de tudo um pouco

Arte, Ciência, Filosofia, Atualidades

Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!

[email protected] EM E-CONHECÊ-LO

A tecnologia tornou-se uma ferramenta de busca nas relações interpessoais. Ela pode ser uma poderosa aliada na aproximação de pessoas, mas também alimentar aquilo que afasta e impede um contato íntimo: a PROJEÇÃO.


DomQuixote.jpgUm exemplo de projeção na literatura. "Dom Quixote" - escultura em bronze de Julio González - 1930 - Foto: Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (Espanha)

Joana morava no Oiapoque e encontrou Evandro, cidadão do Chuí, numa sala de bate-papo da Internet. Levaram um e-namoro por um tempo, até que decidiram partir para um encontro real num resort baiano. Casaram-se seis meses depois, e hoje estão muito felizes. Amanda conheceu Jorge no Facebook. Ou melhor, foi Jorge quem a abordou, e acabou conquistando a moça. Conheceram-se pessoalmente e, para encurtar a história, Jorge surrupiou todas as economias da incauta apaixonada e desapareceu mundo afora. Cada vez mais ouvimos histórias de pessoas que têm, ou tiveram um romance iniciado de forma virtual. E cada vez mais é tema corrente em rodas de amigos a viabilidade deste canal de aproximação. Passatempo descompromissado? Fonte de saciamento rápido dos apetites sexuais, ou "fast-fodas"? Um catálogo de reposição de parceiros descartáveis? Ou um meio viável de se encontrar pessoas afins e a fim de algo mais?

É um fato incontestável: conhecer pessoas pela Internet com a intenção de encontrar a cara metade, uma relação afetiva, amigos, ou apenas uma noite de prazer, é algo que veio para ficar e fazer parte de nossas vidas. Sem entrar em digressões filosóficas do que é "real" e "virtual", nem buscar vereditos definitivos e taxativos como “válido” e “inválido”, como se a questão se resumisse a “preto” ou “branco” e ignorando os cinquenta tons de cinza, ou melhor, as múltiplas cores da escala RGB entre esses extremos, a neutralidade incolor do “depende” e do “cada caso é um caso” é o mais acertado para esta questão. Mas vale a pena direcionar as luzes de nossa atenção para um dos pontos mais movediços das abordagens e relacionamentos ditos virtuais, e que pode fazer toda diferença: a PROJEÇÃO!

A projeção é um mecanismo psicológico inconsciente que faz com que conteúdos de nossa psique sejam vistos no outro como características suas, quando na verdade são nossos. Em suma, "projetamos" na outra pessoa questões e aspectos da nossa própria alma. Ela é como um véu que, sem percebermos, jogamos em cima do outro, encobrindo suas reais características fazendo-nos enxergar nele aquilo que desejamos, que buscamos, impedindo-nos de vê-lo como ele realmente é. Este fenômeno psíquico é inerente a todo tipo de relação humana, mas a afetiva é o ambiente mais favorável para que ela exiba todas as suas nuanças e tentáculos, fazendo do outro uma tela refletora perfeita na qual são projetados todos os nossos conteúdos inconscientes: desejos, medos, raivas, ascos, expectativas...

Muito natural se pensar: "certo, mas no jeito tradicional de se conhecer pessoas também há uma grande parcela de projeção envolvida". Isso é fato! E aqui reside o x da questão: nos relacionamentos virtuais ela é potencializada, inflada. Quando conhecemos alguém pela vitrine da felicidade (também conhecida por Facebook) ou numa sala de bate-papo lemos e vemos apenas o que está escrito; vemos fotos estáticas muito bem selecionadas previamente. Os elementos não racionais (cheiro, gestos e posturas corporais, o timbre da voz, o sorriso, o olho no olho, a "vibração" da pessoa) estão ausentes ou muito limitados, e acabamos formando uma imagem mental daquela pessoa bem mais próxima das nossas fantasias e expectativas, e muito mais distante do que veríamos, ouviríamos, intuiríamos. E se nossa alma é um campo fértil para a projeção, cheio de carências e expectativas... pronto! O outro com quem interagimos está mais para um príncipe de conto de fadas do que para o real sapo que, se bem tratado, poderia ser um ótimo parceiro numa gratificante história a dois. E, a médio prazo, o resultado disso na melhor das hipóteses é mais que previsível... podendo até ser desastroso, como no caso da Amanda linhas acima.

