de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

Sabe você o que é o amor? Não sabe, eu sei...

Sabe andar de madrugada, tendo amada pela mão...
Você sabe ser ladrão,
Mas não rouba o coração
De uma mulher...

Essa é a canção, que nos leva a pensar: será que eu sei mesmo o que é amar? Será que amar é sentir paixão?
Paixão é fogo que arde sem se ver, como diz o poeta... Mas se for só paixão, quando acabar o fogo...


corações.jpg O que é então amar? Parece tão óbvia a resposta, tanto se escreve sobre o amor, é um tema que nunca se esgota. Mas assim mesmo vou arriscar um outro olhar, menos óbvio talvez...

Quando menina, li um conto que nunca mais me esqueci, e gostaria de desenvolver algumas reflexões sobre o amor a partir dele. Era um conto de O. Henry, escritor inglês, no livro Maravilhas do Conto de Natal. A história se passa na época da I Grande Guerra, em plena recessão econômica. Era véspera de Natal, e um jovem casal, apaixonado, porém vivendo grandes dificuldades financeiras, namoram em uma vitrine de luxo objetos de desejo.

O casal possuía duas coisas das quais ambos tinham muito orgulho. Ele, um relógio de ouro de bolso, que pertencera a seu pai e a seu avô. Ela, os seus longos cabelos. Há coisas que valem mais que joias e presentes caros! Mas naquela véspera de Natal ela tinha apenas poucos dólares, e não poderia comprar um presente para ele. E ela o amava tanto... De repente, ao se olhar no espelho tem uma idéia: corre para um salão de beleza, aonde corta e vende seus cabelos, tão preciosos, e agora sim, tinha dinheiro para um presente de Natal para seu amado!

Fica muito feliz ao encontrar uma corrente de prata para prender o relógio dele! E espera ansiosa a sua chegada, temendo que ele não a ache mais bonita! O marido, ao vê-la, emudece e paralisa. Ela não compreende essa reação tão grande dele e assustada diz: - Não fique triste, cabelo cresce logo! Fiz isso porque não podia passar o Natal sem lhe dar um presente. Ninguém pode calcular o meu amor por você! E lhe dá a corrente para o relógio!

Ele, depois de um tempo, recuperando-se, diz tristonho: - Vamos guardar nossos presentes de Natal... São muito bonitos para serem usados no momento. Já não tenho mais o meu relógio! Vendi para comprar os pentes de prata de cabelo que você tanto queria! E assim termina o conto, dois jovens que sacrificaram um pelo outro o que tinham de mais precioso...

Bem, contei uma história linda de amor à moda antiga... É um exemplo de amor despojado, capaz de sacrificar o que mais ama em benefício do outro!Raras pessoas encontram isso na vida.

Hoje o conto seria totalmente diferente, não acham? Seria ela capaz de sacrificar seus lindos cabelos para comprar um presente de Natal para ele? E ele, venderia seu bem mais precioso para vê-la sorrir? Na versão moderna, ela provavelmente entraria em depressão e ainda o culparia por estarem nessa situação tão difícil!Ou vice versa...

Para começo de conversa, está cada vez mais difícil encontrar esse amor verdadeiro, nesse mundo tão egoísta e individualista que vivemos hoje em dia. Se você está a fim de encontrá-lo fuja de pessoas que acabaram de sair de um relacionamento e estão feridas e sentindo-se abandonadas, pois essas pessoas precisam de muito apoio,de um ombro amigo, e irão se apegar rapidamente a você. Mas não confunda isso com amor. O que você vai encontrar não é amor, é necessidade. E amor-necessidade é o que teremos quando não nos amamos o suficiente, permitindo que o outro nos use!

Isso mesmo que você leu! Você tem que se amar bastante, para poder descobrir o verdadeiro amor, alguém capaz de generosamente dividir, de ser solidário, de ouvir, de se doar também, não só de receber. E nessa sociedade narcisista na qual vivemos, em que os vínculos são líquidos, isto é, se desfazem tão rapidamente como se instalaram, o que encontramos são pessoas que necessitam do outro para se sentirem protegidas, amparadas, feito uma moldura, mas isso não é o verdadeiro amor. E se nós não tivermos amor próprio podemos ficar presos em um relacionamento egoísta e aguentando, muitas vezes por carência, ou por medo de ficar só,uma relação que é uma verdadeira cilada e que nos fará sofrer. O coração é o órgão privilegiado do afeto, a metáfora do amor, da aflição, da nostalgia, bem como do ódio, da violência e da cólera.

Existe o amor que constrói e o amor que aprisiona, que não é igual ao ódio, que nem mesmo é consciente; é o amor do controle, que vem como intenção amorosa, mas aprisiona. É também a impossibilidade de viver o prazer do afeto. São os “sequestros emocionais”. É quando o marido diz: “Eu deixo você fazer tal coisa”... Nessa frase ele acabou de tirar a liberdade do outro, mostrando garras controladoras, que sufocam o amor!

Cabe aqui também a pergunta: - Como amamos nossos filhos? Como cuidamos deles? Será que os amamos incondicionalmente? Tempo integral? E se assim for, isso é saudável?

Hoje temos novas formas de família, novos vínculos, abandonos afetivos... Na família contemporânea o poder é descentralizado e de múltiplas aparências (não mais vertical, mas horizontal e múltipla). A nova família é frágil, neurótica, consciente da sua desordem, mas preocupada em recriar entre o homem e a mulher um novo equilíbrio.

Não basta amor e não basta inteligência. Nós precisamos de um amor inteligente, ou de uma inteligência amorosa, como nos diz Rezende(2000). E isso é a sabedoria.


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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