de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

Um ensaio póstumo de uma história triste

Laurence Stephen Lowry, pintor inglês, (1887-1979) se apresenta para os leitores num relato pessoal e intimista. Não podemos separar o homem da sua criação, e sua arte traz a marca de uma infância triste e infeliz. Esse artigo quer chamar a atenção para a importância da infância e dos primeiros vínculos e de como eles nos impulsionam para a vida e a criatividade ou para a estagnação e a doença.Observamos ao longo da sua obra a importância do reconhecimento (um segundo olhar) acontecendo na sua vida e da transformação dessa falta, criativamente, através da sua arte.


Going to work.jpg Going to work (1928)

Two Figures.jpg Two Figures

Meus amigos, vou me apresentar, sou eu esse menino ai, retratado por mim, anos depois dos anos tristes da minha infância, caminhando ao lado dessa figura que supostamente é a minha mãe. Como podem ver, tento acompanhar seus passos, faço tudo para ser visto e aceito por ela, já que sou seu único filho!

Filho amado? Desejado? Ou simplesmente rejeitado, pois o seu desejo era ter tido uma filha. Conviver com essa mãe de saúde precária após o meu nascimento (mais uma culpa nos meus ombros) depressiva e nervosa, que no Natal me presenteava com livros cuja dedicatória dizia "Our dearest Laurie" tornou-me uma pessoa reservada e melancólica, até estranho... Nunca superei essa culpa!

Vocês sabem que ter uma mãe depressiva faz com que o filho tente com todo o seu esforço reverter esse quadro, à custa de sentir-se culpado pela sua doença. É o processo que André Green, psicanalista inglês da atualidade, denomina como “mãe morta”, morta no psiquismo da criança.

Ela parece sorrir na pintura mas seu olhar se volta para outras paisagens...Seus olhos não me veem, não me enxergam. Eu a acompanho triste, desajeitado, esperando que pelo menos meu pai se apresente e me salve. Mas ele apesar de afetivo é um cara introvertido, distante, fraco...Eu o descrevo como “a cold fish”... Sai para o trabalho e volta do trabalho, anônimo, na multidão...Minha mãe o controla com a sua doença, assim como controla também a mim...Não há relato de encontros, não há troca de olhares nessa história familiar.

Cresci na solidão, na ausência de carinho, de estímulo, nem bom aluno eu era, frustrado por não preencher as expectativas maternas.Desenhar era uma forma de expressão, nos dias monótonos e tristonhos da minha infância. Ali eu me encontrava e me abastecia!Fui então para uma escola de Arte.

Esqueci de contar, nasci em 1º de novembro de 1887 em Londres e morei até meus 12 anos num subúrbio de Manchester, Rusholme, bem próximo do Victória Park.

A grandeza do parque, suas flores, seus gramados, o canto dos pássaros, ficaram na minha memória afetiva como a matriz colorida da minha vida... Mas a situação financeira dos meus pais nos obrigou a mudar. Mudança drástica! E fomos então para Pendlebury,uma área industrial na cidade de Salford, em Greater Manchester, com sua paisagem monocórdia, chaminés de fábricas texteis, no lugar das minhas lindas árvores...E gente, muita gente,trabalhadores indo para as fábricas, uma multidão anônima! Senti muito essa mudança, como se meus olhos tivessem sido privados da luz do sol...

parque Vitória.jpg Park Victoria

Tornei-me mais introvertido, tímido, sem sonhos, marionetado pela minha mãe. Uma triste figura, sem expressão, como meus desenhos tão bem retratam, matchstick men, homens palitos,como ficaram conhecidos, sem forma, robotizados, sem expressão e sem perspectiva, ao encontro do desamor!Eu estava preso nessa armadilha familiar!

desencontro.jpg

E foi nessa fonte de inspiração que eu desenvolvi a minha arte. Pela arte, pensamentos tomam forma, e eu comecei a dar vazão aos meus sentimentos, encontrando uma forma de expressão para a minha angústia, retratando o ser despersonalizado, vazio de sentimentos, sem emoção. E por isso fiquei conhecido como “o pintor do invisível”!

Na realidade era eu que me sentia invisível, já que não tive o olhar materno para me espelhar, aquele olhar que toda criança espera receber da sua mãe, garantindo-lhe o narcisismo de vida!

Minha vida artística começou assim... sem muito esperar, eu que detestava aquela nova paisagem: "It would be about four o'clock and perhaps there was some peculiar condition of the atmosphere or something. But as I got to the top of the steps I saw the Acme Mill; a great square red block with the cottages running in rows right up to it – and suddenly I knew what I had to paint." Eu olhei a cena, a qual havia visto tantas e tantas vezes sem ver, e então aquela imagem penetrou-me e comecei a desenhar sem parar chaminés de fábricas, a paisagem do vazio, o vazio da minha alma, até me tornar um obcecado. Identificado com o que via, pintava compulsivamente as mesmas cenas.

