de tudo um pouco

Arte, Ciência, Filosofia, Atualidades

Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!

Saber delegar: por uma vida afetiva e prática com mais prazer

Você acha natural uma “infidelidade cultural” de seu parceiro afetivo com um amigo? Dispõe-se a fazer pequenas atividades que fogem totalmente à sua esfera intelectual e profissional? Parabéns, você conjuga, na prática, o verbo DELEGAR a seu favor. Caso contrário, você deveria ler esse texto...


AmorLivre.jpg

Marcos e Suzana formam um casal que faz tudo juntos: passeios, viagens, cursos livres, visitas aos familiares, atividades espirituais... Sempre estão satisfeitos com seus programas e suas escolhas. Se você acha que isso é um sinônimo de amor autêntico e total afinidade, não leia o restante deste texto. Pois ele fala de casais reais, com diferenças de gostos, vontades e tempos.

João é um profissional competente do ramo de informática. Utiliza todo seu tempo aperfeiçoando-se nas artes computacionais e, como ganha um bom salário, não se preocupa com pequenos afazeres não relacionados à sua carreira: paga para outros fazerem. Se você acha que João está certíssimo, esqueça este texto. Pois ele fala da importância de se expandir suas mais diversas aptidões e habilidades.

E o que o João e o casal têm em comum? Podem nunca terem parado pra pensar em algo que pode melhorar a qualidade das relações e a satisfação na vida: saber delegar atividades. Terceirizar, mesmo sendo uma palavra estranha no dicionário amoroso, pode fazer a diferença positivamente. Calma, deixemos o Ricardão fora disso... Ao mesmo tempo, este poderoso instrumento da vida moderna pode se tornar uma maldição invisível se usado com exageros.

Muitas vezes insistimos na postura “onipotente, onipresente e onisciente” em nossas relações afetivas. Tentamos ser a fonte que supre todas as demandas do outro, exigindo o mesmo, e acabamos nos encasulando na relação. Eu não gosto de viajar e o outro abre mão disso, pois amar é ceder. Cerveja com os amigos é uma atividade extremamente subversiva. Programas de casal são prioritários, até únicos. E amar é (fingir) ter prazer em fazer absolutamente tudo junto.

Ou então partimos para a eterna diplomacia: faço hoje algumas coisas das quais não gosto, você faz outras que não aprecia amanhã, e no final há um empate. Não percebemos que, ao longo do tempo, esse jogo de toma lá dá cá (quando constante) vai cansando e, invisivelmente, minando a admiração e o prazer de estar com o outro. E pode até acabar virando um cabo de guerra. Mutilamos partes de nossa alma para que ela caiba na cama da relação.

Não precisa ser assim. Não conseguimos dar conta de tudo que o outro necessita e quer para sua vida, e vice-versa. Um amigo, um hobby, um familiar, uma tarefa podem suprir uma demanda na vida de quem eu amo e que eu não posso ou não estou disposto a satisfazê-la. Mas meu ciúme e insegurança torcem o nariz para essa possibilidade.

Aí chegamos ao cerne da questão! Se encarássemos as nossas inseguranças e suportássemos o medo da possibilidade do outro ampliar seus horizontes e perder o interesse por nós; se olhássemos de frente nosso ciúme ou nossa inveja não confessada de ver quem amamos mais satisfeito e feliz do que nós; se tivéssemos um pouquinho mais de sensatez, autoconhecimento e “segurássemos nossa onda”, delegar seria algo extremamente saudável num relacionamento.

chained-heart.jpg

Opostamente, nas atividades do dia a dia exageramos no ato de delegar tarefas por conta da praticidade e da falta de tempo. Terceirizamos ao carro a atividade física mais básica: o caminhar. Vamos à padaria da esquina motorizados, e deixamos de andar a pé, de prestar atenção no que existe pelo caminho, nas pessoas com quem cruzamos.

Comemos fora e quase não cozinhamos mais; não sabemos trocar uma torneira, um soquete, uma fechadura; talvez a pior das delegações que fazemos seja a educação de nossos filhos, transferindo a maior parte desta responsabilidade à escola.

Não nos damos conta de que, terceirizando essas atividades auxiliares e não tanto “vistosas”, acabamos mutilando nossos corpos e almas. Priorizamos atividades intelectuais e perdemos as habilidades manuais. Não mexemos mais com terra. Não exercitamos nossos sentidos físicos; reduzimos nossas sensações a um mínimo basal, e nossos corpos acabam ligados às nossas almas por um fio. Desaprendemos a ouvir nossa intuição, a voz não racional que vem de nosso interior indicando novas possibilidades e caminhos, e imediatamente ela é filtrada pelo crivo racional de nosso intelecto tirano.

As pesquisas no campo na neurociência mostram que quanto mais diversificamos nossas tarefas e desenvolvemos habilidades criamos novas conexões sinápticas e ativamos mais áreas cerebrais. Em suma: tornamo-nos mais inteligentes e não estamos atrofiando habilidades e capacidades cognitivas, manuais, emocionais e não lógicas, que nos trazem benefícios nem sempre mensuráveis e claramente perceptíveis.

leonardo_da_vinci.jpg Leonardo da vinci: um dos melhores exemplos de desenvolvimento de múltiplas habilidades

Claro que não damos conta de tudo, e nem precisamos voltar ao período neolítico ou demonizar a tecnologia e suas facilidades. Mas equilibrar nossas tarefas principais com aquelas coadjuvantes, como trocar uma torneira, cozinhar de vez em quando, fazer atividades manuais, contemplar, exercitar os cinco sentidos e perceber o mundo ao nosso redor pode trazer um ganho para outras aptidões.

Da mesma forma, negociações e pequenos sacrifícios em benefício do parceiro são válidos e também são provas de maturidade do casal. Fazer algo do qual não gosto, mas que é importante para o outro, para estar com ele e vê-lo feliz, sem que isso seja uma obrigação ou regra (esse é o ponto central!), é uma prova de amor. Porque amar é isso: querer ver o outro bem e feliz independente de mim.

E vale a pena lembrar que delegar não é transferir responsabilidades; ainda sou responsável por aquilo que delego e suas consequências. Quando delegamos assumimos nosso lado humano, limitado, que precisa de ajuda na jornada da vida em busca da felicidade. Também não é um ato de descarte do que não gosto e não quero fazer. É uma habilidade que, bem dosado, nos ajuda a colocar mais sabor e satisfação nas nossas vidas.


Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @destaque, @obvious //Marcelo Wolf