de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

Crescimento mental

O que vem a ser isso? Maturidade? E por que algumas pessoas demonstram serem tão amadurecidas, desde pequeninas, e outras, já adultas, ainda não conseguiram crescer? Obviamente não é um fator de idade...


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A capacidade para desenvolver uma mente capaz de um pensar criativo depende inicialmente da condição emocional de uma dupla muito importante para o ser, desde seus primeiros momentos de vida. É a relação deste bebê com sua mãe.

É claro que estou considerando aqui a carga hereditária com que este bebê veio ao mundo. Este é um fator com o qual temos que nos haver sem que possamos interagir. Refiro-me portanto ao ambiente (mãe ou quem faça as vezes de).

O conhecimento do mundo psicológico, para o bebê, precede o conhecimento do mundo físico. Portanto, há uma primeiríssima forma de pensar, diferente de formas posteriores, mas que é básica para o desenvolvimento destas: é o pensar como ligação humana, como uma experiência emocional.

O bebê ao vir ao mundo sente uma série de sensações como fome, frio, dor, desamparo, medo...Já não está mais protegido no ventre materno, apesar que já se sabe que mesmo lá ele também sente as sensações do mundo externo e até as angústias vividas pela mãe.E como todo ser humano luta para se livrar delas, projetando para fora de si esses sentimentos vividos como perturbadores!

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Cabe à mãe receber esse bebê angustiado e fazendo uso da sua capacidade de rêverie, que quer dizer sonho – aquilo que nossas avós tão bem faziam, através de cantigas de ninar, ou embalos seguidos de sussurros – devolver a ele de uma maneira afetiva e tranquilizadora essas sensações assim devidamente transformadas.

Podemos pensar no modelo digestivo – a mãe digerindo para seu bebê suas angústias e devolvendo amorosamente, na forma de compreensão, esses medos... eles se tornam menores e podem ser então contidos na mente tão frágil da criancinha. Essa é a origem do pensar, a primeira forma de comunicação mãe-bebê.

Cada um desses ciclos projetivo-introjetivo entre mãe-bebê é parte de um processo significativo, que gradativamente transforma por inteiro a situação mental da criança.

O pensar materno transforma os sentimentos do bebê em uma experiência conhecida e tolerada.

Por outro lado, uma mãe ansiosa, aflita em resolver a angústia do bebê, fracassa em aceitar as projeções deste, tornando-o cada vez mais angustiado e assustado, criando uma intolerância à frustração, prejudicando o desenvolvimento de um ego realidade.

E para haver desenvolvimento mental é preciso aprender a tolerar a frustração, pois é na dor que crescemos. Uma mente incapaz de tolerar frustração vive sempre em situação de ameaça.O mundo se torna perigoso e se desenvolve um ego voltado para se livrar do desprazer, incapaz de pensar o outro, portanto incapaz de sentimentos de gratidão, de culpa, de reparação.

Não dá para tirar a dor do caminho das pessoas. Elas têm que, pelo contrário, ter e conter a experiência da própria dor mental, para se desenvolver e adquirir maturidade.E quando essas primeiras experiências difíceis podem vir acompanhadas de muito amor, tudo fica mais fácil de suportar!

Esse é o começo e é muito importante que se pense sobre isso, numa sociedade em que a função materna sofreu tantas mudanças. É por isso que os pediatras e os analistas estimulam as mães a darem o peito a seus pequenos bebês, a terem paciência e tolerância para essa fase difícil em que ambos estão se conhecendo. A relação boca-peito é a primeira forma de amor que o ser humano conhece!

Hoje a mulher se prepara para a vida profissional. Os filhos se encaixam nas possibilidades. Pouco resta em tempo para a família. Então, mais do que nunca, a qualidade desse vínculo tem que ser conhecida e explorada ao máximo!


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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