de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

Os “donos da verdade”

Vocês conhecem alguém com essa característica? Pessoas que sabem tudo, não admitem opinião contrária, só eles têm razão... Se encontrar alguém assim me avise, é caso raro!!


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Não estou falando de pessoas inteligentes, que têm profundo conhecimento daquilo que dizem, conhecimento esse adquirido ao longo de experiências, de aprendizado de acertos e erros, mas que mesmo assim, quando emitem sua opinião, o fazem respeitando o direito do outro de pensar diferente, de ter a sua própria experiência no assunto...

Estou me referindo a um estado de mente característico de personalidades onipotentes e narcísicas, que não admitem o estado de dúvida. Vivem na certeza. certeza.jpg

Na nossa vida de relação, frequentemente nos deparamos com esse tipo de pessoas. São as classificadas pelos parentes próximos e amigos (quando os têm) de “difícil convívio”. Os outros não os compreendem, os outros não os respeitam, os outros estão sempre querendo prejudicá-los... E eles sofrem, realmente.

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_“Ah, eu tenho certeza que fulana não é minha amiga! Não adianta, eu sei!” Duas amigas ficaram anos sem se falar, cada uma delas presa à sua certeza e não havia mais possibilidade de serem amigas de novo. Nenhuma delas procurou verificar essa verdade... Pessoas que vivem na certeza têm enormes limitações em sua capacidade de diferenciar entre o que ela está sentindo e o que os outros estão sentindo em relação a ela. Está presa a um sistema delirante de pensamento, no qual seus sentimentos e pensamentos são constantemente cindidos e projetados.

Muito tempo depois, uma delas conseguiu superar seu orgulho e deu o primeiro passo para procurar a outra. Qual não foi a sua surpresa ao encontrar alguém que pensara da mesma maneira e não tivera a coragem de testar essa sua teoria. Ela acreditou naquilo que sua imaginação criara em sua mente. E virou sua verdade. arrows-273399_1920.jpg Certeza é um estado de mente psicótico, costumo brincar com meus pacientes. Quanta dificuldade temos em tolerar e lidar com a dúvida: a dúvida de não saber, de não termos todas as respostas, de não termos garantias na vida.

A angústia que esse estado nos traz tem que ser descartada. É por isso que buscamos avidamente respostas, com a esperança de encontrarmos a certa, que nos indique qual caminho seguir, qual profissão escolher, qual pessoa para viver conosco... Queremos respostas às nossas dúvidas. Quem não quer? Até ai nada demais, eu também quero respostas. A questão é que não existem respostas certas, a vida se faz vivendo, correndo riscos, entre acertos e erros. Não tenho que saber tudo, acertar sempre!

Mas a pessoa dona da verdade fica gratificada com a certeza de que tem a resposta, muitas vezes até coerente, mas não verdadeira. Fica um “louco satisfeito”... E está cheio de gente assim...

Precisamos de uma emoção acolhedora dentro de nós mesmos, capaz de criar um espaço interno para viver as dúvidas, acolher nossas próprias angústias e tolerar a frustração que o não saber nos traz, como condição para o crescimento mental. Em termos psicanalíticos, aumentar a continência. Isso quer dizer ser mais receptivo a uma nova ideia, ter tolerância ao novo, sem que o aprendizado vire fanatismo nem religiosidade.

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Lembro-me de um poster que havia no quarto dos meus filhos - era um chimpanzé velho, com a mão apoiada no queixo, cara de desânimo, dizendo: “Agora que eu sei todas as respostas da vida, mudaram todas as questões”!...

É isso aí! A resposta é a morte da pergunta! Se conseguirmos viver mais as dúvidas, sem entrarmos em ansiedade para encontrarmos as saídas o mais rápido possível – o que seriam meras atuações - estaremos mais aptos para desenvolver o pensamento criativo!


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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