amorcelular-24072.jpgFonte: http://www.portalromantico.com/

O maior sinal de que a projeção é a rainha do pedaço e está emitindo seu canto de sereia pode ser constatado quando decidimos partir para o encontro cara a cara. Quantas pessoas não se queixam de que, no WhatsApp ou Skype, o outro é atencioso, divertido, espirituoso, safadinho, e quando há um encontro real ele se torna monossilábico e fica olhando para o pé... Parece que, pelo computador ou celular, ele está teclando não com um ser humano, de carne, osso e emoções, mas sim com um personagem dentro de sua mente, e com essa figura há intimidade, sinergia, cumplicidade, o "sentir-se em casa". A projeção é aquela mão invisível que tapa nossos olhos diante do parceiro, deixando-nos apenas com nossa imaginação e expectativas. Há quem aposte que o melhor antídoto para esse mal seja encurtar a fase virtual e, se houver desejo de ambas as partes, ir rapidamente para o encontro real. Quem sabe...

Conhecer pessoas pela Internet pode parecer uma furada, mas, como tudo na vida, também tem suas vantagens. É mais uma possibilidade de encontros que veio pra ficar. A sinceridade e objetividade ao assumir seu modo de pensar e seus desejos (afetivos, sexuais, comportamentais...) numa primeira abordagem é facilitada quando se está na frente de uma tela de computador ou celular; isso pode rapidamente evidenciar incompatibilidades, abreviando as coisas. Pela Internet você pode conhecer gente do mundo todo, e não apenas dos lugares que frequenta. Pra quem não curte baladas ou bares, é possível interagir com outros sem abrir mão do conforto de seu lar. Até a própria projeção tem seu lado positivo, quando não sucumbimos a ela e estamos dispostos a encará-la: fazer com que nos conheçamos e passemos a enxergar o que se passa nos becos e meandros de nossa alma. Muitas pessoas dizem que o outro é um espelho que reflete a nós mesmos, e isso tem uma grande parcela de verdade. Conscientizando-nos de nossas carências, deficiências, desejos e não desejos, expectativas e limitações - em suma, "recolhendo" nossas projeções e trabalhando-as como algo bem e só nosso - evitamos muitas derrapagens e saídas para o acostamento desse caminho que chamados de busca da felicidade.

Assim como toda forma de amor é válida, todo caminho pra se chegar a ele também é lícito, desde que ambos sejam sadios para as partes envolvidas e promovam o despertar do melhor delas. Buscar uma relação gratificante valendo-se do meio virtual como forma de abordar e conhecer pessoas, no frigir dos ovos, é apenas mais um canal à nossa disposição. E que bom que temos mais opções que nossos antepassados! Como fogo, tempero e perfume, devemos usá-lo com parcimônia e na dose certa; se passar do ponto, o resultado pode vir a desandar. Se formos sinceros conosco e com o outro, se buscarmos o autoconhecimento, abandonando a postura passiva de “me surpreenda”, tirando do outro a obrigação e expectativa de nos fazer felizes, e fizermos das palavras “construção” e “parceria” nossos mantras – em suma, se "recolhermos" nossas projeções e trabalharmo-las como algo nosso - o meio virtual torna-se uma ponte para o caminho das experiências e sentimentos reais. Caminho esse que temos que desbravar e trilhar com afinco, mas com melhores condições de termos uma feliz jornada. E, mesmo sem certezas nem garantias, esta viagem pode ser bem mais suave e colorida.


Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/sociedade// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Marcelo Wolf