de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

O tempo e a psicanálise

Tempo de risos, tempo de lágrimas
Tempo de criança, tempo que não volta
Tempo de sobra, tempo por viver...
Desperdício de tempo
Tempo que passa, tempo que não passa...
E agora tempo do novo, tempo de dizer adeus
ao tempo perdido!


clock-70189_640.jpg Passado, presente e futuro são os tempos que conjugamos quando falamos da nossa vida. São sucessões de tempo que assim coordenadas nos oferecem uma representação consciente desse tempo: - Quando eu era criança... Mas agora que sou adulta... E como será quando chegar a velhice?

Reflexões sobre o passado estão sempre presentes na nossa vida, na nossa memória afetiva. Seguimos em direção ao futuro, mas nessa caminhada trazemos na bagagem nossas experiências, tanto as boas como as más, com as quais sempre aprenderemos algo! Caso contrário, estaremos destinados a repetir essa experiência até a exaustão – ou melhor – até que dela possamos atribuir significados para a nossa vida e nos libertarmos de afetos dolorosos reprimidos.

Alguns pacientes nos procuram querendo muito se conhecer, para que no futuro possam viver melhor, trazidos pelas dores do viver, dores essas que se repetem em diferentes experiências. Mas questionam-se, movidos pelo medo: - E quando é chegado um tempo para a análise?Ainda não estou preparado...Querem análise rápida, tipo fast food, sem vínculos.

Vivemos tempos líquidos, em que a aceleração do tempo faz com que tudo fique muito defasado, muito sem sentido, mudanças muito rápidas e pouco duradouras! E assim que os primeiros sinais de melhora da ansiedade aparecem, eles vão embora, para “não revolver as cinzas”, para não sofrer...

O fato de virem ao nosso consultório já é a resposta... E a interpretação do analista vai ajudar a reconstruir esse passado, esquecido porque reprimido, mas sempre presente no psiquismo da pessoa.

Medo de recordar é o medo de se conhecer, nos diz Freud. É preciso “enevoar a consciência” para salvaguardar a relação com as figuras parentais, senão como explicar que a nossa memória tão brilhante quando somos jovens, vai se esquecer dos anos preciosos da infância, justamente quando ainda não temos acúmulos de coisas a lembrar?

E então, diante da resistência ao novo, a uma nova experiência,alguns pacientes questionam-se: - Penso que é melhor dar um tempo para iniciar a minha análise... Agora ainda não é a hora... Assim dizendo: - Quando eu melhorar dessa angústia que estou sentindo eu volto! Eles não percebem que no inconsciente o passado não existe – ele é sempre presente – e a qualquer momento se manifesta...

Temos então uma luta entre o tempo que passa muito rapidamente (amanhã... mês que vem...) e o tempo que não passa, pois ficamos repetindo inconscientemente nossos padrões de comportamento! Ao deixarmos para depois estamos lutando contra o inexorável, escolhendo apenas prolongar ou até eternizar um sofrimento...


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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