de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

O sentimento de solidão

Quanto mais a ciência desenvolve novas e avançadas tecnologias que transformam o mundo moderno numa pequena grande aldeia, mais as pessoas que vivem nessa aldeia estão perdendo o contato entre si, vivendo cada vez mais em uma nova solidão, agora cibernética.


DSC_7153.JPG Foto tirada da beira da Mendenhall Glacier por Décio Altimari

Paradoxal, não é mesmo? As técnicas nos aproximam, mas os métodos nos afastam. Ao substituirmos o contato humano pela máquina, perdemos o elo de ligação com a nossa humanidade e nos tornamos robóticos. As emoções do encontro, aquelas que dão colorido à nossa alma, hoje são vividas no isolamento de uma tela de computador... Não trocamos palavras vivas, carregadas de afeto, nossos olhos não vão ao encontro de outros olhares, mas são substituídos pelos e-mails e torpedos. É comum ouvir: -O Facebook me distrai, fico sabendo da vida dos outros, e assim tenho muitos amigos, participo de conversas, não me sinto tão sozinho! Quanta ilusão!

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As crianças trocam o brincar por celulares, os mais avançados possíveis, e se comunicam umas com as outras enviando torpedos, estando apenas a alguns metros de distância umas das outras, no mesmo espaço físico! Depois disso vem o ficar substituindo o conhecer, mas que implica em gostar, perder, sofrer... e a dor tem que ser evitada. Tudo fica descartável, o mundo fica virtual, mas sem amigos reais, vazio de significados.

De que dor estamos falando? Quando começou esse sofrer?

As famílias que antes davam esse suporte afetivo hoje estão também no “desmanche”: os vínculos são prematuros, e se desfazem facilmente, os filhos são de ninguém, se sentem abandonados e culpados pelo abandono, pois seus pais já não são mais só seus, têm novas famílias e novos filhos, meios-irmãos, quando é possível a convivência, pelo menos!

E os pais também não estão inteiros na presença dos filhos, dividindo o tempo precioso para conhecer esse filho com amigos do Facebook, WhatsApp, pois estar plugado é a ordem principal!! Os resultados estão visíveis aos nossos olhos: a violência é fruto do desamor, a procura pelas drogas para fugir do vazio, a procura de métodos rápidos que nos tirem a dor (a depressão), que nos façam ficarmos alegres (maníacos). -“Mas sem vínculos, por favor, que não posso perder tempo... na realidade não sei o que é ter vínculos, tenho medo de sofrer se vier a gostar, tenho medo de perder e ficar novamente na solidão”...

Os pacientes chegam aos nossos consultórios assim, com medo da dependência! Não percebem que mais dependentes estão dos seus sofrimentos mentais.

Para crescermos emocionalmente precisamos do outro para alcançarmos a nossa individuação. Primeiro precisamos fazer essa dupla afetiva com outro ser humano (mãe, analista) que nos escute, nos acolha nas nossas angústias muitas vezes sem nome, angústias tantas que a sensação é de aniquilamento, de desmanchar, de morrer, para num segundo momento aprendermos a ficar sós conosco mesmos, ser eu mesmo aquele outro capaz de me escutar, de ponderar, enfim de pensar... Ganho esse adquirido na análise, através de uma relação fértil com o analista, em que seja possível o trabalho de tecer novamente esses buracos afetivos...

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Solidão agora que já não significa mais vazio, mas solidão plena, que tem um outro significado, o do encontro consigo mesmo! Só quando aprendemos a nos amar é que poderemos encontrar alguém para amarmos, pois amar alguém significa compartilhar, dividir, para então somar.


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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