de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

Sobre a Mentira

“Sê sincero contigo mesmo e disto se seguirá, como a noite segue o dia, que não poderás ser falso com quem quer que seja.”
Hamlet
Por que mentimos? Será que você sempre falou a verdade? E de qual verdade estamos falando? Há tantas verdades! Qual é a sua?


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Mentira e verdade são conceitos que nós usamos para definir formas de comportamento, mas não podemos ficar só na análise do comportamento. Temos que pensar qual o significado dessa atitude.

Mentimos para nós mesmos, quando não olhamos de frente para nossos sentimentos, movidos pela angústia que nos impede de reconhecê-los.

Nesses momentos ficamos cheios de “verdades”, que muitas vezes são frutos do nosso imaginário, do nosso mundo mental – essa verdade é uma grande mentira, que não espera a comprovação.

São os nossos ditos “momentos psicóticos” – são os nossos “tenho certeza que é assim”! Muito do nosso orgulho impede que nos aproximemos dessas verdades. Reconhecer que erramos dói. Reconhecer que fomos agressivos com um outro por coisas nossas, é muito difícil. Orgulho que nos impede de sermos mais espontâneos e verdadeiros...

A criança ao nascer vai organizar seu mundo mental através da fantasia inconsciente. Faz parte do desenvolvimento normal do ser humano.Quando cresce,ao brincar, a criança não está vivendo de faz de conta, de mentirinha... Ela está experimentando seus sentimentos e afetos (bons ou maus) através do fantasiar. E isso a ajuda a lidar com a realidade externa, com as angústias e medos a ela inerentes.

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Para a criança, a linguagem tem um valor mágico. Quando ela afirma algo, experimenta um sentimento de que é verdade – aquilo que ela sente é real.

Mais tarde, a escolha entre a verdade e mentira é feita para se beneficiar, para tirar vantagens, como defesa. Ela se dá conta, um dia, do que sua mentira envolve e descobre que o adulto que acredita nela não penetra em seus pensamentos. Ela pode, mesmo, se identificar com o adulto que crê na sua mentira, como uma forma de negação.

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A mentira é um dos mecanismos de defesa que mais utilizamos, sem a intenção consciente de mentir. Quando alguém diz: - Ah, quando vou parar de ficar imaginando coisas!? A resposta é: - Nunca! Porque esse imaginário faz parte do nosso mundo mental.O que temos de reconhecer é que aquilo que pensamos faz parte do nosso mundo interno e que no mundo externo não existe só o que nós pensamos - realidade externa se impõe e independe do nosso mundo mental!

Caso contrário passo a viver num mundo de faz-de-conta, e cada vez acreditando que é verdade.E isso é patológico!

A ansiedade é inerente ao ser humano. Frente às nossas angústias, quando muito intensas, não pensamos – atuamos, tentando escapar dessa angústia.Mas ela é o único sentimento que não mente, nos diz muito bem Lacan.

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A mentira é uma das maneiras que usamos para nos defender: temos medo de perder aqueles que amamos, mentimos para nos proteger, para garantirmos esse amor. Mentimos porque não suportamos nos ver com sentimentos de ódio, inveja e ciúme. Desse ponto de vista, poderíamos dizer que a mentira não existe:ela é sempre uma verdade - a verdade do desejo! A análise é o espaço para encontrar a representação mental que escapa pela atuação.


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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