Repetir, repetir,repetir... até elaborar, ou estar destinado a uma repetição sem fim! Coming from the Mill.jpg Coming from the Mill (1930) Apesar dos meus desenhos não serem valorizados por quem eu tanto desejava que os valorizasse, minha arte chamou a atenção de pessoas que mudaram a minha vida. Assim começo meus estudos em 1905, quando conheci o mestre francês do expressionismo, Pierre Adolphe Valette, na Escola de Arte de Manchester.Estudei com ele de 1915 a 1925, quando fui para o Salford Royal Technical College, hoje Universidade de Salford, onde continuei a estudar arte.

O mundo vivia a revolução industrial, e eu defini meu próprio estilo – a paisagem industrial! “Para colocar a cena industrial no mapa, porque ninguém tinha feito isso” – declarei. Os anos 30 marcaram um período difícil da minha existência. A II Grande Guerra se anunciando, recessão, e em 1932 morreu meu pai, nos deixando muito endividados. Minha mãe caiu mais gravemente doente, e dependia de mim para seus cuidados; eu só tinha tempo para pintar altas horas da noite até de madrugada. Foi a fase dos self retratos, chamada de Horrible Heads, influenciado por Van Gogh. Via-me muitas madrugadas assim, como no quadro Head of a Man (whit red eyes), cansado dos cuidados com a severa doença da minha mãe.

Ela faleceu em 39, e eu caio em profunda depressão após sua morte. Como bem descreveu o professor Freud em seu trabalho Luto e Melancolia “a sombra do objeto caiu sobre o ego” e eu me tornei a sombra dessa mulher sem luz... Desvitalizado... Culpado por culpá-la da minha infelicidade, preso numa armadilha inconsciente de ódio e amor!

Sempre existem saídas na vida de uma pessoa quando ela quer e eu queria muito me libertar!Depois de alguns anos o acaso fez com que encontrasse uma jovem de 13 anos que queria muito ser artista, e por sugestão da sua mãe escreveu-me. Isso mudou o curso da minha vida... Essa amizade entre um homem de 57 anos e sua sobrinha adolescente, ou entre mentor e pupila... O afeto deu um novo sentido à minha vida solitária. Encontrei na sua companhia e no meu trabalho a maneira de transformar a minha vida. E o reconhecimento do meu talento pode fazer uma mudança muito grande em mim...

Como precisamos do olhar do Outro para nos reconhecermos como indivíduos! E até virei um contador de histórias, mais anedóticas do que verdadeiras, mas que fazem algum sucesso (eu que tão poucos amigos tinha na época escolar)!

Hoje me sinto reconhecido, respeitado, mas continuo com as minhas defesas autistas. Através da minha arte fiz amizades duradouras, como os pintores Harold Riley e James L. Ishewood, pintor expressionista, cuja obra admiro muito, cheia de cores, pintura viva, especialmente um quadro que adquiri de Ishwood, colocado na minha sala, “Mulher com gato negro”. Assim agora posso ter uma mulher para olhar e admirar, eu que nunca tive ninguém...

O verde dos parques, como aquele em que eu me refugiava na hora do almoço quando trabalhava na Pall Mall Company (ao término dos anos escolares) era o momento de reabastecer energias. Para uma pessoa retraída, com tantas dificuldades de convivência como eu, o parque é uma solução. Eu preciso do verde das árvores, da grama, dos pássaros! Costumava ir todos os dias no Buile Hill Park. Fiz amigos por lá... e ganhei até uma estátua, assim poderei eternizar esses momentos!

estátua no parque.jpg

Na Guerra me ofereci como voluntário e acabei em 1943 como pintor oficial da linha de frente da batalha, pintando as cenas da guerra. Recebi honrarias, entre algumas o título de Master of Arts em 1945, em 1953 fui homenageado como artista oficial na Condecoração da Rainha Elizabeth II, eleito membro associado da Royal Academy of Arts em 1955... Meus quadros hoje estão em galerias famosas,entre elas a Tate Gallery, alguns valiosíssimos.

The Cripples.jpg The Cripples (1930) Tornei-me famoso, como consegui? Superei muito dos meus traumas através da arte. Ainda continuo reservado, até recusei receber por várias vezes condecorações... Caso raro na história da arte!

E tudo o que eu tinha de bom dentro de mim aflorou! Minha pintura naif ganha vida e começo a desenhar emoções, figuras não mais marionetadas mas interagindo: olhares que se cruzam, crianças chamando atenção dos adultos, pessoas que se tocam, que brigam (A Fight), pessoas sofridas, aleijados de guerra, a dor agora podendo aparecer (The Cripples), pessoas saindo do anonimato, da massificação, adquirindo individualidade, o colorido da vida, dos afetos, e eu começo a me sentir humanizado...

Os tons cinzentos da vida urbana agora podem ser carregados de outras tonalidades... On promenade.jpg On Promenade Como eu queria que minha mãe pudesse me ver, quem sabe assim ela conseguiria finalmente me admirar!


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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