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Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!

Por que Aylan chocou o mundo ou de quando o sofrimento bate à nossa porta

Por que a morte deste lindo garotinho nos tocou tanto e quais os possíveis desdobramentos na questão dos refugiados na Europa.


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A humanidade foi esbofeteada com a foto do pequeno Aylan Kurdi, encontrado morto por afogamento em uma praia da Turquia. Uma grande repercussão se deu na imprensa e nas mídias sociais do mundo todo. Não é a primeira vez que fortes imagens do sofrimento de crianças ganham destaque a nível global. Vale lembrar algumas, como a da menina Kim Phuc, a correr nua após o bombardeio de sua vila durante a guerra do Vietnã, e a do menino sudanês Kong Nyong, em estado de severa desnutrição e fome, sendo espreitado por um abutre.

Parece-me que o impacto da foto recente foi maior, quiçá até tenha se tornado um catalisador para ações de cidadãos e líderes de países europeus em favor dos milhares de refugiados que chegam à Europa em condições lamentáveis. Esse maior impacto será resultado de um mundo conectado pela Internet e pelo poder das redes sociais? Sem dúvida, mas penso que vai além disso.

Uma menina do outro lado do planeta, num cenário de guerra, ou um garoto, como milhares de outros, em um continente há séculos devastado pela miséria sensibilizam qualquer pessoa, mas estão longe de nosso pequeno mundinho cotidiano e palpável. Por mais que nossa mente racional insista em afirmar que eles são reais, dentro de nós parece haver uma névoa imperceptível que os transformam em personagens de uma espécie de conto de fadas macabro, porém distante da realidade. Da nossa realidade.

Aylan não! Ele estava bem vestido, não com roupas exóticas, e usava lindos sapatinhos. Suas feições não eram a de uma criança de três anos esquálida - muito pelo contrário. Ele poderia muito bem ser considerado um menino europeu, americano ou brasileiro. Ele poderia se passar tranquilamente por nosso filho! Inconscientemente, o sofrimento humano não está mais distante, e sim muito próximo de nós. E isso dissipa a névoa da fantasia e provoca uma fissura na inércia de nossas almas.

É um mecanismo similar ao de se ouvir no noticiário sobre o assassinato de um desconhecido, e receber a notícia de que uma pessoa que você conhece, como um vizinho, teve o mesmo destino. A proximidade choca! É como se a tragédia estivesse tangenciando nossas vidas.

Aylan pode se tornar o símbolo de uma virada em que sintamos a urgência de agir. Não por um surto repentino de bondade ou um despertar de uma alucinação egoísta coletiva. Estamos nos mobilizando porque as ondas deste tsunami social estão ameaçando nos engolir. Algo precisa ser feito. E, na marra, precisamos encarar os desafios do século XXI.

Não dá mais pra alimentar a resignação passiva e fingir que não é conosco e não nos afetará. Não dá mais pra ignorar as mudanças climáticas, usurpar o planeta de forma indiscriminada e irracional e não sentir seus efeitos na pele. Não é mais possível dividir o ser humano em castas e se confortar no lado "privilegiado" frente ao sofrimento e miséria alheios. Senão seremos tragados pelas consequências da manutenção dessa postura individualista.

Quem sabe esta linda criança que morreu afogada, levada por seus pais em busca de um futuro digno, seja o divisor de águas neste episódio das imigrações que, historicamente, estamos assistindo e tomando parte, direta ou indiretamente. E que certamente terão muitos desdobramentos.

Coletivamente, esta onda imigratória irá mudar a Alemanha, como vaticinou Ângela Merkel. Na verdade, todo o continente! A velha Europa será beneficiada pela força e vigor do trabalho imigrante, pelos impostos que eles pagarão. Mas, as transformações vão muito mais além. Uma nova miscigenação processar-se-á. Da mesma forma que as invasões germânicas alteraram profundamente a configuração política, social e humana do continente europeu, a partir do final do império romano, o mesmo processo dar-se-á, numa espécie de história rediviva, só que em outros moldes. Só os séculos mostrarão os resultados.

Individualmente, todos nós, seres humanos, teremos cada vez mais que encarar os cancros sociais e lançar luz às questões escondidas nos recônditos escuros de nossas almas: o egoísmo, o individualismo, como nos posicionamos frente ao sofrimento alheio...não bastará mais segregar os imigrantes às periferias e alimentar o xenofobismo, o racismo e os preconceitos religiosos. Isso apenas fomentará a discriminação e os conflitos sociais, como assistimos mais claramente na França, notadamente em 2005.

Se quisermos lidar com o problema da violência em sua raiz temos que desenvolver a tolerância e a compaixão; cultivar o respeito às diferenças e a fraternidade; não olharmos apenas para nosso próprio umbigo e ficarmos indiferentes ao padecimento dos outros. A História, através desta questão imigratória, está exigindo que encaremos e, de alguma forma, lidemos com essas questões.

Quem sabe o atropelo da crueldade social não abra uma brecha em nossas almas para sentirmos de verdade como o outro sente e nos mobilize a agir. De início para não protagonizarmos outras tragédias. Com o passar do tempo e o transcorrer desse lento e alquímico exercício de solidariedade, a compaixão tome corpo e desperte a mais alta oitava da índole humana, ainda em latência dentro de cada um de nós: a bondade e a fraternidade universal.


Marcelo Wolf

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