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Marcelo Wolf

O conhecimento é a matéria-prima da consciência. Esta sim é a chave que liberta!

LIBERDADE DE EXPRESSÃO: A TÊNUE FRONTEIRA ENTRE OPINIÃO E A VOZ DO OCULTO EM NÓS

Ao manifestar ideias e opiniões, não temos anticorpos suficientes que neutralizam outras questões inconscientes em nós, e estas acabam sendo projetadas na discussão, resultando numa verdadeira guerra: ideológica, de interesses ou, simplesmente, de egos.


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O jornal satírico francês Charlie Hebdo iniciou 2016 sendo, mais uma vez, centro de uma polêmica que toma as redes sociais e a imprensa. Publicou a charge acima, cuja tradução aproximada dos dizeres é: “O que teria sido do pequeno Aylan se tivesse crescido? Perseguidor de mulheres na Alemanha”. A charge alude às denúncias de abuso sexual e roubo de mulheres na noite de ano novo, praticados por refugiados naquele país.

E novamente é deflagrado o debate sobre a liberdade de expressão e seus limites. Opiniões devem ser manifestadas irrestritamente? Ou certas fronteiras devem ser respeitadas, canonizando a máxima “minha liberdade termina onde começa a do outro”?

O debate de ideias se assemelha ao espectro luminoso, indo da crítica construtiva a ofensa e grosseria, tendo no centro uma zona cinzenta em que ambas se confundem e também nos confundem. E é nessa “Faixa de Gaza” que jazem ocultos intenções, preconceitos e até interesses, como se fossem verdadeiros campos minados, e embates de toda espécie surgem.

Muitos se arvoram o direito de dizer o que bem entendem, exibindo o selo da “franqueza”. Há aqueles que defendem a liberdade irrestrita de opinião, doa a quem doer, cabendo ao alvo da crítica a tarefa de lidar com ela e aceitar o direito alheio de manifestá-la. Não seria isso uma inversão de papéis: quem inicia a ação transfere ao outro a responsabilidade de, de alguma forma, desativar essa granada incendiária?

Olhar para a liberdade de expressão sob o viés psicológico pode ser um exercício rico e interessante. No melhor dos mundos, numa sociedade minimamente sensata e instruída e na qual as palavras proferidas se encaixam na melhor definição de “crítica”, essa liberdade é o mais poderoso instrumento de aprimoramento. Mas o que vemos, muitas vezes, é sua transformação numa trincheira para proteger aqueles que atiram bombas e granadas em forma de ofensas e impropérios travestidos como “verdades” e “minha liberdade de manifestar o que penso”.

A verdade é que somos pouco preparados para discutir ideias e opiniões num alto nível. Facilmente elas resvalam, sem percebermos, para o lado pessoal, resultando em ataques ao emitente, não à sua ideia. Isso porque, na maioria das vezes, o que dizemos e ouvimos estão contaminados com outras questões inconscientes e que acabam sendo projetadas na discussão de uma ideia (como rejeição, complexo de poder, baixa autoestima, medos...).

E o resultado disso se assemelha a uma guerra. Ideológica e de interesses, em um nível coletivo, ou de egos no nível individual: se o outro tem razão ele me “vence” na discussão e isso, inconscientemente, é lido como aniquilamento. E este passa a lutar com qualquer arma para sobreviver.

Fazendo um paralelo com a repressão dos instintos para se viver em sociedade, a ausência de um “superego da comunicação” não seria algo próximo a dar vazão a qualquer ato instintivo em nome da autenticidade? Por outro lado, desenvolver esse mecanismo não estimula uma sociedade politicamente correta e morna, cheia de freios e falsas diplomacias que formam uma grossa persona a sufocar e mascarar a realidade?

Tomemos como exemplo as duas ilustrações abaixo publicadas no Charlie Hebdo. A primeira ironiza a Santíssima Trindade dos cristãos; a segunda, “Reunião Azul Racista”, mostra a ministra da Justiça da França, Christiane Taubira, como um macaco. Tais charges são uma prova concreta de desrespeito à fé alheia e de racismo? De ausência de limites de expressão? Ou elas estão numa oitava superior e utilizam métodos chocantes para evidenciar e questionar valores arraigados em nossa cultura e sociedade, fazendo, assim, os fins justificarem os meios?

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Como colocado no site understanding Charlie Hebdo Cartoons, "O Charlie Hebdo emprega sua sátira brutal preferencialmente contra o dogma, a hipocrisia e a histeria, independentemente da sua origem. A sátira funciona ao jogar com diferentes níveis de interpretação (ironia) – um empreendimento fundamentalmente subjetivo que nas mãos do Charlie Hebdo certamente deixa um amargo na boca de quem o vê. Humor não é um requisito".

Voltando à charge recente, apresentada no início deste texto: quais garantias se têm de que o pequeno Aylan seria um perseguidor de mulheres e não um colaborador integrado na sociedade? A falta de respeito e condolência para com uma criança de três anos morta por afogamento, num denegrir de sua memória, justifica qualquer discussão embutida aí? A afirmação categórica do texto não traz embutida uma espécie de xenofobia contra todo estrangeiro?

E eu pergunto aos meus botões: estamos preparados para esse tipo de sátira? Nos tempos correntes, não seria como cutucar uma onça com vara curta sem se importar com respostas violentas, como foi o ataque sofrido pelo jornal no início de janeiro de 2015? Nível refinado de crítica ou outras questões travestidas como liberdade de expressão? Bem vindos à zona cinzenta! E que cada um responda para si essas questões.


Marcelo Wolf

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