de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

Primeiro encontro – Como devo me comportar?

Cenas da vida moderna – como conhecer alguém para namoro? Ou simplesmente amizade? A regra para os solteiros é: -Não fique só, entre num site de relacionamentos!
Não mais pessoas se encontrando casualmente, olhares se cruzando, num clima de sedução, ou descobrindo afinidades depois de um tempo necessário para se conhecer alguém... e então se apaixonar...


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Na atualidade, homens e mulheres solteiros só ficam sozinhos se quiserem! Quando alguém se separa ou está só, não tem problema! Basta se registrar num site de relacionamento, e em pouco tempo arruma companhia para sair, ou para transar, ou até com intenções de casar. Ficou bem fácil, realmente. Nada de protocolos, de ficar esperando anos por alguém especial que poderá surgir sabe Deus de onde, e quando! Tudo agora ficou tão prático!

Será bem assim? Ou é propaganda enganosa? Conheço alguns casos bem sucedidos, mas a maioria patina num engodo federal! Assim, não mais graças aos deuses mas graças à tecnologia o “encontro” mudou de cara: aliás, primeiro se escolhe a cara para depois ver o coração, trocar dados sobre cada um (os melhores possíveis, é claro!), fotos com nossos melhores momentos, e depois de um tempo, cuja variação depende da urgência ou cautela dos participantes, finalmente vamos ao primeiro encontro, que poderá aproximar ou afastar de vez a dupla, sem o devido tempo para realmente se conhecerem. Então vem a pergunta: "Como devo me comportar para atraí-lo(a) rapidamente?"

A primeira vez vis-à-vis sempre causa ansiedade, pois estou indo ao encontro de um desconhecido(a), e necessito me sentir aprovada e desejada, senão ele não volta mais! Não há uma segunda chance nesse jogo da vida, tudo é muito rápido, a fila anda! Se não gostar de mim no primeiro olhar, perco a vez!

“Tanto barulho por nada”, poderíamos argumentar, como o título da peça de Shakespeare! Não escapamos de nós mesmos! A pessoa se revela, mesmo não querendo... Assim, não somos só o que falamos... Nosso inconsciente se revela todo o tempo, basta ser um bom observador. É claro que num primeiro encontro o “melhor” é sempre pouco para eu me mostrar. A começar pelo meu exterior: - “Com que roupa eu vou? Essa ou aquela? Meu cabelo está bom? Será mesmo?”.

Quero dar a melhor impressão de mim mesma. Agora, imagine tudo isso “por dentro”! A ansiedade que não me permite ter o controle (imaginário) de toda uma situação, pois para me apresentar interessante para outro a quem quero muito impressionar, todo o esforço e concentração é pouco.

Mas tudo isso é em vão. Posso enganar por um pouco, mas depois... de que adianta? Como saber o que esse outro mais gostará ou odiará em mim?Pode ser que ao negar aquilo que eu não gosto em mim, eu esteja escondendo o melhor de mim, pois o eu sou é muito mais rico que o eu tenho – só que nem sempre sabemos disso. Uma moça, por exemplo, que não gosta do seu corpo, tem uma postura desconfortável, tentando esconder o aspecto que não aprecia, envergonhada de si mesma. Dessa forma se encolhe, diferente de outra que não está nem aí, se aceita, assume seu tipo, seja ele alto, magro, gordinho ou baixinho...

Sua confiança muda a sua postura e o outro não verá a sua timidez, mas a sua simpatia, seu sorriso e desenvoltura. O corpo é um detalhe que se torna o principal para a pessoa quando esta não o aceita. Temos exemplos de artistas famosos que na adolescência se sentiam desajeitados e feios, e ao serem descobertos viraram um sucesso!

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O olhar do outro pode me por no paraíso ou no inferno – só que eu não posso controlar esse olhar. Ao me ver, quem ele (ou ela) estará vendo? Quem deseja encontrar? Somos dois desconhecidos apresentando-se a outros dois desconhecidos!

Mas diante do tempo que corre nessa primeira chance, como ter espaço para que alguém me conheça e aceite não só minhas qualidades, mas também meus defeitos se eu me mostrar de verdade? Se ousar ser eu mesma, com certeza acabarei falando sozinha... Se disser que gosto de ficar enroladinha no sofá vendo novela, se mostrar que gosto de luxo, de um bom vinho, que quero um homem que me sustente, será que vou assustá-lo? O melhor é disfarçar, me mostrar gentil, moderna, independente, não ciumenta nem neurótica, que ninguém é de ferro!

E ele? Será que se mostra de verdade? Executivo ou intelectual, liberal ou ciumento, tentando conhecer mulheres, como terão sido seus outros relacionamentos? Se ele vier com a conversinha de vítima de relacionamentos anteriores, desconfie! Ele falará isso de você também, muito em breve, quando o encanto acabar!

Se, ao contrário desse exemplo, eu for uma pessoa bem resolvida comigo mesma, bem centrada e confiante, sendo eu mesma e não uma outra, assumindo minhas qualidades e defeitos (pois ninguém é perfeito!) aí sim, posso obter ganhos muito maiores do que quando tento ocultá-los.

E quando encontrar um parceiro também maduro, não serão quatro pessoas se encontrando, mas apenas duas... O esforço é muito menor, e as possibilidades de dois se encontrarem são muito maiores que as de quatro... Pense nisso ao sair para o próximo encontro!


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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