de fora para dentro

Ensaio psicanalítico do cotidiano

Vera Blank

Vera Blank, psicanalista.

Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé.
Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento.

Morango e Chocolate

Filme sensível, inteligente, atemporal, passado em Cuba de Fidel Castro, como poderia ser aqui, no Brasil de hoje, ou em qualquer outro lugar...Trata da difícil conquista da individualidade,da liberdade, num mundo tão intolerante com as diferenças.


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Começo pelo título sugestivo, dois sabores diferentes,um natural o outro processado, não misturados, portanto Morango e Chocolate, mas que ao se juntarem modificam-se mutuamente. É uma bela metáfora que significa ser possível conviver com as diferenças. Mostra o quanto a tolerância, o amor, a solidariedade podem derrubar os muros que nos separam se conhecermos melhor os outros como humanos.

O filme aprofunda uma reflexão sobre a mente grupal, nossos preconceitos e intolerâncias pelo não eu, pelo que não é igual, e pela exclusão de quem pensa e age diferente dentro de sistemas fechados... Social-ismo versus Narcis-ismo.

Traz como pano de fundo a questão do homossexualismo, que é tratada de uma maneira bem sensível, mas o que eu quero destacar não é a paixão sexual, mas o quanto uma pessoa pode também se apaixonar pela mente de um outro, pelas suas ideias, mesmo em circunstâncias tão adversas, como no caso de Diego e David, os personagens do filme. Esse fenômeno é chamado na psicanálise de Identificação – “a expressão primeira da ligação afetiva a uma outra pessoa.”

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A Psicanálise privilegia muito mais a pulsão do que o objeto escolhido. A homossexualidade não é uma questão dos homossexuais, mas uma questão do sujeito humano.

O filme enfoca o indivídual sob a ótica dos fenômenos grupais. O homem é um animal político (Aristóteles). É sabido que o indivíduo em um grupo pensa e age de maneira diferente do que agiria isolado, pois sua personalidade consciente se esfacela em proveito da sua personalidade inconsciente.

Ele adquire um sentimento de força invencível, perde o sentido de responsabilidade individual e da consciência moral. É o fenômeno do contágio, a ponto de sacrificar seus próprios interesses pelo interesse coletivo (caso de David); torna-se sugestionável como uma pessoa hipnotizada nas mãos do hipnotizador. (Freud, Psicologia das Massas e Análise do Ego).

Surge no grupo a necessidade de um líder, com prestígio e interesses comuns, em torno do qual as pessoas se agregam, se influenciando mutuamente, adquirindo comportamento regredido e primitivo.

Sentimentos de compaixão enfraquecem o grupo, que também exige do líder força e brutalidade. Emoções passam a ser exaltadas e o pensamento inibido – ficam valendo somente as atuações.

A força de EROS (libido) sustenta a coesão do grupo: “Por amor a eles” (lema revolucionário). Não só o amor, como também o ódio constitui um fator de unidade, portanto ambivalência, projetando sentimentos hostis contra a pessoa amada,ou vice versa, como no caso de David, que começa a admirar aquele que supõe ser o alvo do seu ódio.

Há uma limitação do narcis-ismo em favor do social-ismo, uma renúncia em favor da maioria, que é um dos fundamentos da Civilização. Vejamos como isso se dá no filme:

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Diego é um professor de arte, culto, firme em seus ideais políticos e homossexual assumido que faz um uso agressivo da sua sexualidade para provocar e enfrentar seus adversários, pois suas ideias e sua escolha sexual são tidas como subversivas, contrárias à ideologia cubana, aonde ser homossexual significa afrontar a política do partido.

Homo pensante e homo sexual, duas afrontas dignas de perseguição!Para ele a arte é para sentir e pensar!Investe generosamente nos artistas cubanos, lutando para que consigam expor seus trabalhos e passa a se interessar também por David, pois percebe que ele também é ávido por conhecimento.

David é filho de um trabalhador rural que graças ao partido comunista consegue frequentar a universidade e se tornar um revolucionário assumido, doutrinado pelo regime, cheio das verdades apreendidas no partido e se aproxima de Diego inconscientemente atraído pelos livros (sua escolha principal na vida da qual abre mão pelo partido).

Aproxima-se então de Diego no começo para fiscalizá-lo e denunciar quem vive contra o sistema, mas acaba seduzido não pelo seu corpo, mas pelo novo mundo das ideias que Diego lhe apresenta, pela sua liberdade de pensamento - o conhecimento e a cultura abrindo portas e espaços mentais numa mente antes aprisionada pelas verdades absolutas do sistema...

O fanatismo cega, tanto o religioso como o político. Enquanto David está cego e atua, Diego pensa, tem consciência libertária, transborda cultura, aponta as falhas, mostra verdades, enxerga! Ele é contra a injustiça, o preconceito, a exclusão.

Enxergar dói e Diego sofre, ansiedade depressiva, daquele que consegue integrar os dois lados, o bom e o mau, diferente de David, com o predomínio da ansiedade persecutória, aonde não há lugar para a integração, é tudo ou nada! Absolutismo!

Podemos ampliar essa temática para outros aspectos, como a violência não só física, mas a violência mental da discriminação, sexual, racial, política!Instinto de vida e instinto de morte são forças opostas que convivem dentro de nós, e o amor é a força propulsora que nos impulsiona para tudo que é vida, solidariedade e generosidade para com o próximo e principalmente para conosco.

O mundo todo assiste e vive atualmente a questão sofrida pelos refugiados da guerra da Síria, da África, um problema de difícil solução e que requer ações rápidas e humanistas por parte dos países. E o que assistimos, impotentes? Tragédias, massacres, guerras... Vítimas da intolerância! O instinto agressivo e destrutivo predomina nas diferenças e no fanatismo religioso, fazendo milhares de vítimas.

A aproximação de David e Diego produz uma feliz transformação em suas vidas, sem perda das identidades. Diego é professor por vocação, sente prazer em lapidar a personalidade tosca de David, no começo com a intenção de seduzir, mas também pelo prazer de ensinar.

Há uma bela passagem, no triângulo formado pela entrada da amiga Nancy,quando Diego percebe que os dois se apaixonam e oferece o amigo, alvo de seu desejo sexual para a mulher, abrindo mão dele, como a criança que resolvendo sua questão edípica, pode abrir mão do amor de sua mãe e se identificar com a figura paterna.

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E no abraço final o gesto de amor que vence as barreiras do preconceito e da culpa! Talvez possamos amar mais em vez de matar uns aos outros!


Vera Blank

Vera Blank, psicanalista. Escrever para mim é um ato de amor.O exercício da psicanálise é um ato de fé. Conciliar essas duas experiências é o exercício que faço nesse momento. .
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