de frente para a tela

Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.

Eva Camargo

Estudante de medicina veterinária, com aspiração a super heroína e disfarce de escritora. Uma completa bagunça, que teima em dizer que não quer ser arrumada. Ama o mar, livros, animais, dias chuvosos e vive em busca de uma liberdade que ela diz existir.

O Solista

Um homem, um violino, duas cordas, uma doença e uma paixão avassaladora pela música. No filme O Solista a música é apresentada de forma apaixonante e é esse amor pela música que emociona Nathaniel, que toca como se fosse único no mundo e Stevie, que vê neste homem não só uma história para sua coluna no jornal, mas também alguém que merecia ser ajudado. Nessa trama vemos até onde se vai por um amigo, que nem sempre vem em um pacote convencional, e que as vezes a música é a única coisa que nos traz a lucidez.


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Se fosse para classificar os filmes poderíamos classificar entre: os que te tocam, os que você esquece assim que assistiu e os que te deixam sem palavras. Mas hoje lhes apresento uma quarta classificação: aqueles que te deixam atônita, perdida, aturdida. E nesta classificação, um tanto quanto exclusiva, está o filme O Solista. O Solista podia ser mais um filme qualquer sobre uma doença psíquica, superação e amizade, mas ele trás outro elemento que une e eleva a outro patamar essa visão: a música.

Os filmes musicais, desde antigamente dos mais infantis até os mais dramáticos, tentam sempre retratar a paixão por trás da música e muitas vezes alcançam esse objetivo, porém em O Solista ele trás a música como a única coisa que consegue trazer a lucidez nosso personagem principal Nathaniel Ayers, vivido pelo icônico Jamie Fox.

A história começa quando um escritor do famoso jornal Los Angeles Times, Stevie Lopez (quem encara esse papel é o querido Robert Downey Jr), sem inspiração para escrever, numa bela tarde encontra um morador de rua, chamado Nathaniel Antony Ayers, tocando um violino com duas cordas em frente a estatua de Beethoven, que é seu ídolo musical. A primeiro momento podia ser só mais um dos inúmeros músicos espalhados pela cidade tocando para ganhar umas moedas, porém ele não. Ele era diferente. Tocava com tanta paixão, que por segundos você se sente no lugar de Stevie e se pergunta junto: “Qual é a história por trás desse gênio?”.

Stevie entra então numa empreitada para descobrir algo do músico morador de rua e por fim, peças são adicionadas ao quebra cabeças. Sabe-se que ele havia estudado em Julliard, abandonado sua família e amava mais a música do que a própria vida. Assim, este personagem trás a superfície a mente de um homem que sofre de esquizofrenia, há cenas fortes em que o músico passa por crises, como ouvir vozes, além das lembranças que o assombram e os momentos em que perde totalmente a consciência do que é real e do que é imaginário.

Neste filme temos Nathaniel representando a insanidade e os sentimentos de um homem que havia sucumbido à doença e Stevie, como um homem normal que enfrenta a si mesmo e seus egoísmos para ajudar aquele músico, que já havia perdido muito.

São-nos apresentado neste seguimento duas escadas: em uma delas está Nathaniel e na outra Stevie. Os dois a sobem passo por passo e em cada degrau está uma luta diferente. Stevie enfrenta a falta de inspiração, o medo por ter de tomar responsabilidade pelo homem, a insegurança do que pode acontecer, o desejo de ajudá-lo a todo custo e Nathaniel enfrenta a si mesmo, as vozes dentro de sua cabeça, o medo, a solidão e o ardor pela música.

Os momentos mais incríveis do filme ficam por conta de Jamie Fox, que representou com um suntuoso talento este personagem tão complexo. Um momento que te tira o fôlego e te faz perguntar se é possível sentir tanta intensidade assim é quando depois de muito tempo ele toca um violoncelo, que foi doado por uma senhora depois de ler a coluna de Stevie. O violoncelo não parece ser só mais um instrumento, mas sim uma extensão do corpo de Nathaniel. As cordas choram embaixo dos dedos calejados do músico, seu corpo responde a melodia e naquele instante não existe doença, não existe nada, apenas uma alma que se eleva pelo amor a música.

Eu me pergunto como existem pessoas que passam pela vida sem ao menos escutar uma vez uma música clássica, ou pior, se a ouvem como conseguem não sentir nada. Em O Solista esta música é tão desnudada de artifícios que sua pureza passada por um homem com esquizofrenia te deixa abismada, encantada.

Além de tudo o filme retrata também uma realidade triste das grandes cidades, moradores de ruas drogados e bêbados ou mesmo sem ter para onde ir ficam nas ruas ao relento, mercês da própria sorte. Um dos momentos mais tensos é quando Stevie está indo para o Lamp, um centro de ajuda e apoio aos moradores de rua e dependentes químicos, onde quer deixar Nathaniel e um homem oferece-lhe seu próprio par de sapatos para venda, mostrando assim até onde o homem pode chegar pelo vicio. São apresentadas também cenas em que Nathaniel passa por crises, movidas pela doença, em que chega a ser violento, como no passado com sua irmã, com o professor de violoncelo e até mesmo com seu amigo Stevie. É mostrada no filme sem medo a realidade da pessoa que sofre com esquizofrenia.

Por fim, O Solista é um filme real, pois não apresenta uma cura para o músico, nem uma solução mágica para seus problemas, nem um final forçadamente feliz para o escritor, que enfrenta problemas pessoais e lutas internas o filme todo, mas sim um desfecho simples e conciso: o “superar-se” dia a dia.

O fim do filme é como se trouxesse nas entrelinhas que Nathaniel continuou seus caminhos pelas ruas de LA, com seu violoncelo fazendo sua música para Beethoven, porém agora tinha a irmã mais perto para apoia-lo e um apartamento quente para voltar, que Stevie continuou a acordar cedo e ir para o seu trabalho, mas conseguiu também ter mais junto de si sua ex, mas talvez futura esposa novamente ao seu lado e que um aceitando o outro aprenderam a conviver por si sós e juntos.

O Solista trás toda a beleza e força que a música tem para nos mudar ou então, para nos alimentar como faz com nosso personagem principal. E também, como se prestarmos atenção por onde andamos podemos descobrir histórias maravilhosas e incríveis.

Esta é uma produção que mostra a magia da música. Se prestar bem atenção nos momentos em que Nathaniel toca é como se o tempo parasse e você, junto dele, flutuasse em direção ao céu. Nathaniel teve um encontro com seu amado violoncelo, Stevie teve um encontro com a graça divina “eu nunca amei algo, como ele ama a música... Isso deve ser uma graça divina” e você, se parar e fechar os olhos enquanto o ouve tocar, pode ter um encontro com o infinito. Ou com a magia. Depende exclusivamente do que você sente.

"A música é capaz de reproduzir, em sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria." Ludwig van Beethoven


Eva Camargo

Estudante de medicina veterinária, com aspiração a super heroína e disfarce de escritora. Uma completa bagunça, que teima em dizer que não quer ser arrumada. Ama o mar, livros, animais, dias chuvosos e vive em busca de uma liberdade que ela diz existir..
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