de frente para a tela

Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação.

Eva Camargo

Estudante de medicina veterinária, com aspiração a super heroína e disfarce de escritora. Uma completa bagunça, que teima em dizer que não quer ser arrumada. Ama o mar, livros, animais, dias chuvosos e vive em busca de uma liberdade que ela diz existir.

O Julgamento

A morte decidiu brincar e chamou ao tribunal de justiça o maior dos casos da literatura: Capitu traiu Bentinho? De um lado advogado de defesa e grandes defensores da mulher de olhos de ressaca e de outro um marido ciumento, um advogado que usa chapéu coco e uma promotora irritadiça. Quem será o vencedor?


capitu.jpg

O dia estava confortavelmente agradável. Agradabilíssimo. Não estava quente, nem frio, nublado ou ensolarado, chuvoso ou seco. Tudo na medida certa. Mas cá vamos à história e paremos de titubear em relação ao tempo.

A morte mesmo que efêmera e singela tão simples e inevitável quanto o respirar prega-nos peças. E que peças, diga-se de passagem. Às vezes ela cansada de andar por ai, tão solitária quando derradeira, procura por certa diversão e acha-a em situações, caro leitor, que diria impossíveis.

Era manhã, não como todas as outras, pois a morte decidira brincar e quero que se prepare para o que está a ler. Não é um simples ocorrido, não é algo que verá todos os dias ou que serão contados em livros futuros. Ninguém ouvirá falar disso, ninguém descobrirá o que se passa.

Era uma sala ampla e clara, localizada no meio de lugar algum cruzando com a rua do destino, na cidade que lhe preferir. Rio de Janeiro, São Paulo, Nova York ou Londres, onde eu coração mandar.

De inicio nosso cenário estava vazio, mas aos poucos tomou forma e então era parecido a uma sala de tribunal, como aqueles que veem em séries televisivas policiais, no meio estavam o juiz sentado com uma peruca branca, o que me lembrou de muito mais audiências antigas que atuais, mas sigamos com a descrição. O juízo tinha a cara lívida e serena, ao lado esquerdo estava um advogado vestido de branco, usava roupas antigas e um chapéu coco na cabeça. Ao lado direito o que deduzi outro advogado vestido de preto, as roupas praticamente idênticas ao do homem que estava de branco, tinham o rosto parecido também, o que me ocorreu um fato estranho.

O júri estava sentado em silêncio, ao lado do que então seria o campo de uma batalha épica. Nenhum deles parecia esperar os envolvidos que entraram a seguir. Agora faltava-nos apenas o público a encher as cadeiras, sendo testemunhas e o acusador e o acusado. O senhor já os conhece, mas vou lhes apresentar novamente.

Os primeiros a entrarem eram um homem grandalhão, trazia consigo a marca do tempo era rechonchudo e trazia embaixo dos braços uma pasta cheia de papéis, ao seu lado estava uma mulher um tanto mais baixa com um lenço na cabeça e as marcas de expressão no rosto te envelheciam, tinha o olhar acusador e ao lado uma segunda mulher, esta mais bonita e moça que a primeira, mesmo que escondesse-se embaixo de roupas fúnebres e um coque apertado em seu cabelo. Se bem sei quem aqui lê, já sabe pela descrição quem os são: Tio Cosme, Prima Justina e D. Glória.

Logo atrás deles, mas não menos interessado, estava um homem – o último homem a usar presilhas – e que tinha demasiado gosto por superlativos: O Agregado José Dias.

Enquanto estes iam se sentando mais pessoas entravam. Logo atrás vinha um padre acompanhado por Sancha e sua filha, Capituzinha, que havia crescido um bocado e era mulher feita. Padre? Ah perdoe-me, na verdade é Protonotário Apostólico Cabral.

Os lugares enchiam-se e os murmurinhos começaram a espalhar-se por todo o local. Em seguida um moço, cavaleiro com um chapéu branco entra pela porta, trazia o peso do tempo em suas costas e olhos de interesse. O próximo casal olhava-se nos olhos como se o tempo não tivesse tido força sobre suas almas unidas. D. Fortunata e Sr. Pádua entraram sorrindo um para o outro. Logo atrás veio Ezequiel, sorrindo com os olhos claros e a pele brilhosa, sentou-se ao lado dos avós maternos. O nervosismo na sala aumentava, quando a porta se rompe mais uma vez e todos viram suas cabeças para trás e tamanho é o assombro.

Escobar vinha mais a frente com aquele mesmo jeito de andar, vezes alarmado, vezes calmo e tinha o olhar lívido. Então, viu-se ao fundo os donos dos mais diversos sonhos e possíveis doces encontros: Capitu, a dama dos olhos oblíquos e dissimulados e Bentinho, seu esposo e vilão.

Os dois ficaram encarando-se meio dentro e meio fora do salão. - A morte que sugou todo o mel do teu doce hálito, não teve efeito nenhum sobre tua beleza – disse ele olhando para aqueles olhos.

Aqueles doces e cálidos olhos, que o tragavam para dentro dos mais arredios mares.

- Oh – disse ela dando um sorriso – Creio que não estamos aqui para galanteios.

- Não, minha querida – respondeu – Mas para que estamos?

Bentinho olhou para frente e avistou o traidor, seu melhor amigo, aquele que havia pungido seu orgulho e o enganado com a mulher, dona de seus mais profundos sentimentos. A raiva voltou como um punhal que o acertou. Abaixou e entrou arredio deixando-a para trás.

Escobar sem muito entender, entrou e sentou-se ao lado de D. Glória, que sorria para o moço com doces olhos maternais. Bentinho atravessou os lugares e descendo as escadas sentou-se ao lado direito, numa mesa e cadeira dispostas ao lado do advogado de preto. Será assim que irei lhe chamar.

Então, ela entrou e se foi possível ver o porquê da exclamação de todos. Capitolina, dona de olhos de ressaca, cabelos longos e grossos, vestia um vestido negro e um grande chapéu na cabeça, andou com delicadeza e sentou-se ao lado do advogado de branco. A mulher era de imensa beleza e aqueles olhos, ah aqueles olhos! Talvez até a morte se encantasse deles, tanto que hoje, neste exato momento, está aberto o tribunal.

Capitu traiu ou não Bentinho?

FIM DA PARTE 1.


Eva Camargo

Estudante de medicina veterinária, com aspiração a super heroína e disfarce de escritora. Uma completa bagunça, que teima em dizer que não quer ser arrumada. Ama o mar, livros, animais, dias chuvosos e vive em busca de uma liberdade que ela diz existir..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/literatura// @destaque, @obvious //Eva Camargo