de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

Todos nós estamos nessa caminhada...

O amor, a solidariedade, estão sendo postos à prova. Prova essa muito difícil pela qual passa a Humanidade. Somos bárbaros? Ou somos Homo Sapiens?


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Imagens que nos fazem pensar: para onde caminha a humanidade? Talvez o mundo tenha mesmo que repensar por que temos que consumir tanto, comprar tanto, desejar tanto para sermos felizes! Refugiados enfrentam frio, chuva, violência, para chegar ao país de asilo. E pensar que isso poderia estar acontecendo comigo? Que eu poderia ser um deles? E que a minha dor passaria despercebida por outro ser humano? Essa é a maior dor - não ser visto, pois se não sou visto passo a não existir...

Esse drama anunciado já há quase quatro anos, com a população síria fugindo da guerra civil, atingiu agora seu ápice, e ameaça o equilíbrio das outras nações, todas também passando por suas crises, como a Grécia, Itália e França, que vivem o caos de uma superpopulação. Assistimos então os países fechando suas fronteiras, como na Hungria, gerando o medo do desemprego, fatos reais que merecem uma política unindo o mundo em torno do problema, que não é só deles, refugiados, mas de todos nós, seres humanos.

Sair de sua casa levando apenas sua carteira de identidade, deixando para trás toda uma história, ou a garota que salvou seu álbum de fotografias, com a sua história impressa, talvez para recordar um dia o que teve, quem foi, o que perdeu... Outra Anne Frank? Exemplos de coragem, na busca pela liberdade. Sem ela não vale a pena viver.

Vivemos um momento muito difícil, mas agora podemos escrever a História de outra forma. Será que a humanidade não aprendeu nada??

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Notícias que mexem com nossas emoções mais intensas,como a foto de Aylan , garoto símbolo dessa grande tragédia a que estamos assistindo. Impotentes. E talvez por isso a foto de Aylan, pequena vítima desse holocausto, tenha chocado tanto e sido tão rapidamente compartilhada nas redes sociais.

Impotentes diante do mau, compartilhar a foto foi uma maneira de sair da inércia, da passividade com que estamos nos habituando às tragédias. São tragédias diárias a que somos expostos todos os dias! O homem que não domina seus instintos se torna um animal, da pior espécie.

Foi preciso chocar, para surgir uma maior manifestação de solidariedade entre as nações, em meio a cenas tão bárbaras, como as fronteiras fechadas com arame farpado, alimentos sendo jogados em abrigos para recebê-los, famintos e assustados, pessoas sendo chutadas.... Quem disse que atingimos nossa humanidade?

Lutamos dentro de nós com forças opostas, instinto de vida e instinto de morte, que quando equilibradas, nos ajudam a crescer e sermos melhores a cada dia.Mas quando a violência, a raiva, as paixões menores nos atingem o homem descobre dentro de si seu lado mais primitivo e destrutivo.É amor e ódio lutando dentro de cada um de nós. Se temos amor, conseguimos nos sensibilizar e buscar meios de amenizar o sofrimento do outro. Se temos mais ódio seremos protagonistas de atitudes de violência e desamor. Vivemos a era do narcisismo, do amor egoísta, e pensamos só no nosso conforto. Como é difícil sair dessa zona para acolhermos o outro, o diferente de nós! Estamos diante de um grande desafio!


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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