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Arte, Ciência, Filosofia, Atualidades

Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!

O amor possui prerrequisito?

Para se responder a esta questão, observemos as crianças. Elas podem nos ensinar muito sobre relacionamentos afetivos verdadeiros e gratificantes.


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Uma das coisas mais bonitas de se ver em crianças é a facilidade com que formam novos amiguinhos. Dois adultos combinam uma reunião social para que as famílias se conheçam. Os filhos vão junto. Num primeiro momento, os pequenos se olham meio desconfiados, tímidos, ressabiados, às vezes um deles até grudado na perna da mãe. Dez minutos depois já estão brincando juntos e, no final do encontro, suplicando aos pais pra não irem embora e ficar mais um pouquinho.

Adultos têm muito que aprender com as crianças. Com sua espontaneidade, sua falta de máscaras e protocolos... Haveria no mundo mais amizades, mais relações amorosas genuínas. Isso mesmo, amor verdadeiro. E quem não gostaria de viver isso, amar e ser correspondido de forma autêntica? Aposto que, pra você que chegou até aqui, uma palavra de quatro letras está passando agora pela sua cabeça: “como?”.

Todo mundo tem uma dica, uma opinião quando o assunto é amor, mas nenhum deles é uma verdade universal; estão mais pra heurísticas do que pra fórmulas infalíveis. Para cada coração um caminho único. Mas uma coisa é fato: se se busca algo verdadeiro, seus alicerces precisam ser verdadeiros. A verdade não nasce da mentira, no máximo se esconde atrás desta... Assim, amor verdadeiro só quando ambos os parceiros são autênticos e sinceros. Consigo próprio em primeiro lugar!

E, na maioria das vezes, fazemos o oposto disso. Quando nos interessamos por alguém queremos atrair, seduzir, causar uma boa impressão. Mas, num impulso infantil, tememos não ser aceitos, desejados, admirados como somos. A rejeição é a erva daninha com raízes mais longas e profundas; poucos são aqueles que não têm nenhum desse rizoma no fundo de sua alma.

E, por conta desse desejo (ou necessidade?) de sermos escolhidos (ou aceitos?) promovemos a maior de todas as traições: colocamos nossa essência interna trancada num porão e botamos sentadinho no sofá da sala um Frankenstein formado pela junção de pedaços de personalidades que acreditamos fazer de nós seres mais interessantes. E, muitas vezes, essas peças e acessórios nem nossos são.

Inventamos hobbies diferentes, bebidas e restaurantes exóticos, viagens incríveis, opiniões de impacto, estilos de vida invejáveis, piruetas sexuais que estão mais para o Cirque du Soleil do que para um momento único a dois, tudo para impressionar o outro e fazer com que ele nos ache "UAUUU" e nos queira. Quando ele está nessa mesma “vibe”, essa forma de atração, que mais se assemelha a uma ratoeira, acaba funcionando.

Quando a relação atinge uma fase de estabilidade e a coisa não vai bem, muitas vezes preferimos não encarar a verdade, deixando tudo como está e confiando na vida para que as coisas mudem por si só ou voltem aos eixos. Tudo para não sermos abandonados, preteridos... E, em nome disso, fazemos as adaptações em nossas vidas (leia-se “automutilações”), abrindo-se mão de gostos, prazeres, desejos, planos, sonhos... Em nome do “equilíbrio da relação”, mas, na verdade, para que meu(a) companheiro(a) me queira e jamais vá embora.

Máscaras não grudam para sempre, e inevitavelmente começam a derreter. Uso propositalmente o termo “derreter” porque é um processo lento, devagar, que as pessoas não se dão conta de imediato. Pedaços delas podem despencar em momentos específicos como rebocos de uma construção, expondo o concreto armado e cru; isso assusta mais, o impacto é imediato. Mas, geralmente, é um processo de desgaste lento, uma transfiguração às avessas, que exige tempo e afinação dos sentidos da alma pra se perceber. E os resultados não são difíceis de imaginar...

Ninguém consegue sustentar por muito tempo algo que não se é, a não ser que pague um dos preços mais altos e pérfidos: a anulação de sua própria essência. E não nos damos conta de uma grande miopia: mesmo que se seja essa pessoa sensacional, não são essas características de estilo de vida que fazem o amor autêntico brotar.

O brilho reluzente deste ouro falso eclipsa nossa capacidade de perceber que o que atrai e mantém o outro ao nosso lado, mesmo que ele não tenha consciência disso, são aquelas qualidades essenciais que formam uma relação autêntica. Atenção e escutatória com a alma, e não apenas com os ouvidos; carinho, cuidado e gentileza; apoio e ombro para os momentos mais difíceis; partilha e companhia para os bons instantes; dedicação, lealdade...

O amor só brota numa relação forjada na intimidade, na entrega, na autenticidade de vida, de sentimentos, e no empenho constante dos envolvidos. Quando tiramos as armaduras e nos mostramos como somos de verdade e enxergamos o outro como ele é. E se há afinidades, o amor vai desabrochando cada vez mais.

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Mas, pra isso acontecer, temos que ser corajosos e correr riscos: de ter incompatibilidades evidenciadas e o outro não curtir nosso jeito de ser. Não por causa de “defeitos” (termo corrente porém horrível...), mas porque, no fundo, não havia compatibilidades suficientes. Sem culpas nem culpados, apenas porque o triângulo não se encaixa no círculo. Infelizmente isso acontece... E muito! Estamos falando aqui de um propósito de verdadeira autenticidade, e não de um tapa buracos.

Se se gostou do que viu, o compromisso foi selado e a relação se firmou, a coragem não pode ir para o banco de reservas pois o jogo não está ganho. Cada pessoa é dinâmica, transmuta-se com o tempo e as experiências. A maior alquimia acontece quando ambos transformam-se olhando para a mesma direção e sentido. Além disso, a chama do amor por si só não se mantém; precisa de combustíveis, comburentes e calor constantes. É o trabalho necessário pra se manter um relacionamento afetivo, resumido como ajustes, adaptações, construções, parceria... Mas o oxigênio precisa ser a autenticidade. Para que esta chama seja verdadeira, e não aquela que carboniza sua essência. Lendo parece fácil, mas não é...

Num mundo em que “a primeira impressão é a que fica”, é muito difícil não querer melhorar aquilo que vai se mostrar ao outro. Numa dose sensata, faz parte do jogo de sedução e torna-se o laço de fita a adornar nossas características essenciais. Essas sim é que criarão os verdadeiros e firmes laços (não nós!) de uma relação amorosa autêntica. Se for isso o que buscamos, temos que começar conosco, sendo autênticos. E nesse ponto, nós, adultos, temos muito a aprender com as crianças, principalmente com sua espontaneidade. Acho que por isso suas relações são tão imediatas, prazerosas e, muitas vezes, duradouras. No amor, sejamos menos infantis, e mais crianças!


Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!.
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