverso desmente uma lei, uma norma, já para Lacan é sobretudo um fato de linguagem. No filme vimos que o "outro" de nós, fica com a tesoura para fazer o corte no que é civilizado e desmente pela pouca linguagem que lhes servem.

Esse outro, estão em um primeiro nível, sem ascensão e para chegar ao segundo nível de consciência, é preciso serem inseridos na ordem simbólica, na civilização, na norma fálica, no laço social porque o que não tem governo é a pulsão, somos seres pulsionais e precisamos viver pela palavra e assim renunciar uma outra parte, de nós que somos nós mesmos. Renunciar aquela estranheza que nos habita para sermos seres civilizados, ou seja, para convivermos e saber lidar com o primitivo de cada um que literalmente vivem em uma outra instancia na ordem do Real. Uma dimensão obscura. Entendam que as personagens, tanto os brancos como os negros, são de um lado neuróticos e civilizadas e por outro lado são perversas e sem linguagem, tudo se passa no estádio do espelho, na primeira cena do filme, quando Adelaide encontra-se com o seu duplo. É como se cada um de nós, olhássemos para o espelho, redescobrimos que em nós mesmos, tem outro lado obscuro e sombrio.

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Reparem nos discursos da direita e esquerda? É como se a direita fosse espelho da esquerda, uma cópia que deturpa os discursos da esquerda, perversos, são ressentidos, recalcados e querem alguém que dita para eles, as tais regras, para se viver na civilização, é o bíblico Jeremias 11:11, do filme. “Por isso diz o Senhor: Eis que farei vir sobre eles calamidades, das quais não poderão sair; clamarão a mim, e eu não os ouvirei”. Precisam de um governante que pune, para que possam seguir a palavra divina, não são livres, eles veem o mundo ao contrário, estão diante do espelho retorcido... O fato é que eles vêm se vingar por causa de tudo que foi recalcado, é o retorno do recalcado, como diz Freud, mas todos nós estamos inseridos na lei civilizatória, é um mundo especular. Todos temos partes obscuras e luminosas do ser e refletimos tudo isso nos outros e eles em nós. Basta com isso, se posicionar e defender valores. Como o Amor.

Então, para concluir esse texto, os que conseguem se conectar com a cultura a partir do desejo, da vontade, insistem diariamente no exercício da linguagem, da palavra, sabendo dos seus limites, e ainda assim, insistem, porque somos livres. Viver, mesmo sabendo da morte, e ainda assim, viver. Como fez Adelaide ao fazer o salto para o segundo nível da consciência. Daí podemos compreender o final do filme, aqueles duplos que são despertos, estão um passo à frente e lutam por isso, para terem seus corpos banhados por todo o simbólico possível, ou seja, pela palavra, pela arte, literatura, música, poesia, estudos, que são processos sublimatórios, saída humana para essa inquietante estranheza, que é a pulsão sem governo, ou seja, o DESgoverno da pulsão. E lembrar que sempre há uma escolha e nem tudo é sublimado, e que é preciso vivermos em civilização assegurados dos direitos humanos, o direito à vida, a liberdade de expressão, assim como o trabalho e a educação, entre tantos outros, e todos nós temos esses direitos, sem descriminação.

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Nos dias de hoje, vimos esses embates entre a defesa da liberdade e apologia à barbárie, o presidente da república do Brasil, digamos um corpo ainda no primeiro nível, ou seja, sem governo, continua onde sempre esteve, na trincheira da barbárie.

E Jordan Peele, nessa linguagem desconcertante da sua sétima arte, implicou a nos questionar e partirmos para dentro de nós mesmos. E também lembro quando Nietzsche diz: "Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você."

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*fotos google


MFernandaCarvalho

Carioca, psicóloga clínica e psicanalista, nas horas vagas, blade runner, curto muito cinema, arte, livros e os meus três gatos boêmios. Sou o meu maior desafio. Alguns textos, são meramente articulações inacabadas. .
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